Um projeto liderado por pesquisadores da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp, com apoio do Centro Paulista de Estudos da Transição Energética (CPTEn), está transformando a realidade de aldeias indígenas no Amapá e no Pará. A iniciativa amplia o acesso à eletricidade e impulsiona a geração de renda local.
A ação faz parte do projeto Energia Limpa, Vida Sustentável, que mapeou as principais demandas energéticas dessas comunidades. Com base nesse diagnóstico, foram instalados kits fotovoltaicos dimensionados para apoiar as atividades produtivas da região, aliando a sustentabilidade ao desenvolvimento socioeconômico.
Em junho de 2026, as aldeias Kumenê e Mawihgi, localizadas na TI (Terra Indígena) Uaçá, no Amapá, receberam kits de energia fotovoltaica. Uma nova instalação está prevista para a aldeia Mapuera, na região da Calha Norte, no Pará, até o fim deste ano.
O projeto está estruturado em três eixos: geração sustentável de energia elétrica, fortalecimento das cadeias produtivas de artefatos e integração entre conhecimentos indígenas e não indígenas.
A iniciativa foi contemplada, em 2023, com recursos do programa Amazônia +10 e envolve comunidades das TIs (Terras Indígenas) Uaçá, Trombetas-Mapuera e Nhamundá-Trombetas.
Dependência de geradores a diesel
A iniciativa ocorre em um contexto de dificuldades no fornecimento de eletricidade às comunidades indígenas da Amazônia Legal.
Segundo levantamento da rede “Uma Concertação pela Amazônia”, em parceria com o IEMA (Instituto de Energia e Meio Ambiente), cerca de 78 mil indígenas convivem atualmente com fornecimento inadequado de energia elétrica na região.
Em algumas comunidades, a alternativa para obter eletricidade são geradores abastecidos à diesel.
Na aldeia Kumenê, problemas nos equipamentos chegaram a deixar os moradores por até um ano sem energia. A situação enfrentada pela comunidade foi um dos fatores que deram origem ao projeto.
Além das interrupções, o transporte do diesel de Oiapoque até a aldeia e a falta de locais adequados para armazenar o combustível representavam riscos de acidentes e de derramamento de óleo nos rios.
Energia solar para atividades produtivas
Antes da instalação dos sistemas, pesquisadores realizaram um diagnóstico das necessidades energéticas de 12 aldeias indígenas na região da Calha Norte e de outras nove comunidades do baixo rio Oiapoque.
O levantamento analisou o consumo individual, familiar e coletivo de energia, além da utilização da eletricidade nas cadeias produtivas.
Após consulta às comunidades, ficou definido que os kits fotovoltaicos seriam destinados às oficinas comunitárias, permitindo que a energia solar também fosse utilizada para apoiar atividades capazes de gerar renda.

Energia solar impulsiona geração de renda local
Hoje, a eletricidade produzida em Kumenê pela energia solar permite que a comunidade utilize equipamentos como parafusadeiras e lixadeiras na preparação de materiais para a fabricação de artesanato e biojoias.
Parte das biojoias é produzida a partir de sobras de madeira utilizadas na fabricação tradicional de bancos pelos indígenas Palikur. Ou seja, materiais que anteriormente eram descartados passaram a ser aproveitados na produção de peças como brincos e colares.
Além da instalação dos sistemas, o projeto promoveu oficinas voltadas à produção de cerâmica e ao reaproveitamento de madeira para a fabricação de biojoias, além da capacitação para o uso das ferramentas elétricas.
Na aldeia, também foi construída uma pequena oficina comunitária para a realização dessas atividades. A eletricidade fornecida pelo sistema fotovoltaico ainda permite o acesso à internet no local.
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