Durante muito tempo, a segurança energética foi tratada como sinônimo de contratar mais combustível, ampliar reservas fósseis e correr atrás de soluções emergenciais sempre que uma crise internacional apertava os preços. O problema é que esse modelo envelheceu. E envelheceu mal.
O novo policy advisory da IRENA (International Renewable Energy Agency) parte justamente da constatação de que choques geopolíticos sobre petróleo e gás se espalham rapidamente por toda a economia, pressionando inflação, transporte, cadeias produtivas e o custo de vida, sobretudo para os mais vulneráveis.
Em resposta, a agência recomenda exatamente o oposto do receituário tradicional: geração renovável distribuída, mini-redes com solar e baterias, tarifas horárias, eletrificação, armazenamento, reforço de rede e marcos regulatórios claros para acelerar a transição.
O ponto mais importante do documento não é tecnológico. É estratégico. A IRENA deixa claro que renováveis já não devem ser vistas apenas como agenda ambiental ou climática. Elas passaram a ser infraestrutura de resiliência nacional.
O advisory destaca que, em 2025, o mundo adicionou 692 GW de capacidade renovável e que 91% da nova capacidade renovável em escala utility já entrega energia a custo inferior ao da alternativa fóssil nova mais barata. Também registra uma forte queda histórica nos custos da solar, da eólica onshore e das baterias.
Quando a conta fecha melhor e o risco geopolítico também cai, a discussão muda de patamar. Não se trata mais de perguntar se solar e armazenamento “cabem” no sistema. Trata-se de reconhecer que, sem eles, o sistema fica mais caro, mais exposto e mais frágil.
A própria IRENA ressalta que soluções com solar e bateria caminham para entregar energia firme em faixas competitivas de custo, além de reduzir fortemente a dependência de diesel em áreas remotas. Em outras palavras: armazenamento não é adereço da transição. É parte central da segurança energética do século 21.
Os exemplos internacionais citados pela agência também merecem atenção. Países que avançaram mais em solar, eólica, baterias e eletrificação ficaram menos expostos ao choque recente. Espanha e Portugal aparecem como casos de maior proteção relativa; a União Europeia, com a expansão de solar e vento, evitou custos fósseis adicionais relevantes; e experiências em países como Paquistão, Índia e Cuba mostram que sistemas distribuídos podem proteger famílias, comunidades e atividades produtivas quando combustíveis importados encarecem ou faltam.
Para o Brasil, a mensagem é direta. Um país com vocação solar evidente, com milhões de consumidores sensíveis à tarifa e com extensas áreas onde flexibilidade e confiabilidade importam tanto quanto expansão de oferta, não deveria tratar armazenamento, geração distribuída e modernização tarifária como temas periféricos. O setor solar brasileiro precisa ser visto não apenas como fornecedor de megawatts, mas como ferramenta concreta de proteção econômica, previsibilidade e estabilidade sistêmica.
Isso vale para o consumidor residencial, que busca reduzir exposição à conta de luz e ganhar autonomia. Vale para o comércio e a indústria, que precisam de energia previsível para investir. Vale para serviços públicos essenciais. E vale, sobretudo, para o desenho de política pública. O que hoje parece agenda setorial, amanhã será cobrado como agenda de Estado.
A leitura correta do alerta da IRENA é simples: a próxima crise energética global não será enfrentada apenas com mais oferta centralizada e mais dependência de combustíveis voláteis. Ela será enfrentada com geração próxima da carga, baterias, resposta da demanda, redes mais inteligentes e eletrificação bem desenhada.
Quem entender isso antes sofrerá menos. Quem adiar pagará mais caro, na tarifa, na competitividade e no atraso regulatório. No setor solar, essa não deveria ser uma tese controversa. Deveria ser o novo consenso.
Base técnica: IRENA, From Energy Crisis to Energy Security: Actions for Policy Makers (abril de 2026).
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