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Desigualdade global concentra energias renováveis em poucos países

Crescimento acelerado expõe diferenças regionais e riscos econômicos na transição energética

Canal Solar - Desigualdade global concentra energias renováveis em poucos países

Foto: Canva

A expansão global das energias renováveis segue em ritmo acelerado, mas de forma desigual entre regiões, segundo dados recentes da IRENA (Agência Internacional de Energias Renováveis). A Ásia respondeu por 74,2% de toda a nova capacidade instalada em 2025, adicionando 513,3 GW, o equivalente a uma taxa de crescimento de 21,6%.

O volume reforça a liderança da região também no estoque total de capacidade renovável, que atingiu 2.891 GW. Em comparação, a Europa aparece em segundo lugar, com 93,4 GW, evidenciando a concentração geográfica da transição energética.

Disparidades persistem e ampliam vulnerabilidades

Apesar de avanços pontuais, regiões como África, Oriente Médio e América Latina ainda enfrentam desafios estruturais. A África registrou seu maior crescimento histórico, com alta de 15,9% (11,3 GW), impulsionada por países como Etiópia, África do Sul e Egito.

Já o Oriente Médio apresentou expansão de 28,9%, liderada pela Arábia Saudita. Ainda assim, essas regiões partem de uma base instalada menor, o que limita seu impacto relativo no cenário global.

Na outra ponta, a América Central e o Caribe seguem com a menor capacidade total, somando apenas 21 GW em 2025, o que evidencia lacunas no acesso a fontes renováveis.

Cadeias de suprimentos concentram riscos

Além da desigualdade regional, a concentração industrial também representa um desafio para a segurança energética global. De acordo com a IEA (Agência Internacional de Energia), as cadeias de suprimentos de tecnologias-chave, como painéis solares e baterias, permanecem altamente concentradas, com a China respondendo por 60% a 85% da capacidade produtiva em diversas etapas.

A análise aponta que a interrupção de um único elo pode comprometer toda a cadeia. Um exemplo é o impacto potencial de paralisações nas exportações chinesas, que poderiam gerar perdas bilionárias na produção global de veículos elétricos e equipamentos solares.

Emergentes buscam acelerar eletrificação

Paralelamente, estudos da Ember (organização sem fins lucrativos especializada em energia e clima), indicam que países emergentes têm avançado na adoção de tecnologias elétricas, como energia solar e baterias, impulsionados pela queda de custos.

Segundo a análise, esses mercados podem adotar um modelo de eletrificação mais direto, sem repetir a dependência histórica de combustíveis fósseis. Ainda assim, o acesso desigual a financiamento, infraestrutura e tecnologia continua sendo um fator limitante.

Segurança energética e competitividade na agenda global

A combinação entre concentração geográfica da geração renovável e dependência industrial de poucos países reforça a necessidade de diversificação. Organismos internacionais destacam que ampliar a competitividade, fortalecer cadeias produtivas e acelerar investimentos em regiões sub atendidas serão fatores decisivos para reduzir riscos econômicos e garantir segurança energética.

Panorama geopolítico 

Para o especialista no setor elétrico brasileiro e diretor de Novos Negócios do Canal Solar, Bernardo Marangon, os números refletem transformações estruturais na economia global e no consumo de energia.

“Na minha visão, esse crescimento está muito ligado ao avanço da inteligência artificial como um motor de aumento da demanda por energia elétrica. A China se estruturou completamente para mobilidade elétrica e energias renováveis, enquanto os Estados Unidos acabam não desenvolvendo, na mesma escala, seus parques de produção, como fábricas de placas solares e, possivelmente, outros componentes da cadeia”, afirma.

Segundo ele, há uma polarização energética entre as duas maiores economias do mundo. “Existe um choque energético entre China e Estados Unidos. A China domina praticamente toda a cadeia de produção, enquanto os Estados Unidos optam mais pelo desenvolvimento tecnológico, sem internalizar toda a capacidade industrial necessária para crescer no mesmo ritmo em renováveis.”

Marangon ressalta que essa diferença ajuda a explicar o desempenho desigual entre as regiões. “Essa disparidade está muito relacionada ao fato de a China ter um motor de crescimento muito forte. Já os Estados Unidos precisam ser analisados também pelo lado da potência instalada, porque talvez o crescimento em renováveis não tenha avançado tanto justamente por não depender da mesma base produtiva da China”, acrescenta.

O especialista também destaca os desafios específicos do Brasil na transição energética. “Hoje vivemos um problema de rede para absorver energia intermitente. A transição só vai avançar de forma consistente com o uso de baterias como solução, algo que já está mais desenvolvido na Ásia.”

Na avaliação dele, fatores econômicos influenciam outras regiões. “A Europa, por exemplo, parece economicamente mais estagnada, o que acaba reduzindo seu dinamismo no crescimento das renováveis”, conclui.

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Raphael Guerra
Sobre o autor
Raphael Guerra

Jornalista formado na PUC Campinas. Atuou na Futpress, TV Século 21 e ENM. Possui experiência em podcast, televisão, rádio e assessoria de imprensa.

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