O mundo deverá investir entre US$ 600 bilhões e US$ 800 bilhões por ano em setores ligados à descarbonização da economia, como siderurgia, fertilizantes, combustíveis, produtos químicos e materiais industriais.
Se conseguir atrair uma pequena parcela desses recursos, o Brasil poderá adicionar entre 1 e 1,5 ponto percentual ao crescimento anual do PIB (Produto Interno Bruto), segundo o estudo Brazil’s Investment-led Growth in the Ecological Transition, divulgado pelo CETEx (Centre for Economic Transition Expertise), da LSE (London School of Economics).
Para efeito de comparação, a economia brasileira cresceu 2,3% em 2025. Isso significa que a transição ecológica poderia acrescentar ao PIB um volume de crescimento equivalente a quase metade de toda a expansão registrada pelo país no último ano, elevando o ritmo de crescimento do PIB para algo próximo de 4% ao ano.
Nesse cenário, o Brasil estaria entre os países mais bem posicionados para receber parte desses recursos. O relatório destaca que a combinação de energia limpa, recursos naturais abundantes, capacidade agrícola, minerais estratégicos e relativa neutralidade geopolítica coloca o país em posição privilegiada para se tornar uma plataforma global da transição energética.
Segundo o estudo, o desafio brasileiro não é apenas exportar commodities verdes, mas transformar suas vantagens naturais em atividades industriais de maior valor agregado, capazes de gerar produtividade, empregos qualificados e crescimento econômico sustentável.
Energia barata pode atrair novas indústrias
Uma das principais teses do documento é que a geografia da indústria está passando por uma transformação estrutural. Em vez de levar energia até as fábricas, empresas tendem cada vez mais a instalar suas operações próximas de regiões com energia limpa, abundante e competitiva.
Os autores chamam esse movimento de powershoring, conceito que descreve a realocação de atividades industriais intensivas em energia para locais onde os custos da eletricidade são menores e a pegada de carbono é reduzida.
Nesse aspecto, o Brasil aparece em posição de destaque. O estudo mostra que o custo nivelado da energia eólica onshore no país é de cerca de US$ 33,6/MWh, enquanto a energia solar em escala de utilidade pública gira em torno de US$ 46/MWh. Em mercados industrializados, os custos são significativamente mais elevados.
No Japão, por exemplo, a energia solar custa aproximadamente US$ 172/MWh e a eólica supera US$ 140/MWh. Na Bélgica, os valores chegam a US$ 90/MWh para solar e US$ 67/MWh para eólica.
Para os pesquisadores, essas diferenças são suficientemente relevantes para influenciar decisões de investimento em setores como aço verde, hidrogênio renovável, fertilizantes, combustíveis sustentáveis e processamento de minerais críticos.
Brasil já possui vantagem na matriz elétrica
Outro ponto destacado pelo relatório é que o Brasil já opera uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo. Cerca de 90% da geração de eletricidade do país é proveniente de fontes renováveis, principalmente hidrelétricas, eólicas e solares.
Na avaliação dos autores, essa condição representa uma vantagem competitiva importante em um momento em que países desenvolvidos ainda precisarão investir trilhões de dólares para descarbonizar seus sistemas elétricos.
Nordeste pode liderar nova onda de investimentos
O estudo também aponta o Nordeste como uma das regiões com maior potencial para capturar investimentos ligados à transição energética no Brasil.
Simulações apresentadas pelos autores indicam que a região poderia atrair entre US$ 15 bilhões e US$ 60 bilhões ao longo da próxima década em projetos associados à nova geografia industrial da energia limpa.
Dependendo do cenário, os investimentos poderiam gerar centenas de milhares de empregos diretos e indiretos, além de ampliar exportações e arrecadação tributária.
A avaliação é que a combinação entre recursos eólicos de classe mundial, expansão da energia solar, infraestrutura portuária e disponibilidade de áreas para novos empreendimentos cria condições favoráveis para o desenvolvimento de polos industriais de baixo carbono.
Solar e eólica impulsionam economias locais
O documento também cita estudos realizados em municípios brasileiros que receberam projetos de geração renovável. Segundo os dados apresentados, usinas solares e eólicas nem sempre geram grandes volumes de empregos permanentes após a conclusão das obras. Ainda assim, os impactos econômicos podem ser expressivos.
Em municípios analisados, a instalação de parques solares elevou o PIB local em cerca de 23%, enquanto empreendimentos eólicos proporcionaram crescimento próximo de 12%. Os autores destacam que os benefícios vão além da geração direta de empregos, incluindo melhoria da infraestrutura e fortalecimento das economias regionais.
Risco de virar apenas exportador de commodities verdes
Apesar do cenário favorável, o relatório faz um alerta. Na avaliação dos pesquisadores, o Brasil corre o risco de repetir um padrão histórico de desenvolvimento caso se limite a exportar energia limpa, hidrogênio, minerais críticos e matérias-primas sem desenvolver cadeias industriais associadas.
O estudo chama esse fenômeno de “green resource curse” ou “maldição verde dos recursos naturais”. Segundo os autores, o verdadeiro potencial econômico da transição ecológica está na industrialização dessas vantagens competitivas, com agregação de valor, desenvolvimento tecnológico e integração às cadeias globais de produção.
Para isso, o relatório defende avanços em infraestrutura, qualificação profissional, inovação, segurança regulatória e redução dos entraves que compõem o chamado “Custo Brasil”.
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