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Artigo de Opinião

Passada a eleição, a conta de luz continua chegando

Passado o barulho, vale agora olhar com frieza para os números do setor elétrico

Passada a eleição, a conta de luz continua chegando

Foto: Canva

A urna fechou, a conta de luz não

As eleições acabaram. No domingo, 25 de outubro, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) proclamou o resultado do segundo turno: Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, numa disputa que mobilizou mais de 128 milhões de eleitores. Foram semanas de discursos inflamados, grupos de família divididos e uma sensação de que tudo ficaria em suspenso até a contagem final.

Agora é hora de seguir a vida. Quem venceu ou perdeu, quem comemorou ou lamentou, todos acordaram na segunda-feira com os mesmos boletos sobre a mesa. E entre eles há um que não tem partido, não tem lado e não espera a posse de ninguém para chegar: a conta de energia.

Passado o barulho, vale olhar com frieza para os números do setor elétrico. Eles contam uma história que vai muito além de qualquer mandato e que interessa diretamente a quem paga a conta, seja uma família, uma loja ou uma indústria.

O rombo que ninguém vê na urna

O maior símbolo do desequilíbrio do setor elétrico brasileiro tem nome e sobrenome: Conta de Desenvolvimento Energético, a CDE. É o fundo que banca subsídios e políticas públicas do setor, e quem paga é o consumidor, dentro da tarifa.

A ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) estima que o orçamento da CDE chegue a R$ 52,7 bilhões em 2026, alta de 7,1% sobre os R$ 49,2 bilhões de 2025. Desse total, R$ 47,8 bilhões saem diretamente do bolso dos consumidores. Para ter noção da escalada, em 2022 o mesmo fundo era de R$ 32,09 bilhões. Em quatro anos, a conta cresceu mais de R$ 20 bilhões.

Segundo dados da própria Aneel, os subsídios já representam cerca de 19,8% da conta de luz. Ou seja, de cada cinco reais pagos, quase um não remunera a energia consumida, e sim encargos e políticas que se acumularam ao longo de décadas.

A Lei 15.269/2025 criou um teto para esses subsídios a partir de 2027, mas o próprio setor reconhece que a redução tende a ser lenta, porque boa parte dos gastos decorre de benefícios já garantidos em lei. Esse é o rombo que nenhuma campanha resolveu e que nenhum resultado eleitoral vai apagar de uma hora para outra.

2026, mais um ano de conta acima da inflação

O resultado prático desse rombo aparece todo mês na fatura. Em junho, a Aneel elevou a projeção de reajuste médio das tarifas em 2026 para 8,6%, acima da estimativa anterior de 8% e acima da inflação. O principal motivo apontado pela agência é justamente o aumento dos recursos destinados à CDE.

Para quem consome em alta tensão, o peso pode ser ainda maior. Em Minas Gerais, por exemplo, o reajuste da Cemig chegou a 9,43% para esses clientes, categoria que reúne boa parte das indústrias do estado.

E há ainda as bandeiras tarifárias. O ano começou com bandeira verde de janeiro a abril, mas desde maio o consumidor convive com a bandeira amarela, que acrescenta R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos, reflexo do período seco e do acionamento de térmicas, mais caras. A bandeira de novembro será anunciada pela Aneel no dia 30 de outubro.

A tendência é clara: a energia da rede está ficando mais cara, ano após ano, por razões estruturais que independem de quem ocupa o Palácio do Planalto.

Mais carros na tomada, mais lojas consumindo

Enquanto o preço sobe, a demanda também sobe. E aqui entram dois movimentos que acompanhamos de perto no Canal VE (Canal de Veículos Elétricos) e no Canal Solar.

O primeiro é a eletrificação da frota. Em 24 de setembro, o Brasil ultrapassou a marca de 1 milhão de veículos leves eletrificados emplacados desde 2012, segundo a ABVE. Mais de um terço desse volume foi vendido só em 2026. A associação projeta cerca de 450 mil unidades neste ano, praticamente o dobro das 223.912 de 2025.

Hoje, de cada 100 carros novos emplacados, 22 têm algum tipo de tração elétrica, e os modelos 100% elétricos bateram recorde em agosto, com 27.166 unidades. Para abastecer essa frota, o país já soma mais de 25 mil eletropostos públicos e semipúblicos.

Cada um desses carros é, na prática, um novo ponto de consumo de energia, seja na garagem de casa, seja no estacionamento do shopping ou do supermercado.

O segundo movimento é o varejo. Em abril, o consumo de energia do comércio atingiu 9.584 GWh, o maior volume mensal da série histórica da EPE, iniciada em 2004. Em julho, o setor seguiu crescendo, com alta de 6,3% na comparação anual, enquanto o consumo nacional registrou o quarto aumento mensal consecutivo.

Lojas mais climatizadas, verões mais quentes, operações digitais e, cada vez mais, carregadores para clientes fazem da energia um dos maiores custos fixos de quem vende.

A conta é simples: mais consumo multiplicado por uma tarifa mais cara resulta em um peso crescente no caixa de famílias e empresas.

Seguir a vida com a própria energia

É nesse cenário que a energia solar deixa de ser apenas uma escolha sustentável e passa a ser uma decisão financeira. Quando a tarifa da distribuidora sobe acima da inflação, todo quilowatt-hora gerado no próprio telhado ou numa usina remota vale mais. O tempo de retorno do investimento encurta justamente porque a alternativa, comprar tudo da rede, fica mais cara a cada reajuste.

Para o varejista, o solar transforma um custo crescente e imprevisível em um custo mais estável, que pode ser planejado. Para quem acabou de comprar um carro elétrico, gerar a própria energia é o que torna a recarga em casa ainda mais barata, fechando o ciclo entre mobilidade elétrica e geração limpa.

E para qualquer consumidor, é uma forma de depender menos de decisões que estão fora do seu controle, sejam elas de Brasília, das chuvas ou do preço das térmicas.

As eleições passaram e o país precisa seguir em frente. A melhor forma de fazer isso é tomar as decisões que estão ao nosso alcance. Ninguém controla o orçamento da CDE nem a cor da bandeira do mês que vem. Mas cada família e cada empresa pode decidir de onde vem a energia que consome. Em 2026, essa decisão nunca fez tanto sentido.

Fontes

TSE: resultado do 2º turno das Eleições 2026

Times Brasil: orçamento da CDE para 2026

eixos: CDE de 2022 a 2026 e peso dos subsídios na conta

O Antagonista: Aneel eleva projeção de reajuste para 8,6%

Tribuna de Minas: reajuste da Cemig em 2026

Movimento Econômico: bandeira amarela em 2026

Autopapo: Brasil supera 1 milhão de eletrificados

Bem Paraná: eletropostos e vendas no 1º semestre

Paraíba Business: recorde de consumo do comércio em abril

O Setor Elétrico: consumo de julho de 2026

As opiniões e informações expressas são de exclusiva responsabilidade do autor e não obrigatoriamente representam a posição oficial do Canal Solar.

Gustavo Tegon
Sobre o autor
Gustavo Tegon

Sócio e Diretor de Negócios do Grupo Canal Solar. Formado em Negócios Internacionais e com MBA em Gestão e Negócios pela Universidade Metodista de Piracicaba. Com grande experiência em geração distribuída, liderou os fabricantes BYD, Jinko e Canadian Solar no Brasil.

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