A expansão da GD (geração distribuída), a entrada das baterias e o avanço das fontes renováveis estão mudando de forma acelerada a operação das redes elétricas e para Cyro Boccuzzi, presidente do Fórum Latino-Americano de Smart Grid, o desafio não está apenas em incorporar novas tecnologias, mas em adaptar a própria lógica de funcionamento e remuneração das concessionárias de distribuição.
Uma das principais mudanças ocorre na relação entre a geração distribuída e as redes, aponta Boccuzzi. A expansão da GD já provoca efeitos concretos na operação cotidiana, com aumento das inversões de fluxo e dificuldades relacionadas à proteção dos circuitos.
Em determinadas situações, segundo ele, as redes chegam a ficar sobrecarregadas, ampliando a necessidade de instrumentos capazes de controlar esses fluxos e preservar a estabilidade do sistema.
O movimento tende a ganhar novas dimensões com a continuidade da expansão solar e a adoção de sistemas de armazenamento. Na opinião do especialista, as baterias poderão fazer parte da solução para administrar o crescimento da geração renovável, especialmente diante dos efeitos da intermitência sobre a operação das redes.
Novas formas de operação
Na avaliação de Boccuzzi, a transformação tecnológica também expõe limitações no modelo tradicional de remuneração das distribuidoras.
Hoje, entende, a lógica ainda é essencialmente baseada no consumo de energia em kWh, sem incorporar adequadamente elementos como horário de utilização da rede e flexibilidade.
Com a abertura progressiva do mercado de baixa tensão e a multiplicação de recursos energéticos distribuídos, esse modelo tende a perder aderência, assinala.
Para o presidente do Fórum, será necessário migrar para uma estrutura que considere os serviços prestados pela rede e precifique de maneira mais adequada seu uso ao longo do tempo.
A proposta envolve uma remuneração que leve em conta horário e flexibilidade, além do consumo de energia propriamente dito.
A mudança também passa pela capacitação das próprias distribuidoras, que precisarão desenvolver novas competências para atuar em um ambiente de mercado diferente do atual.
Segundo Boccuzzi, o redesenho deve considerar o impacto efetivo de cada consumidor sobre a infraestrutura, evitando que a remuneração continue baseada apenas em uma métrica única.
Solar excedente
Outro ponto levantado é o tratamento da energia solar excedente. A possibilidade de as distribuidoras comercializarem esse volume, conforme estudos em andamento na ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) é considerada por Boccuzzi uma questão controversa, sobretudo em um cenário de crescimento da geração renovável e necessidade de requalificação das redes.
O especialista defende que a infraestrutura de distribuição seja enxergada como um benefício sistêmico, mas sem transformar os serviços oferecidos pela rede em atividades gratuitas.
O avanço da geração distribuída, portanto, exige uma discussão simultânea sobre operação, remuneração e novas funções que poderão ser desempenhadas pelas distribuidoras.
Nesse contexto, a digitalização ganha importância, destaca Boccuzzi. O executivo aponta a necessidade de instalação de sensores, ampliação da conectividade e melhoria da capacidade de monitoramento para que as empresas passem a ter uma visão mais detalhada do comportamento da rede.
A ideia é aumentar a chamada consciência situacional e dar condições para uma atuação operacional mais granular.
Baterias frente à expansão convencional
O armazenamento aparece, na visão do presidente do Smart Grid Forum, não apenas como uma tecnologia voltada à integração das renováveis, mas também como possível alternativa a investimentos tradicionais em infraestrutura.
Algumas distribuidoras já estão utilizando baterias em locais isolados, substituindo soluções convencionais de expansão. A tendência, segundo ele, é que as redes do futuro sejam mais leves, à medida que recursos antes concentrados na infraestrutura passem a ser instalados junto aos consumidores.
Nesse cenário entram, além da geração solar, sistemas de armazenamento e equipamentos associados ao carregamento de veículos elétricos.
A adoção em maior escala, entretanto, dependerá da definição de regras econômicas e regulatórias. Boccuzzi chama atenção para o risco de que novas tecnologias sejam incorporadas sem critérios de eficiência e acabem simplesmente sendo transferidas para as tarifas.
Para ele, será necessário estabelecer mecanismos que assegurem a economicidade dessas soluções e deixem claro em quais situações elas representam uma alternativa mais vantajosa para a rede.
Veículos elétricos
A transformação da rede também será influenciada pela expansão da mobilidade elétrica, segundo Boccuzzi. Ele defende a adoção de estações de carregamento inteligentes e de tarifas capazes de estimular o consumo em períodos de menor demanda.
Além de representar uma nova carga para o sistema, os veículos elétricos poderão funcionar como recursos de flexibilidade. O carregamento controlado pode contribuir para equilibrar fluxos e reduzir pressões sobre a rede, desde que acompanhado de sinais económicos adequados.
Para viabilizar esse movimento, porém, o modelo de negócio das distribuidoras também precisará ser revisto, inclusive para acomodar os investimentos necessários.
Resiliência vira prioridade
As mudanças climáticas acrescentam outra camada de complexidade à transformação das redes, lembra o especialista. Na visão dele, não basta ampliar a infraestrutura de maneira uniforme.
As distribuidoras terão de reforçar seletivamente os trechos mais vulneráveis, combinando obras físicas com digitalização, sensores, conectividade e novas capacidades de resposta operacional.
A preparação para eventos extremos também exige maior cooperação entre empresas, defende. A experiência relatada pelo executivo a partir de uma operação de emergência na antiga Eletropaulo, em 1999, mostra como mecanismos de monitoramento e coordenação podem acelerar a recomposição do serviço.
Como os riscos variam entre regiões — de problemas de trânsito em São Paulo a eventos como tornados em outras áreas —, ele considera necessário aprimorar a cooperação entre distribuidoras e estabelecer regras de auxílio mútuo.
Um novo desenho para a distribuição
A transformação tecnológica, portanto, não se limita à aquisição de equipamentos, conforme afirma Boccuzzi. É preciso redefinir a arquitetura do sistema e deixar a engenharia ocupar papel central na elaboração das regras.
A discussão sobre o DSO (Distribution System Operator), por exemplo, destaca, exige ferramentas, fluxos de trabalho e limites regulatórios bem definidos para evitar conflitos de interesse e problemas de coordenação entre os agentes.
A mesma lógica vale para o modelo econômico das distribuidoras. Boccuzzi cita experiências internacionais com estruturas alternativas de remuneração e operação e defende que o Brasil avance para um sistema no qual o pagamento pelos serviços de rede tenha maior relação com o impacto efetivamente provocado pelos usuários.
Também considera que a governança do setor precisa evoluir para acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas e regulatórias.
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