O agravamento das tensões no Oriente Médio e as restrições ao tráfego marítimo no Estreito de Ormuz seguem impactando diversos setores da economia global. No mercado de energia solar, porém, os efeitos vão muito além do simples aumento do custo de transporte dos equipamentos da China para o Brasil.
Em entrevista ao Canal Solar, Eudes Silveira, diretor da Port Trade, explica que o cenário atual está pressionando toda a cadeia global de suprimentos utilizada na fabricação de equipamentos fotovoltaicos, o que pode resultar em custos mais elevados para o setor nas próximas semanas.
Segundo ele, quando se fala em energia solar, é comum imaginar que a alta do frete afeta apenas o transporte dos equipamentos produzidos na China até o Brasil. Na prática, contudo, o impacto é muito mais amplo.
Impacto vai além da rota China-Brasil
Silveira explica que diversos insumos utilizados na fabricação de módulos fotovoltaicos e outros equipamentos do setor são obtidos hoje em diferentes partes do mundo antes de chegarem às fábricas chinesas – onde são definitivamente produzidos e embalados antes de serem transportados para o mundo.
“Quando a gente fala sobre energia solar, a maioria das pessoas pensa que o painel sai da China e vem para o Brasil. Mas não é meramente isso. A composição do painel solar, por exemplo, leva alumínio, cobre, enxofre e diversos outros componentes que muitas vezes vêm de países como Chile, Peru, Rússia e até do próprio Brasil”, explica Silveira.
Segundo o executivo, esse é um dos aspectos menos percebidos pelo mercado. Isso porque o aumento dos custos logísticos não afeta apenas o transporte dos equipamentos prontos, mas também a chegada das matérias-primas utilizadas pela indústria fotovoltaica.
Com o aumento dos custos logísticos globais, esses materiais chegam mais caros às indústrias asiáticas, pressionando os custos de fabricação antes mesmo de os equipamentos serem exportados.
“O que tem feito encarecer é uma soma de fatores. Desde o custo elevado das matérias-primas vitais para a fabricação do painel solar até o aumento dos custos logísticos. Ou seja, a produção já fica mais cara antes mesmo do equipamento ser embarcado para exportação”, afirmou.
A importância do Estreito de Ormuz
Localizado entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, o Estreito de Ormuz é uma das passagens marítimas mais estratégicas do planeta. Grande parte dos insumos comercializados globalmente passam pela região.
O aumento das incertezas com a escalada das tensões que perduram há meses na região levou armadores e operadores logísticos a revisarem rotas e ampliarem medidas de segurança, pressionando ainda mais os custos do transporte marítimo.
Segundo Silveira, um contêiner que no início de 2026 custava entre US$ 1.600 e US$ 2.200 deve alcançar a marca de US$ 10 mil até o final de julho. “Hoje já estamos falando de fretes na casa dos US$ 7 mil. E, sendo otimista, acredito que em 30 a 60 dias possamos chegar perto dos US$ 10 mil por contêiner”, disse.
Além da crise geopolítica, a logística internacional enfrenta um período sazonal de forte demanda impulsionado pelas encomendas do varejo mundial para datas como Dia das Crianças, Black Friday e Natal.
Segundo o executivo, esse movimento tende a aumentar ainda mais a disputa por espaço nos navios e contribuir para novas altas nos preços.
Rotas mais longas elevam custos
Outro efeito observado é a necessidade de utilização de rotas alternativas para evitar áreas consideradas de risco. Em muitos casos, embarcações têm optado por trajetos mais longos, como a rota pelo Cabo da Boa Esperança, na África.
A mudança adiciona cerca de duas semanas ao tempo de trânsito e aumenta significativamente os custos operacionais. Além do combustível adicional consumido pelas embarcações, seguradoras passaram a cobrar valores maiores para operações em regiões consideradas mais sensíveis do ponto de vista geopolítico.
O que esperar para o setor solar?
Embora ainda seja cedo para medir os impactos exatos sobre os preços dos equipamentos fotovoltaicos, Silveira avalia que a combinação entre fretes mais caros, matérias-primas mais custosas e rotas mais longas tende a pressionar os custos da cadeia produtiva.
Na prática, isso significa que uma eventual alta nos preços dos equipamentos solares não deverá ser explicada apenas pelo transporte dos produtos até o Brasil, mas também pelo encarecimento de toda a estrutura global necessária para produzi-los.
Para o setor solar, o cenário reforça a importância de acompanhar não apenas os preços dos módulos e inversores, mas também os movimentos geopolíticos e logísticos que influenciam a cadeia global de suprimentos.
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