Maio é o mês da indústria. Em 2026, a data coincide com um movimento mais estrutural: a indústria voltou ao centro da estratégia econômica brasileira — não por discurso, mas por função.
Segundo a Confederação Nacional da Indústria, o setor movimentou R$ 2,56 trilhões em 2025, o equivalente a 23,4% do PIB, além de concentrar 66,8% do investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento e 66% das exportações de bens e serviços.
Em um cenário global de reorganização produtiva e busca por resiliência industrial, esse peso volta a orientar decisões. A energia acompanha esse reposicionamento — não como custo isolado, mas como parte da estrutura produtiva.
Dados da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) indicam que a indústria respondeu por 32% do consumo final de energia do país em 2024, com 91,4 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (Mtep). A composição é o ponto central: 64,4% dessa energia já é renovável, segundo o MME (Ministério de Minas e Energia). Esse número descreve uma característica estrutural.
Parte relevante da indústria brasileira opera com energia integrada ao próprio processo produtivo. O bagaço de cana, no setor sucroenergético, e o licor preto, na indústria de celulose, retornam ao sistema como insumos energéticos. A matriz não é apenas mais limpa. É mais funcional.
A Suzano ilustra esse modelo. A unidade de Imperatriz (MA) opera com capacidade instalada superior a 250 MW, suficiente para sustentar a produção e exportar excedentes ao sistema. Energia, nesse caso, entra como estabilidade operacional e previsibilidade de custo — e, em determinados momentos, como receita adicional.
No setor sucroenergético, a Raízen consolidou um dos maiores sistemas de cogeração do país, com capacidade próxima de 1 GW e produção anual superior a 2,5 milhões de MWh. O modelo evidencia o grau de integração entre produção e energia.
Ao mesmo tempo, o momento atual da empresa — marcado por reestruturação financeira e elevado nível de alavancagem — reforça um ponto recorrente na indústria: eficiência operacional e integração energética ampliam competitividade, mas operam em conjunto com decisões de capital.
Na indústria pesada, a lógica é distinta. A Gerdau opera em um ambiente em que energia elétrica e térmica são determinantes para o custo final. A estratégia passa por contratos estruturados no mercado livre, diversificação de fontes e ganhos contínuos de eficiência. Em setores eletrointensivos, energia sustenta a operação e define competitividade.
Esses caminhos não são equivalentes. Mas apontam para uma mesma direção. A energia deixou de ser contratada de forma passiva. Passou a ser estruturada.
O avanço do mercado livre torna essa mudança mais evidente. A CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) indica que o ambiente já responde por cerca de 42% do consumo nacional, após crescimento de 7,3% em 2025, com mais de 21 mil novas unidades consumidoras no período. O movimento reflete uma mudança de comportamento: empresas passaram a decidir prazo, indexação, exposição e composição de portfólio energético.
A energia entrou no campo da estratégia. Esse processo convive com elementos estruturais que seguem relevantes para a indústria. O gás natural é um deles.
A indústria responde por cerca de 60% do consumo nacional, segundo a Confederação Nacional da Indústria. Em 2024, o custo no Brasil girou em torno de US$ 18,96 por milhão de BTU — unidade padrão de energia térmica — frente a aproximadamente US$ 3,75 nos Estados Unidos. Esse diferencial influencia cadeias intensivas em calor, como cerâmica, vidro, química e alimentos, e permanece como uma variável relevante para decisões industriais. Ao mesmo tempo, há um espaço de ganho direto e recorrente.
Eficiência energética
Os programas coordenados pelo Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica registraram economia próxima de 24 bilhões de kWh no último ciclo consolidado disponível. Em ambiente industrial, isso se traduz em modernização de processos, redução de consumo específico e ganhos consistentes de produtividade.
Enquanto isso, a expansão da geração distribuída reforça a reorganização do setor elétrico. Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica indicam que o segmento adicionou entre 7 e 9 GW em 2025, encerrando o ano com cerca de 43,5 GW instalados, superando 44 GW no início de 2026. A geração distribuída deixa de ser alternativa pontual e passa a integrar a estratégia energética de empresas, especialmente como instrumento de previsibilidade e diversificação.
Outras rotas avançam em paralelo. O MME passou a posicionar o biometano como alternativa relevante para substituição de combustíveis fósseis em segmentos industriais específicos. O armazenamento começa a ganhar espaço regulatório, ainda em fase inicial. Esse conjunto de movimentos não aponta para uma única solução. Aponta para uma mudança de lógica.
A competitividade energética da indústria brasileira passa a ser construída pela combinação entre base renovável, autonomia na contratação e capacidade de gestão sobre o consumo.
No fim, a diferença não está no tipo de energia. Está na forma como ela é incorporada ao modelo de negócio com consistência suficiente para sustentar competitividade ao longo do tempo.
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