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Início / Notícias / Sustentabilidade & ESG / Braskem revela estratégia para administrar uma conta de energia de R$ 3 bilhões

Braskem revela estratégia para administrar uma conta de energia de R$ 3 bilhões

Canal Solar conversou com exclusividade com Robson Casali, gerente de Desenvolvimento de Negócios de Energia
Acompanhe pelo Whatsapp
  • Foto de Wagner Freire Wagner Freire
  • 16 de julho de 2026, às 08:52
9 min 44 seg de leitura
Canal Solar - Braskem revela estratégia para administrar uma conta de energia de R$ 3 bilhões
Foto: Robson Casali, gerente de Desenvolvimento de Negócios de Energia

Com uma fatura anual de aproximadamente R$ 3 bilhões em energéticos, a gestão de energia ocupa uma posição estratégica dentro da Braskem. A companhia combina geração própria, autoprodução renovável, contratos no mercado livre e acompanhamento do consumo em tempo real para reduzir custos, administrar riscos e avançar em suas metas de descarbonização.

Todas as plantas industriais e as principais cargas da empresa no Brasil estão no mercado livre. Além disso, a Braskem possui mais de 600 MW em projetos de autoprodução eólica e solar associados às suas operações e gera internamente cerca de 150 MW médios em unidades termelétricas integradas ao processo petroquímico.

Nesta entrevista, Robson Casali, gerente de Desenvolvimento de Negócios de Energia da Braskem, explica como esse portfólio é administrado, detalha os indicadores acompanhados pela companhia e apresenta os projetos que já contribuíram para superar dois terços da meta de redução de emissões prevista para 2030.

Como a Braskem estrutura sua estratégia de gestão de energia e quais indicadores utiliza para avaliar seus resultados?

A Braskem é uma empresa energointensiva. Temos um consumo muito grande de energia elétrica e, principalmente, de energia térmica. Por isso, a estratégia de gestão passa por diversas áreas da companhia, começando pela operação e pelo melhor uso da energia.

Um dos indicadores que acompanhamos é o consumo de energia elétrica por tonelada de produto produzido. Esse indicador é monitorado praticamente desde o início da Braskem. Temos os dados por planta, e eles funcionam como uma das principais referências para a nossa gestão.

Também existe a gestão relacionada ao mercado, à comercialização e à regulação, conduzida pela Diretoria de Energia. Há uma integração muito grande entre essa diretoria e a produção. Hoje, cada vez mais, as informações são acompanhadas hora a hora. Temos o PLD horário e o consumo de gás, por exemplo, que precisa respeitar os compromissos diários de take-or-pay.

Por meio dos otimizadores em tempo real que temos dentro da Braskem, procuramos chegar sempre ao ponto ótimo, tanto no volume consumido quanto no tipo de energia utilizado. A Braskem possui algumas flexibilidades e trabalha com elas de acordo com os preços, seja no consumo de combustíveis, seja na geração e no consumo de energia elétrica.

É uma gestão que realmente atravessa toda a empresa, porque os valores envolvidos são muito relevantes. Somente o que compramos no mercado representa uma conta anual em torno de R$ 3 bilhões, considerando todos os energéticos.

Além da energia adquirida no mercado, o próprio processo petroquímico gera combustíveis utilizados pela companhia?

Sim. A maior parte dos energéticos consumidos pela Braskem vem de subprodutos do próprio processo petroquímico. Em termos proporcionais, cerca de um terço é comprado e dois terços são provenientes desse processo.

Quando processamos a nafta, que é a principal matéria-prima utilizada pela Braskem, produzimos eteno, propeno, benzeno e outros produtos químicos. Mas aproximadamente 20% desse processamento resulta em produtos que não vale a pena comercializar.

É mais vantajoso utilizá-los como energéticos. Um exemplo é o metano produzido durante o processo. Faz mais sentido queimar esse metano diretamente do que comprar gás natural, que seria seu substituto imediato.

Portanto, o próprio processo gera correntes de hidrocarbonetos que são aproveitadas como energéticos dentro da Braskem. Esse volume é relevante. Por isso, a gestão é bastante ampla e tem um peso importante na estrutura de custos da indústria química.

Como é composto o portfólio de contratação de energia elétrica da Braskem?

Todas as nossas plantas industriais e as principais cargas, como os terminais, estão no mercado livre. Estamos 100% no mercado livre de energia. Parte da carga não precisa ser comprada porque contamos com geração própria em alguns sites. São cogerações bem integradas ao processo petroquímico, que também ajudam a dar confiabilidade às unidades diante de uma eventual falha da rede.

Do volume adquirido no sistema, uma parcela relevante está vinculada à autoprodução, principalmente de fontes eólica e solar. Outra parte é atendida por contratos de curto e médio prazo. Existe uma inteligência de mercado por trás dessas decisões. A Voqen, nossa comercializadora, acompanha continuamente o mercado e avalia qual deve ser o posicionamento da Braskem: se faz sentido manter alguma exposição ao mercado de curto prazo, ficar sobrecontratada ou fechar novos contratos.

Qual é o volume médio de energia comprado pela Braskem no mercado livre?

Compramos aproximadamente 400 MW médios da rede, embora esse volume possa variar. Durante algum tempo, ficava mais próximo de 450 MW médios, mas houve uma redução após a descontinuidade de uma de nossas plantas no ano passado. Mesmo assim, a carga pode apresentar variações mensais que geram exposições de 30 MW a 40 MW médios.

Por isso, a Voqen monitora os mercados de curto e médio prazo para definir a melhor posição dentro da parcela que não está contratada no longo prazo. A decisão considera o cenário de preços, as incertezas em relação à carga e as condições esperadas para o mercado. A partir disso, avaliamos se é melhor contratar mais no curto e médio prazo ou manter alguma exposição.

Qual é o tamanho do portfólio de autoprodução da Braskem e quais fontes fazem parte dessa estratégia?

Considerando os projetos localizados fora dos sites da Braskem, interligados ao Sistema Interligado Nacional e destinados ao nosso suprimento, a capacidade instalada supera 600 MW.

São principalmente projetos eólicos, acompanhados por uma participação menor de projetos solares. A fonte eólica é predominante em nosso portfólio. Também procuramos distribuir essa autoprodução por diferentes regiões. Não concentramos toda a capacidade em um único parque ou local. Temos projetos no Rio Grande do Norte, na Bahia e em Minas Gerais.

Mesmo dentro desses estados, buscamos locais diferentes para reduzir a concentração dos riscos de vento e de sazonalidade. O modelo utilizado é, basicamente, o tradicional de autoprodução por equiparação, no qual temos grandes parceiros como sócios dos projetos, entre eles Casa dos Ventos, EDF Renewables e Auren.

Quais são as metas de descarbonização estabelecidas pela Braskem para 2030?

Temos duas metas principais. A primeira é reduzir em 15% as emissões absolutas de dióxido de carbono associadas aos nossos processos. A segunda é alcançar 85% de energia elétrica renovável no suprimento global da companhia.

No Brasil, atingir uma participação elevada de fontes renováveis é mais fácil devido às características da nossa matriz elétrica. Em outros países onde a Braskem está presente, como México, Estados Unidos e em regiões da Europa, não é tão simples encontrar energia renovável com a mesma disponibilidade.

Por isso, é importante maximizar essa participação no Brasil. A meta de alcançar 85% de energia elétrica renovável já foi atingida pela companhia. A redução de 15% das emissões é o objetivo mais complexo. Ainda assim, já superamos uma redução de 10%, o que significa que avançamos mais de dois terços do caminho necessário para alcançar a meta de 2030.

Como o programa de descarbonização está estruturado?

O programa analisa diferentes aspectos. Um deles é a melhoria contínua, ou seja, fazer melhor com os ativos que já temos e buscar mais eficiência. Esse trabalho é realizado continuamente pelas equipes industriais e pelos times de engenharia de produção, processo e manutenção.

Também desenvolvemos um trabalho de cultura interna para mostrar como cada ação se reflete, na prática, no inventário de carbono. A ideia é permitir que as pessoas enxerguem a relação entre aquilo que fazem e o resultado obtido na redução das emissões.

Há ainda uma frente de monitoramento. Todo o inventário de carbono da companhia está mapeado e é acompanhado detalhadamente, permitindo avaliar os resultados do programa. A última frente envolve as mudanças estruturantes. Elas incluem desde a alteração da matriz elétrica, com maior participação das fontes eólica e solar, até intervenções mais profundas nos próprios processos industriais.

Quais projetos estruturantes já foram implantados pela empresa?

Em Alagoas, produzíamos vapor a partir de gás natural para a unidade de PVC. Fizemos uma parceria com a Veolia, que passou a produzir esse vapor com biomassa. Com isso, o uso de gás natural nas caldeiras da planta de PVC foi descontinuado.

Somado a um projeto relevante de eficiência energética realizado no site, esse trabalho permitiu reduzir cerca de 150 mil toneladas de CO₂ por ano. No Rio Grande do Sul, começamos a comprar biometano no ano passado, introduzindo esse combustível na matriz energética da operação.

Também estamos construindo, em parceria com a ComBio, uma caldeira elétrica para fornecer vapor à planta de Paulínia. Vamos deixar de comprar vapor produzido a partir de fonte fóssil e passar a utilizar vapor renovável gerado com energia elétrica.

Além disso, implantamos em São Paulo, no início da década, outro projeto estruturante que combina eficiência energética e cogeração. A expectativa inicial era reduzir 100 mil toneladas de CO₂ por ano, mas acreditamos que esse volume já tenha sido superado.

Nesse projeto, esperávamos reduzir em 7,3% o indicador de gigajoules consumidos por tonelada de produto. Com ele e outras iniciativas do programa de descarbonização, a redução já ultrapassou 10%. Dentro da indústria petroquímica, esse é um resultado bastante substancial.

Quando somamos as melhorias operacionais, os projetos de eficiência e as mudanças estruturantes, já superamos 10% de redução das emissões, diante da meta de 15% estabelecida para 2030.

Braskem revela estratégia para administrar uma conta de energia de R$ 3 bilhões
Projeto de biomassa em Alagoas. Foto: Divulgação

Qual é a importância da geração termelétrica para as operações da Braskem?

Procuramos operar esses parques com o maior nível de eficiência possível. Buscamos estruturar verdadeiras cogerações, minimizar as condensações e manter a geração integrada ao processo petroquímico.

Essas unidades possuem dois papéis. O primeiro é a eficiência proporcionada pela cogeração. O segundo é a confiabilidade do suprimento.

Isso é especialmente importante nos crackers, que são as unidades responsáveis pela primeira etapa da produção petroquímica. O inventário interno dessas plantas é muito grande. Qualquer falha da rede que provoque uma interrupção completa da operação pode gerar perdas financeiras elevadas e uma descontinuidade operacional relevante.

Mesmo que a falha elétrica dure apenas um instante, o impacto sobre uma unidade petroquímica pode se prolongar por dias até que a operação seja restabelecida. Por isso, a geração própria tem uma função importante para a confiabilidade das plantas. O desafio é manter um parque com a maior eficiência possível, capaz de atender a esse propósito operacional.

Quanto a Braskem gera atualmente nessas unidades térmicas e quais combustíveis são utilizados?

Somando todas as plantas da Braskem, geramos em torno de 150 MW médios. A principal fonte é o gás natural, mas também utilizamos gases e combustíveis líquidos provenientes do próprio processo petroquímico. Existem outros energéticos complementares, porém os mais relevantes para a geração termelétrica são o gás natural e os combustíveis líquidos e gasosos originados no processo.

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Braskem conta de energia Entrevista industrias
Foto de Wagner Freire
Wagner Freire
Wagner Freire é jornalista graduado pela FMU. Atuou como repórter no Jornal da Energia, Canal Energia e Agência Estado. Cobre o setor elétrico desde 2011. Possui experiência na cobertura de eventos, como leilões de energia, convenções, palestras, feiras, congressos e seminários.
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