Com a colaboração da jornalista Ericka Araújo
Em datas comemorativas, o comportamento da carga muda de forma relevante: famílias se reúnem em um mesmo local, parte do comércio reduz atividade e a indústria desacelera ou interrompe a produção. Com isso, cai também a chamada carga líquida .
Quanto menor a carga líquida, maior o desafio do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) para equilibrar oferta e demanda em tempo real sem comprometer a segurança do sistema.
No dia 10 de agosto de 2025, domingo de Dia dos Pais, “o Operador necessitou emitir comando de redução total da geração fotovoltaica e eólica centralizada”, conforme apontado na Revista PARPEL 2025.
Diante desse cenário, a reportagem do Canal Solar questionou o ONS sobre a possibilidade de cortes na geração de energia no Dia das Mães, neste domingo (11), devido ao excesso de energia e a redução da carga liquída.
Em nota enviada à reportagem, o operador afirmou:
“O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) esclarece que o Plano Emergencial de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição pode ser acionado em ocasiões que a produção de energia for superior à demanda da sociedade e não for mais possível reduzir a geração centralizada que está sob a responsabilidade do Operador. Neste sentido, a possibilidade do acionamento nos finais de semana e feriados não é descartada. Porém, o ONS reforça que essa é uma ação excepcional que só será adotada em última instância e tem como objetivo prevenir riscos à estabilidade do Sistema Interligado Nacional e evitar a perda de controlabilidade do sistema em momentos de carga muito reduzida, assegurando a continuidade de fornecimento de energia à sociedade.”
O Plano Emergencial de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição prevê que, em situações excepcionais, corte de geração em usinas Tipo III (conectadas à distribuição e não despachadas pelo ONS), conforme noticiado pelo Canal Solar.
A resposta confirma que o acionamento do plano não está descartado em datas de consumo reduzido, embora o ONS destaque que se trata de uma medida extrema, voltada à preservação da estabilidade do sistema.
Na avaliação de José Wanderley Marangon, conselheiro da ABGD (Associação Brasileira de Geração Distribuída) e membro honorário da ABSAE (Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia), o risco de carga líquida muito baixa já era esperado para esta época do ano.
Segundo ele, embora a GD solar costume perder desempenho em relação ao verão por causa da menor irradiação, a queda do consumo tende a ser ainda mais intensa no período próximo ao inverno.
“Normalmente, com temperaturas mais baixas, tanto refrigeração como climatização demandam menos energia, diminuindo a carga global do SIN e fazendo com que a carga líquida atinja valores menores”, afirmou Marangon.
O especialista destaca ainda que o ONS já vem alertando agentes de usinas classificadas como Tipo III sobre a possibilidade de solicitações de corte de geração em situações críticas para a operação do sistema.
Como resolver esse problema?
Para ele, o avanço da geração distribuída tende a ampliar esse desafio nos próximos anos, exigindo mudanças estruturais no setor elétrico.
Uma das principais respostas para esse novo contexto, segundo Marangon, será a ampliação do uso de baterias associadas à geração distribuída, o que permitirá deslocar parte da energia gerada para horários de maior consumo e reduzir o descasamento entre oferta e demanda.
Ele avalia que o episódio do Dia dos Pais passou a ser tratado por agentes do setor como um marco desse novo estágio da transição energética brasileira.
Para ele, por um um lado, o país amplia rapidamente sua capacidade de geração renovável descentralizada. De outro, cresce a pressão sobre a operação do sistema em momentos de baixa demanda, quando o operador tem menos margem para manobra.
Nesse contexto, Marangon destaca que a discussão sobre cortes emergenciais de geração deixa de ser apenas uma hipótese regulatória e passa a integrar, de forma concreta, o debate sobre segurança elétrica, modernização da regulação e necessidade de novas tecnologias de flexibilidade no sistema.
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