A EDP iniciou oficialmente a operação do Punta de Talca BESS, no Chile, seu primeiro complexo de armazenamento por baterias na América do Sul.
Integrado ao Parque Eólico Punta de Talca, no município de Ovalle, o empreendimento recebeu investimentos de US$ 44 milhões e conta com capacidade instalada de 240 MWh, suficiente para armazenar, em média, 60 GWh por ano e abastecer mais de 30 mil residências da região.
O sistema foi concebido para capturar excedentes de geração renovável em períodos de menor demanda e devolvê-los à rede nos horários de maior necessidade de abastecimento. Na prática, o projeto transforma em energia útil parte da produção que antes era desperdiçada por limitações operacionais do sistema.
Baterias para enfrentar o curtailment
O principal objetivo do empreendimento é reduzir os efeitos do curtailment, mecanismo que obriga geradores a interromperem temporariamente sua produção por restrições do sistema elétrico.
Segundo a EDP, a expectativa é praticamente eliminar os cortes físicos registrados pelo parque eólico chileno, que atualmente equivalem a cerca de 11% da geração anual.
Além disso, o armazenamento permitirá evitar que a energia produzida em momentos de excesso de oferta seja comercializada a preços próximos de zero, situação recorrente no mercado chileno.
A estratégia consiste em carregar as baterias justamente quando os preços estão deprimidos e descarregá-las durante o período noturno, quando a demanda aumenta e os preços tendem a ser mais elevados.
Além de otimizar a rentabilidade do ativo, a solução amplia a flexibilidade do sistema elétrico, fornece potência firme e reduz a dependência de combustíveis fósseis.
Oportunidades no Brasil
Durante conversa com jornalistas presentes à inauguração do sistema, o presidente da EDP para a América do Sul, João Brito Martins, indicou que a experiência acumulada no Chile poderá servir de plataforma para futuras iniciativas no mercado brasileiro.
O executivo ressaltou que a companhia acompanha com atenção o primeiro leilão brasileiro de baterias, previsto para dezembro, e entende que a combinação entre geração renovável e armazenamento tende a ganhar espaço na região diante da crescente complexidade dos sistemas elétricos.
Na avaliação do presidente da EDP América do Sul, embora existam pontos da regulamentação recém-aprovada pela ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) com os quais a empresa não concorde integralmente, as regras já definidas permitem que os agentes ajustem suas estratégias para disputar o mercado nas condições estabelecidas. Segundo ele, a companhia buscará posicionar-se da forma mais competitiva possível dentro desse novo ambiente regulatório.
Encargo do leilão
Entre os aspectos observados pela empresa no desenho do leilão brasileiro está a definição sobre o encargo que será pago pelos geradores para custear a contratação dos sistemas de armazenamento.
De acordo com João Brito Martins, trata-se de uma das variáveis mais sensíveis para a viabilidade econômica dos projetos, pois a forma como esse custo será distribuído terá impacto direto sobre a atratividade dos investimentos.
Ainda assim, o executivo demonstrou expectativa de que as incertezas remanescentes sejam esclarecidas nos próximos meses, antes da realização do certame.
Outro ponto citado pelo presidente diz respeito ao tratamento tarifário dos sistemas de armazenamento. Embora tenha reconhecido avanços promovidos pela ANEEL ao afastar a dupla cobrança para projetos despachados pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), ele observou que o efeito das tarifas de uso da rede continuará sendo um componente importante nas análises de viabilidade dos empreendimentos.
Aprendizado regional
O complexo chileno representa a estreia da EDP em projetos de armazenamento na América Latina, mas não em âmbito global. O grupo já possui cerca de 550 MW de baterias em operação.
Na semana passada, o grupo anunciou a conclusão do Flatland Energy Storage, atualmente seu maior projeto de baterias em operação.
Desenvolvido no estado do Arizona, nos Estados Unidos, em parceria com a SRP (Salt River Project), o empreendimento reúne um sistema de armazenamento de 200 MW e 800 MWh, com capacidade para atender o equivalente a cerca de 44,5 mil residências.
Segundo a companhia, o projeto foi concebido para reforçar a confiabilidade do suprimento em períodos de pico de demanda e evidencia a importância crescente dos sistemas de armazenamento em larga escala para ampliar a flexibilidade e a resiliência dos sistemas elétricos.
Curtailment no Brasil
No Brasil, a companhia também convive com os desafios que impulsionam o avanço do armazenamento. Segundo executivos da EDP presentes à inauguração, aproximadamente 13% da geração renovável da empresa no país sofreu cortes em 2025, com impacto financeiro estimado em US$ 40 milhões.
Para a EDP, o empreendimento de Punta Talca funciona como laboratório operacional e referência concreta para uma tecnologia que tende a ganhar protagonismo nos mercados latino-americanos, especialmente à medida que o crescimento das fontes renováveis amplia a necessidade de flexibilidade, confiabilidade e melhor aproveitamento da energia produzida.
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