A MMGD (Micro e Minigeração Geração Distribuída) no Brasil não apenas é compatível com o sistema elétrico atual, como também promove a redução de perdas técnicas e posterga a necessidade de investimentos em infraestrutura de rede.
Essas são algumas das principais conclusões de um estudo técnico inédito apresentado pela ABGD (Associação Brasileira de Geração Distribuída) à ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica).
A contribuição atende à Lei 14.300/2022, que estabeleceu que o CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) e o órgão regulador elaborassem as diretrizes e a regulação dos custos e benefícios da MMGD.
A análise, que utilizou uma base formidável de dados para retratar a realidade brasileira, demonstra que a maior parte das redes de distribuição opera com níveis de penetração de energia solar e outras fontes renováveis que são amplamente benéficos para a operação do sistema.
O trabalho técnico foi desenvolvido pela MRST Consultoria e Engenharia, contando com a colaboração direta de especialistas renomados do setor elétrico e pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo).
Para garantir que os resultados fossem estatisticamente precisos e livres de distorções causadas por casos isolados, os pesquisadores basearam-se no banco da própria agência reguladora.
A metodologia empregada utilizou o agrupamento de redes representativas, permitindo reproduzir com fidelidade o comportamento elétrico de 27 mil alimentadores de rede primária e de quase 6 milhões de redes secundárias espalhadas por todo o território nacional.
Mitos da alta penetração
Durante a exposição dos dados na ANEEL, conduzida pelo conselheiro da ABGD, José Wanderley Marangon, foi demonstrado que a narrativa de que a geração distribuída sobrecarrega as redes não encontra sustentação nos dados globais.
Segundo o levantamento, a grande maioria das redes brasileiras ainda possui baixa ou média penetração de GD, e muitas delas sequer possuem sistemas de micro ou minigeração instalados. “Quando a penetração é baixa ou média, a geração próxima à carga traz benefícios, reduz perdas e posterga investimentos”, afirmou Marangon durante a apresentação.
O estudo identifica que situações classificadas como críticas são exceções e aparecem apenas em cenários de alta penetração, que ainda são pouco frequentes no Brasil. Os dados revelam que apenas cerca de 3% das redes secundárias em todo o país apresentam alta penetração de geração própria.
O ponto central defendido pela ABGD é que não é estatisticamente razoável condenar todo o segmento de geração distribuída com base em casos extremos que representam uma fração mínima do sistema.
Além disso, mesmo nessas condições de alta concentração, o estudo não observou violações relevantes de restrições elétricas que pudessem comprometer a integridade da rede.
Inversão de fluxo e critérios técnicos
Um dos temas mais debatidos atualmente no setor elétrico, a chamada inversão de fluxo de potência, também foi abordado com profundidade no relatório entregue à agência. A ABGD defende que a inversão de fluxo não deve ser considerada um problema por si só.
Para a entidade, o foco da regulação e da fiscalização deve estar em critérios técnicos que realmente impactam o consumidor final, como os níveis de tensão, o carregamento dos equipamentos e a qualidade do fornecimento de energia.
O estudo sugere que o tratamento de eventuais gargalos deve ser local e específico, em vez de uma abordagem generalizada que possa desestimular novos investimentos.
Quando a rede passa a funcionar como uma coletora de geração — função para a qual originalmente não foi projetada — podem surgir inconvenientes operacionais, mas o estudo aponta caminhos claros para a solução.
Nestes casos pontuais, a solução reside em investimentos em sistemas de proteção, controle de tensão e expansão da capacidade de transformação, sendo que as tecnologias de armazenamento surgem como o principal aliado para neutralizar efeitos nocivos e maximizar os benefícios ao sistema.
O papel estratégico das baterias
A integração entre a geração própria e as tecnologias de armazenamento é vista como o próximo passo natural da evolução do setor. O estudo ressalta que o uso de baterias estacionárias, aliado à utilização das baterias dos próprios veículos elétricos, tende a resolver grande parte dos desafios operacionais que surgem com o crescimento da geração renovável descentralizada.
Este processo de transformação tecnológica permite que a geração próxima à carga colabore não apenas com a distribuição local, mas também com o sistema de transmissão, desde que haja o devido controle operativo.
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