Uma análise financeira realizada por Eduardo Tobias, fundador e diretor da Watt Capital, aponta que as condições de financiamento do Fundo Clima, operado pelo BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) , garantem uma farta margem de competitividade para sistemas de armazenamento em baterias (BESS) fabricados no Brasil.
De acordo com a modelagem financeira realizada pela consultoria, um BESS nacionalizado com selo Finame (Financiamento de Máquinas e Equipamentos) pode apresentar um custo de aquisição até 20% superior ao de um concorrente importado da China e, ainda assim, gerar a mesma taxa de retorno para o investidor no próximo LRCAP (Leilão de Reserva de Capacidade).
Segundo Tobias, a modelagem analisou o LCOS (Custo Nivelado de Armazenamento, em inglês) e mapeou como variáveis de crédito, encargos tarifários, prazos contratuais e incentivos fiscais impactam a Receita Fixa (RAP) exigida pelos projetos.
A análise da Watt Capital considerou um cenário de referência estruturado com alta alavancagem financeira, no qual mais de 70% do Capex total do projeto é financiado via dívida.
A simulação técnica comparou a estrutura atual de captação com o acesso às linhas de fomento ambiental:
- Realidade Atual de Crédito: atualmente, os sistemas de armazenamento no Brasil não possuem acesso a debêntures incentivadas, obrigando os desenvolvedores a recorrerem a debêntures comuns (não incentivadas);
- Migração para o Fundo Clima: ao estruturar o financiamento com 70% de participação do Fundo Clima do BNDES e 30% FINEM, o empreendimento consegue atingir a mesma Taxa Interna de Retorno (TIR) exigindo uma Receita Fixa 11,5% menor no certame;
- Equivalência em Capex Global: essa redução de 11,5% na receita necessária equivale, sob a ótica de viabilidade, a uma redução de 16% no Capex global do projeto.
Como o bloco de baterias (BESS, inversores/PCS e subestação de média tensão) responde por uma fatia que varia entre 70% e 80% do Capex total de uma planta de armazenamento, a economia global de 16% se reflete diretamente na tolerância de preço do equipamento.
Na prática, o produto nacional Finame ganha uma margem para custar até 20% a mais na nota fiscal em relação ao concorrente importado sem perder competitividade.
A consultoria ressalta que o setor deve intensificar a busca por debêntures incentivadas para armazenamento, para diminuir a dependência do Fundo Clima e para reduzir o gap de competitividade das soluções importadas, acionalização do BNDES, que se tornarão mais rígidas ao longo dos anos.
Engenharia de mitigação de riscos e garantias
A estruturação de contratos de fornecimento robustos, como EPC full turnkey e contratos de manutenção de longo prazo (LTSA), é apontada como fator determinante para a redução da TMA (taxa mínima de atratividade) requerida pelo investidor:
- Trade-off entre Capex e O&M: economias excessivas no Capex inicial frequentemente resultam em custos operacionais (Opex) elevados no O&M futuro devido a perdas de desempenho e degradação acelerada;
- Redução da percepção de risco: a presença de garantias tecnológicas de longo prazo (de 15 a 20 anos) confere previsibilidade de desempenho que, se casado com uma extensão do prazo do contrato de reserva para 15 anos, permitiria ao investidor aceitar uma TMA menor, o que reduz o preço do lance no leilão;
- Ajuste do mercado segurador: o estudo destaca a necessidade de um trabalho prévio junto às seguradoras nacionais, com pouca experiência em segurar projetos de bateria, para evitar que custos elevados de seguros onerem a competitividade dos projetos.
Influência regulatória: prazos e tarifas (TUST/TUSD)
O estudo de sensibilidade avaliou o peso de decisões regulatórias sobre a receita necessária para viabilizar os lances:
- Prazos contratuais de 10 a 15 anos: tomando como base os contratos de 10 anos inicialmente previstos para o LRCAP, a extensão do prazo para 12 anos reduz a receita necessária em 4% a 5%. Se o prazo for fixado em 15 anos, o ganho de eficiência varia de 7% a até 22%, pois dilui o risco de cauda do ativo e estende o prazo de amortização da dívida bancária;
- Encargos de transmissão (TUST de demanda): caso a ANEEL determine a cobrança simultânea da TUST/TUSD de geração e de carga (demanda), os projetos demandarão um prêmio adicional na receita entre 11% e 14% para absorver o custo tarifário, cuja combinação varia conforme a localização geográfica.
Viabilidade de sistemas atrás do medidor
A Watt Capital identificou uma mudança estrutural na viabilidade econômica de sistemas BESS instalados junto a usinas geradoras centralizadas (eólicas e fotovoltaicas) para mitigar o descarte de energia por restrição de rede (curtailment).
De acordo com dados da Bloomberg compilados pela consultoria, o custo das baterias estacionárias registrou uma queda de 45% em dólar em termos anuais, patamar favorecido pela retração do câmbio no mercado interno.
Simultaneamente, o agravamento das restrições de escoamento impostas pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e a volatilidade do PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) horário inflacionaram os custos dos geradores, que se veem obrigados a recomprar energia no Mercado Livre de Energia para cumprir contratos firmados.
A análise conclui que a otimização econômica desses sistemas híbridos não reside no dimensionamento das baterias para zerar o curtailment, mas sim no cálculo do ponto ótimo que maximiza o uso cíclico da bateria e protege a receita da usina contra a volatilidade horária de preços.
A viabilidade deverá ser potencializada pela possibilidade de redução do MUST em até 30% sem ônus, conforme as discussões da Consulta Pública 39/2023.
Todo o conteúdo do Canal Solar é resguardado pela lei de direitos autorais, e fica expressamente proibida a reprodução parcial ou total deste site em qualquer meio. Caso tenha interesse em colaborar ou reutilizar parte do nosso material, solicitamos que entre em contato através do e-mail: redacao@canalsolar.com.br.