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Exportações de energia solar dos EUA ajudam Cuba a enfrentar apagões

Com fornecimento elétrico comprometido, país amplia uso de painéis solares e baterias

Canal Solar - Exportações de energia solar dos EUA ajudam Cuba a enfrentar apagões

Foto: Magnific

As exportações de equipamentos solares dos Estados Unidos para Cuba registraram crescimento expressivo em 2026, em um momento em que o país caribenho enfrenta uma grave crise energética, marcada por apagões frequentes e dificuldades no abastecimento de eletricidade.

Nos primeiros sete meses do ano, os embarques americanos de células e módulos fotovoltaicos para a ilha somaram US$ 6,3 milhões, um aumento de 1.070% em relação a todo o ano de 2025, quando as vendas alcançaram US$ 538 mil. Os dados são do Censo dos Estados Unidos e foram divulgados em reportagem da Bloomberg.

O avanço ocorre enquanto Cuba busca ampliar a participação da energia solar em sua matriz elétrica e reduzir os impactos das interrupções no fornecimento. Até o período retratado na reportagem, Cuba havia registrado sete apagões nacionais, situação que tem levado consumidores e empresas a investir em sistemas próprios de geração e armazenamento.

Embora a China permaneça como a principal fornecedora de equipamentos fotovoltaicos ao país, o crescimento das exportações americanas representa uma fonte adicional de abastecimento para empreendedores e consumidores cubanos.

As operações são possíveis por meio de permissões comerciais que autorizam o envio de determinadas mercadorias ao setor privado da ilha.

Em um país com aproximadamente 9,4 milhões de habitantes, a disponibilidade de equipamentos solares tem se tornado importante não apenas para a diversificação da geração elétrica, mas também para a continuidade de atividades econômicas e serviços essenciais.

Sistemas solares e baterias permitem funcionamento de empresas durante apagões

A combinação entre geração fotovoltaica e armazenamento tem ganhado espaço entre estabelecimentos comerciais que precisam manter suas operações mesmo durante interrupções prolongadas no fornecimento.

Em Havana, o La Campana, espaço de eventos administrado pelo empreendedor Ramiro Llovet, é um exemplo dessa aplicação. O estabelecimento funciona na residência do empresário e recebe casamentos, aniversários e eventos corporativos para grupos de 15 a 350 pessoas.

Durante um dos apagões nacionais registrados neste ano, o local conseguiu manter suas atividades graças à utilização de painéis solares e baterias de reserva. Enquanto o fornecimento elétrico era interrompido em outras áreas, os equipamentos instalados no estabelecimento permitiram que a programação continuasse normalmente.

A experiência demonstra a importância de sistemas capazes de operar durante falhas na rede, especialmente em regiões onde a instabilidade do abastecimento compromete atividades comerciais.

Para consumidores residenciais, a geração solar também pode representar uma alternativa para atender necessidades básicas, como o carregamento de celulares e a alimentação de pequenos equipamentos.

Cuba já instalou 1.418 MW em parques fotovoltaicos

A expansão da energia solar em Cuba também aparece nos números apresentados pelo presidente Miguel Díaz-Canel durante entrevista à rádio estatal cubana.

Segundo o presidente, o país já instalou 1.418 MW de capacidade em 144 parques fotovoltaicos e trabalha com a previsão de encerrar 2026 com mais de 1.500 MW.

Díaz-Canel informou ainda que as fontes renováveis já representam 21,4% da geração elétrica nacional, percentual que considera o conjunto dessas tecnologias, e não apenas a fonte solar.

Além dos parques fotovoltaicos, a geração instalada diretamente nos consumidores também tem avançado. De acordo com o presidente, entidades dos setores estatal e não estatal já somam mais de 563 MW instalados.

O setor privado apresenta a maior dinâmica de crescimento na adoção de painéis fotovoltaicos entre os consumidores e, segundo os dados apresentados, já produz aproximadamente 20% da eletricidade que utiliza em suas atividades.

Essa geração própria contribui para reduzir a demanda sobre o sistema elétrico nacional, especialmente em um cenário de restrições no abastecimento.

Armazenamento ganha espaço na estratégia energética

A expansão da geração fotovoltaica também está acompanhada de investimentos em armazenamento de energia. Na entrevista, Díaz-Canel afirmou que Cuba já havia instalado 50 MW de capacidade de armazenamento e previa incorporar outros 100 MW em outubro. Caso a ampliação seja concluída conforme o planejamento apresentado, o país passará a contar com 150 MW de capacidade de armazenamento.

A tecnologia tem importância particular diante dos apagões recorrentes, pois permite utilizar a energia previamente armazenada para alimentar cargas durante períodos de indisponibilidade da rede, desde que os sistemas sejam projetados para operar nessa condição.

Diferentemente de sistemas fotovoltaicos convencionais conectados à rede, que normalmente interrompem a geração durante falhas no fornecimento por razões de segurança, soluções com baterias e recursos de backup podem manter equipamentos essenciais em funcionamento.

Essa capacidade de operação representa uma vantagem para empresas que dependem da continuidade do fornecimento elétrico e para serviços que não podem sofrer interrupções prolongadas.

Energia renovável chega a hospitais, bancos e unidades de saúde

Outro dado apresentado pelo governo cubano mostra que a expansão das fontes renováveis está alcançando diferentes serviços públicos. Segundo Díaz-Canel, 99% das policlínicas do país já contam com fontes renováveis de energia. Entre os hospitais, a cobertura informada é de 47%.

Presença de fontes renováveis em estabelecimentos e serviços essenciais de Cuba, segundo dados apresentados pelo governo cubano.

Fonte Presidente Miguel Díaz-Canel, em entrevista à rádio estatal cubana. Os percentuais abrangem fontes renováveis de energia, não exclusivamente sistemas fotovoltaicos.
Fonte Presidente Miguel Díaz-Canel, em entrevista à rádio estatal cubana. Os percentuais abrangem fontes renováveis de energia, não exclusivamente sistemas fotovoltaicos.

No caso das instituições bancárias, Díaz-Canel afirmou que o governo pretende ampliar a cobertura para reduzir a dependência dos serviços de atendimento à população em relação ao sistema elétrico nacional. A utilização de fontes renováveis nessas instalações demonstra a tentativa de reduzir a vulnerabilidade de atividades consideradas essenciais diante das falhas recorrentes no abastecimento.

Os percentuais, entretanto, não significam necessariamente que todos esses estabelecimentos tenham autonomia integral durante apagões. Essa capacidade depende das características dos sistemas instalados, incluindo a disponibilidade de armazenamento e recursos de operação isolada.

Energia solar também será utilizada no abastecimento de água

A aplicação da geração fotovoltaica em serviços essenciais também contempla o fornecimento de água. Durante a entrevista, o presidente informou que Cuba já havia instalado 646 bombas solares destinadas ao atendimento da população, além de mais de mil equipamentos utilizados na pecuária e na irrigação.

O governo também planeja ampliar a utilização de sistemas de geração para reduzir a dependência do bombeamento de água em relação à rede elétrica. Uma das iniciativas envolve Havana, onde está prevista a destinação de 200 MW de geração fotovoltaica exclusivamente para sistemas de bombeamento.

Segundo Díaz-Canel, a expectativa é avançar na independência energética dessa operação nos primeiros meses de 2027, com possibilidade de estender a experiência a outras províncias. A iniciativa busca enfrentar dois problemas que afetam simultaneamente a população cubana: as interrupções no fornecimento de eletricidade e as dificuldades no abastecimento de água.

Crise elétrica pressiona expansão das fontes renováveis

Apesar dos investimentos em geração solar, Cuba continua enfrentando dificuldades significativas para atender à demanda por eletricidade. Na entrevista à rádio estatal, Díaz-Canel mencionou uma previsão de déficit superior a 2.020 MW no sistema elétrico para o dia em questão, embora tenha afirmado que os valores registrados nos dias anteriores haviam ficado abaixo de 2.000 MW.

O presidente também destacou as dificuldades para obter combustíveis destinados às atividades econômicas e à geração de energia. Diante desse cenário, afirmou que a estratégia do país envolve ampliar a produção nacional de petróleo e acelerar a transição para fontes renováveis.

O governo cubano também anunciou medidas para estimular a adoção dessas tecnologias por consumidores e empresas, incluindo linhas de crédito bancário para instalação de sistemas renováveis, incentivos fiscais e mecanismos de remuneração pela eletricidade fornecida à rede. As iniciativas procuram ampliar a participação da geração descentralizada e reduzir a pressão sobre a infraestrutura elétrica existente.

China permanece como principal fornecedora de equipamentos solares

Embora as exportações americanas tenham registrado forte crescimento, a China continua ocupando a posição de principal fornecedora de equipamentos fotovoltaicos para Cuba. Em setembro, o país caribenho recebeu uma nova doação chinesa de 5 mil sistemas solares, reforçando a participação do parceiro asiático na expansão da tecnologia.

As remessas dos Estados Unidos, por sua vez, têm contribuído para ampliar o acesso a equipamentos, especialmente entre consumidores e empreendedores privados. O movimento evidencia a diversificação das fontes de abastecimento de tecnologia fotovoltaica em um momento de crescente demanda por geração própria.

Apesar dos avanços, a instalação de painéis solares e baterias não resolve, isoladamente, os problemas estruturais do sistema elétrico cubano. Essas tecnologias, entretanto, oferecem aos consumidores a possibilidade de reduzir sua dependência da rede e manter determinadas atividades em funcionamento durante as interrupções.

Em um país marcado por apagões recorrentes, a energia solar deixa de representar apenas uma alternativa de geração e passa a desempenhar um papel importante na continuidade de negócios e serviços essenciais.

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Ericka Araújo
Sobre o autor
Ericka Araújo

Gerente de Comunicação do Canal Solar. Host do Papo Solar. Desde 2020, acompanha o mercado de energias renováveis. Possui experiência em produção de podcast, programas de entrevistas e elaboração de matérias jornalísticas. Em 2019, recebeu o Prêmio Jornalista Tropical 2019 pela SBMT e o Prêmio FEAC de Jornalismo.

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