Para especialistas, pronunciamento do ministro Albuquerque gera desconfiança

Especialistas repercutem declaração de Bento Albuquerque em relação a não necessidade de racionamento de energia
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O SNM (Sistema Nacional de Meteorologia) emitiu pela primeira vez na história, na última quinta-feira (27), um alerta de emergência hídrica na maior parte da região central do Brasil. 

O documento prevê o menor volume de chuvas para a região hidrográfica da Bacia do Paraná, que abrange os estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná para o período de junho a setembro de 2021.

Na última sexta-feira (28), o Sistema Cantareira operava com 48% da capacidade. No mesmo período em 2013 – momento de pré-crise hídrica – a capacidade era de 59%. Os dados são da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo).

Em meio a este cenário de preocupação, é levantada a possibilidade de racionamento de energia. No entanto, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, afirmou que não há risco de que isso aconteça neste ano. “Tudo indica que a situação está sob controle”, disse em entrevista ao jornal O Globo.

Porém, especialistas do setor elétrico afirmaram ao Canal Solar que a fala do ministro causa estranheza. Além disso, enfatizaram que as renováveis se tornam essenciais para o enfrentamento da crise. 

“A pronúncia do ministro gera uma certa desconfiança. Será que ele está querendo preservar a imagem política do governo, atenuando o cenário crítico que se apresenta?”, indagou Dirceu Ferreira, especialista em geração e distribuição de energia.

“Entretanto, independentemente da fala dele, o presente cenário pode ter sido influência da pandemia, na qual as pessoas se encontram retidas em suas casas, aumentando o consumo, não só de eletricidade, como também de água”, exemplificou.

Segundo Ferreira, ações triviais – como colocar em operação as térmicas – tornou-se a solução mais prática a curto prazo. “Agora, o que poderia estar em andamento é o planejamento energético massivo para as fontes renováveis. Apelo para isto existe, desde a preservação ambiental até o estímulo para reduzir impostos. O setor clama por uma política efetiva e atuante”, concluiu. 

Bernardo Marangon, especialista em mercados de energia elétrica, também compartilha dessa premissa e enfatizou o momento bastante delicado que o país está passando. “Se na visão de Bento Albuquerque não há risco de racionamento para este ano, o risco poderá aumentar para 2022 se não tivermos um próximo período úmido favorável”.

“Neste sentido, qualquer iniciativa que venha contribuir com mais geração de eletricidade será bem-vinda. Ademais, fica claro, neste momento, o benefício da GD (geração distribuída), não só para quem instala mas também para todo o mercado”, destacou. 

Saiba mais: Governo adota novas medidas para evitar agravamento da crise hídrica

Ainda de acordo com Marangon, está claro também o gargalo vivido pelos desenvolvedores de projetos de geração centralizada em relação à capacidade de escoamento da rede, o que dificulta a expansão destas fontes.

“Acredito que uma utilização mais racional da rede é importante. Neste caso, uma regulação voltada para o armazenamento de energia de grande porte é fundamental. Ademais, é preciso trabalhar em uma melhor sinalização do horário de ponta, que tem ocorrido na parte da tarde”, apontou.

Em suma, ele acredita que as instituições deveriam focar mais em planejar o sistema, considerando todas as possíveis alternativas e aprimoramentos dos sinais econômicos para os consumidores e geradores.

Mais análises

Paulo Freire, especialista em aterramento e SPDA (Sistema de Proteção contra Descargas Elétricas) de grandes usinas, enxerga a fala do ministro como uma declaração política, não embasada em fatos. 

“A verdade é que com o aquecimento global o regime de chuvas foi alterado e nós estamos vivendo, já há anos, uma crise crônica na nossa geração hidroelétrica, em função dos baixos níveis de água nos reservatórios, que não conseguem se recuperar do período seco na época das chuvas”, explicou.

“O modelo brasileiro de geração de energia é baseado em hidrelétricas. Devemos encarar o fato que esta base de geração precisa ser diversificada, à medida que a demanda nacional vai crescendo e as hidrelétricas já não são mais capazes de atender a demanda de base, com a complementação por meio de usinas térmicas à gás –  menos poluidoras do que as térmicas à carvão ou óleo”, disse Freire. 

O especialista ainda destacou que esta visão reforça a necessidade de investimento em plantas de geração alternativa (eólica, UHE, UFV e biomassa) – que vão permitir o menor consumo de combustíveis fósseis e a preservação da água nos reservatórios.

Situação hídrica do país

De acordo com levantamento realizado pelo SNM, a análise das chuvas entre outubro de 2019 a abril de 2021 para a bacia do Rio Paraná indica que – com exceção de alguns meses quando as precipitações ficaram acima da média climatológica (dezembro/2019, agosto/2020 e janeiro/2021) – durante a maior parte do período houve predomínio de déficit de precipitação, principalmente a partir de fevereiro de 2021.

Essa condição se manteve em maio, com acumulado parcial de 27 milímetros para a bacia, ou seja, abaixo do acumulado climatológico que é de 98 milímetros. 

“Analisando o índice de precipitação padronizado, que indica déficit ou excesso para diferentes escalas temporais, conclui-se que na maior parte da bacia do Rio Paraná a situação apresenta-se como entre moderado a extremo – considerando-se tanto os últimos 6 e 12 meses, bem como os últimos 48 meses. Ou seja, a situação atual de déficit de precipitação é severa”, disse em nota o SNM. 

Já para os meses de junho, julho e agosto, a previsão indica pouco volume de chuva em toda a bacia. Segundo o alerta emitido, esta estimativa é consistente com a de outros centros internacionais de previsão climática.

Imagem de Mateus Badra
Mateus Badra
Jornalista graduado pela PUC-Campinas. Atuou como produtor, repórter e apresentador na TV Bandeirantes e no Metro Jornal. Acompanha o setor elétrico brasileiro desde 2020.

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