O sistema de transmissão do Nordeste poderá ganhar capacidade para conectar até 4 GW adicionais de grandes consumidores de energia a partir de 2032, abrindo espaço para projetos como data centers e plantas de produção de hidrogênio, em uma das regiões que concentram os maiores potenciais de geração renovável do país.
É o que aponta um estudo prospectivo da EPE (Empresa de Pesquisas Energéticas) que avalia alternativas de expansão da rede elétrica nas regiões de Pecém, no Ceará, e Parnaíba, no Piauí, respectivamente, pólos de atração de novos investimentos industriais associados à transição energética.
A recomendação integra o “Estudo Prospectivo para Inserção de Cargas Eletrointensivas na Região Nordeste”, elaborado pela estatal para subsidiar futuras decisões do MME (Ministério de Minas e Energia) relacionadas à expansão da infraestrutura elétrica.
Evolução progressiva
Em vez de propor uma expansão única e integral desde o início, a EPE recomenda uma configuração escalonável, permitindo que os investimentos sejam realizados à medida que os projetos consumidores efetivamente avancem.
Segundo o estudo, a solução foi concebida para acomodar qualquer combinação de cargas até o limite global de 4 GW entre as duas regiões.
Na prática, o crescimento da infraestrutura poderá acompanhar a materialização dos investimentos industriais, reduzindo riscos de sobrecontratação da rede e evitando a construção antecipada de ativos desnecessários.
A proposta também busca oferecer flexibilidade ao planejamento elétrico diante da incerteza sobre o ritmo de implantação de projetos ligados à economia do hidrogênio e à expansão da infraestrutura digital.
Subestação e linhas
Para viabilizar a conexão dos novos consumidores, a EPE analisou 12 alternativas de expansão do sistema de transmissão antes de definir a solução considerada mais adequada.
O conjunto de obras recomendado inclui a implantação da subestação Pecém IV, em 500 kV, nas proximidades das atuais subestações Pecém II e Pecém III, além da construção de 1.848 quilômetros de novas linhas de transmissão em 500 kV interligando os estados do Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí.
De acordo com o estudo, esses reforços não apenas ampliam a capacidade de atendimento a novos consumidores, mas também eliminam restrições atualmente existentes entre os sistemas de transmissão dos dois estados diretamente beneficiados.
Integração com renováveis
Um dos aspectos centrais do estudo é permitir que a futura expansão da demanda industrial ocorra simultaneamente ao aproveitamento do potencial renovável da região.
Segundo a EPE, a configuração recomendada possibilita a inserção dos 4 GW adicionais mesmo em cenários de elevada produção de energia renovável local, especialmente de fontes eólica e solar.
A expectativa é que a nova infraestrutura reduza os gargalos de transmissão e aumente a capacidade de absorção da energia produzida na região.
A ideia é buscar criar uma ligação mais eficiente entre áreas com forte oferta de energia renovável e empreendimentos com elevado consumo elétrico, característica considerada estratégica para projetos de hidrogênio verde e grandes centros de processamento de dados.
R$ 5,68 bilhões em investimentos
O custo estimado da alternativa selecionada pela EPE é de aproximadamente R$ 5,68 bilhões.Desse total, cerca de R$ 1,09 bilhão corresponde às obras recomendadas para a etapa inicial, prevista para 2032.
Os R$ 4,59 bilhões restantes ficariam condicionados à efetiva concretização dos projetos consumidores, sendo executados de forma gradual conforme a necessidade de expansão da rede.
A abordagem procura compatibilizar o planejamento de longo prazo da transmissão com a evolução real dos investimentos industriais esperados para a região.
Próxima década
A proposta ainda não representa uma decisão definitiva de investimento, mas serve como subsídio técnico para futuras avaliações do governo federal sobre novos empreendimentos de transmissão e eventuais leilões de expansão da rede.
Ao identificar uma alternativa capaz de acomodar até 4 GW de novas cargas eletrointensivas, a EPE procura antecipar uma demanda que pode ganhar relevância ao longo da próxima década, especialmente diante do avanço dos projetos de hidrogênio de baixo carbono e da crescente busca por locais com oferta abundante de energia renovável para instalação de data centers.
O estudo indica que, do ponto de vista da infraestrutura elétrica, o Ceará e o Piauí já possuem uma rota de expansão mapeada para receber esse novo ciclo de investimentos, desde que os projetos previstos avancem e justifiquem a implantação gradual dos reforços propostos.
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