Matéria publicada na Revista Canal Solar – Vol. 7. Nº 2.
Durante anos, a energia termossolar – conhecida internacionalmente como CSP (Concentrating Solar Power) – foi tratada por parte do mercado como uma tecnologia que havia perdido a corrida para os painéis fotovoltaicos.
O rápido avanço da solar convencional, associado à queda acelerada dos preços dos módulos e, posteriormente, ao crescimento das baterias de lítio, reduziu drasticamente o interesse mundial pelas usinas heliotérmicas.
Agora, porém, o cenário começa a mudar. Em meio à crescente necessidade de soluções capazes de garantir armazenamento de energia renovável por longos períodos e fornecer estabilidade às redes elétricas, a CSP voltou a ganhar atenção nas discussões técnicas.
O movimento é liderado principalmente pela China, que vem promovendo uma expansão agressiva da tecnologia em grandes complexos híbridos associados à geração eólica e fotovoltaica.
A lógica por trás desse renascimento é relativamente simples. A CSP passou a ser enxergada não apenas como fonte de geração solar, mas como uma alternativa de armazenamento energético de longa duração.
Diferentemente das baterias eletroquímicas tradicionais, cujo custo tende a crescer sensivelmente em aplicações superiores a oito horas de armazenamento, as usinas termossolares conseguem manter calor armazenado em sais fundidos durante longos períodos com custos considerados mais competitivos em determinadas aplicações.
Isso permitiu que a tecnologia passasse a desempenhar uma função semelhante à de uma “geração de base” renovável, reduzindo a necessidade de acionamento de termelétricas fósseis para garantir estabilidade operativa dos sistemas elétricos.
O conceito é especialmente importante em países que ampliaram fortemente a participação de fontes intermitentes, como solar fotovoltaica e eólica. Nessas situações, a CSP oferece um diferencial estratégico que é produzir energia renovável despachável, inclusive durante a noite.
No Brasil, a tecnologia ainda permanece restrita a projetos experimentais e de pesquisa que, graças a uma iniciativa pioneira da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) permitiu trazer conclusões promissoras para o desenvolvimento local dessa modalidade de geração.
Mas o setor acompanha com atenção o ressurgimento global do segmento. A perspectiva de implantação de uma nova usina no Piauí em parceria com a chinesa CGN Brazil Energy reforçou novamente o interesse sobre o tema.
O PNE (Plano Nacional de Energia) 2055, a propósito, indica que o potencial teórico para exploração das principais versões de aproveitamento heliotérmicos no país, estaria na faixa de 714 GW o equivalente a 151 milhões de toneladas equivalentes de petróleo por ano.
CSP X fotovoltaica
Embora ambas utilizem o sol como fonte primária, a lógica operacional da energia termossolar é diferente da geração fotovoltaica.
Na tecnologia fotovoltaica, os painéis convertem diretamente a luz solar em eletricidade. Já na CSP, o processo é térmico. Espelhos concentram a radiação solar em um receptor, aquecendo fluidos térmicos a temperaturas elevadas.
O calor gerado produz vapor que movimenta turbinas, em um funcionamento semelhante ao de uma usina termelétrica convencional, mas substituindo combustíveis fósseis pelo calor do sol.
Essa característica traz uma vantagem considerada decisiva no cenário atual, ou seja, a possibilidade de armazenamento térmico.
Em muitos projetos modernos, especialmente os de torre solar, o calor é armazenado em sais fundidos que permanecem em temperaturas superiores a 500°C por várias horas. Posteriormente, esse calor pode ser utilizado para continuar produzindo vapor e eletricidade mesmo sem incidência solar direta.
Na prática, isso significa que uma usina CSP consegue operar à noite, em horários de pico de demanda ou durante oscilações de geração eólica e solar convencionais.
Especialistas internacionais avaliam que justamente essa capacidade de despachabilidade recolocou a tecnologia em posição estratégica em 2026.
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