A revisão da projeção de aumento médio das tarifas de energia elétrica para 9,4% em 2026, acima da inflação estimada de 5%, deve exigir maior atenção das empresas na elaboração dos orçamentos para 2027, segundo avaliação da Lux Energia, especializada em comercialização e gestão de energia.
De acordo com a companhia, redes de varejo, indústrias e empresas com unidades em diferentes regiões do país precisam considerar os reajustes de cada distribuidora, as condições contratuais e o perfil de consumo para evitar despesas acima do previsto.
A estimativa da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) foi revisada em setembro, na terceira edição do boletim InfoTarifas, passando de 8,6% para 9,4%. Mesmo com o repasse de R$ 5,5 bilhões para reduzir tarifas nas regiões Norte e Nordeste, a projeção permaneceu acima da inflação.
ANEEL eleva para 9,4% projeção de alta das tarifas de energia em 2026
Reajustes variam entre distribuidoras
As diferenças tarifárias entre concessionárias são um dos fatores que dificultam o planejamento de empresas com unidades em diferentes estados, conforme avaliação da Lux Energia. Em agosto, a ANEEL aprovou reajuste médio de 10,82% para consumidores da Celesc, em Santa Catarina, chegando a 14,16% para a alta tensão.
Na área de concessão da Neoenergia Elektro, em São Paulo e Mato Grosso do Sul, o reajuste médio foi de 9,58%, mas de 4,10% para consumidores de alta tensão. Já no Maranhão, a Equatorial registrou aumento médio de 5,76%, com variação de 8,68% para a alta tensão.
Segundo a Lux Energia, essas diferenças mostram que aplicar um único percentual de reajuste ao orçamento pode distorcer as projeções de empresas atendidas por diferentes distribuidoras. Em uma simulação hipotética, uma rede com 100 estabelecimentos e despesa média mensal de R$ 20 mil por unidade teria um custo anual de R$ 24 milhões com energia elétrica.
Um aumento de 10% representaria R$ 2,4 milhões adicionais em 12 meses, mesmo sem crescimento do consumo. “Quando uma empresa tem operações espalhadas pelo país, não basta aplicar um percentual médio de reajuste sobre a despesa total”, afirma Gustavo Sozzi, CEO da Lux Energia.
Segundo ele, cada unidade pode estar vinculada a uma distribuidora diferente, ter uma modalidade tarifária específica e apresentar um comportamento próprio de consumo. “O orçamento precisa refletir essas particularidades, porque pequenas distorções, quando multiplicadas por dezenas ou centenas de estabelecimentos, podem comprometer o resultado financeiro do grupo”, ressaltou.
Preços no mercado livre também pressionam os custos
A alta dos preços não se restringe ao mercado regulado. Segundo levantamento da Abraceel (Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia), os contratos de longo prazo no mercado livre registraram valorização de 59% entre janeiro de 2024 e março de 2026, passando de R$ 147,00 para R$ 233,00/MWh.
Nos contratos trimestrais, o aumento foi de 121%, com os preços avançando de R$ 143 para R$ 317/MWh. No mesmo período, o PLD (Preço de Liquidação das Diferenças), referência para o mercado de curto prazo, acumulou alta de 84%, chegando a R$ 236/MWh.
Na avaliação da Lux Energia, o cenário exige atenção às condições de contratação, já que os custos no mercado livre dependem de fatores como prazo, volume contratado e perfil de consumo.
Para empresas com várias unidades, mudanças operacionais, como abertura de lojas, expansão de turnos ou oscilações sazonais, podem provocar diferenças entre a energia contratada e a efetivamente consumida, gerando despesas adicionais.
A expansão do mercado livre também amplia a necessidade de planejamento. Segundo a CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), 4.827 consumidores migraram para o segmento no primeiro trimestre de 2026. Em agosto, foram registradas outras 811 migrações.
Atualmente, consumidores de média e alta tensão podem escolher seus fornecedores de energia. A abertura para consumidores comerciais e industriais de baixa tensão está prevista para novembro de 2027, ampliando as possibilidades de contratação para estabelecimentos de menor porte.
“A migração para o mercado livre não deve ser tratada como uma solução automática de economia. É preciso comparar o custo total de permanecer no ambiente regulado com as condições disponíveis no mercado livre, considerando encargos, uso da rede, prazos contratuais e riscos de exposição. Para empresas com várias unidades, pode haver situações em que a migração faça sentido para determinadas operações, mas ainda não seja a alternativa mais vantajosa para outras”, explica Sozzi.
Como as empresas podem se preparar para 2027?
Além dos reajustes e preços de contratação, as bandeiras tarifárias representam outra variável para o planejamento financeiro. Após cinco meses consecutivos de cobrança adicional pela bandeira amarela, a ANEEL anunciou bandeira verde para outubro de 2026, sem custos extras para consumidores sujeitos ao mecanismo.
A mudança, porém, não elimina a possibilidade de novas cobranças ao longo de 2027. Segundo a Lux Energia, para reduzir as diferenças entre os valores previstos e as despesas efetivas, as empresas devem analisar pelo menos 12 meses de consumo de cada unidade, revisar contratos próximos do vencimento e considerar diferentes cenários de preços e reajustes.
Outra recomendação da companhia é avaliar a demanda contratada, especialmente em unidades de média e alta tensão. Dependendo da modalidade tarifária, uma demanda acima da necessidade operacional pode gerar custos recorrentes, enquanto ultrapassagens dos limites contratados podem resultar em cobranças adicionais.
“O maior erro é tratar a energia como uma despesa fixa que pode ser corrigida apenas pela inflação. Uma empresa pode consumir praticamente o mesmo volume de eletricidade de um ano para outro e, ainda assim, registrar uma diferença importante na conta”, destaca o CEO da Lux Energia.
“Por isso, o planejamento precisa considerar diferentes cenários, inclusive situações de maior pressão sobre os preços. A gestão energética tem que estar conectada às áreas financeira e operacional”, ressalta Sozzi.
Na avaliação da companhia, o acompanhamento individualizado das unidades, a revisão contratual e a análise periódica dos custos podem ajudar empresas com operações em diferentes regiões a identificar oportunidades de economia e reduzir riscos de despesas acima do orçamento em 2027.
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