A expansão dos sistemas de armazenamento de energia em baterias no Brasil passa a contar com um novo marco técnico para a realização do primeiro LRCAP (Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência) voltado à tecnologia.
Em nota técnica conjunta, a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) e o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) detalham a metodologia que será utilizada para calcular a capacidade remanescente da rede de transmissão disponível para a conexão de novos empreendimentos, um dos elementos centrais para definir onde será possível instalar os projetos que disputarão os certames previstos para dezembro.
Mais do que apresentar procedimentos técnicos, o documento evidencia a preocupação dos órgãos de planejamento e operação em adaptar os critérios tradicionais de acesso ao SIN (Sistema Interligado Nacional) às características específicas dos sistemas de armazenamento em baterias (BESS).
A proposta busca assegurar que os empreendimentos vencedores do leilão possam ser integrados ao sistema elétrico sem comprometer a confiabilidade da operação nem provocar conflitos com outros processos de expansão da rede.
Base técnica
A nota foi elaborada em cumprimento às diretrizes estabelecidas pelo MME (Ministério de Minas e Energia) para os dois leilões de armazenamento programados para os dias 2 e 4 de dezembro de 2026 — um destinado a sistemas com conteúdo nacional e outro aberto aos demais projetos.
Ambos terão início de suprimento previsto para 1º de agosto de 2028. O documento corresponde à primeira de duas etapas do processo técnico. Nesta fase, EPE e ONS apresentam as premissas, os critérios e a metodologia de cálculo.
Já uma segunda nota técnica, prevista para até 30 de setembro, divulgará os quantitativos efetivos de capacidade remanescente disponíveis em cada barramento, subárea e área do SIN, além dos casos de referência utilizados nas simulações.
Na prática, essa separação permite que os agentes conheçam previamente as regras do cálculo antes da divulgação dos resultados propriamente ditos.
Capacidade física da rede
Um dos aspectos centrais da metodologia é que a avaliação não se limita à existência de espaço físico para conectar novos empreendimentos.
A análise incorpora diferentes dimensões da operação do sistema elétrico, incluindo desempenho estático, estabilidade dinâmica, níveis de curto-circuito, disponibilidade física das subestações, limitações operativas dos equipamentos de transmissão e a própria capacidade de carregamento das baterias.
O objetivo é verificar se cada ponto da rede possui condições efetivas de receber novos sistemas de armazenamento sob diferentes condições operativas.
Outro diferencial destacado pela nota é que a metodologia considera tanto o momento em que as baterias injetam potência no sistema quanto o período em que precisam ser carregadas. Essa abordagem procura refletir a natureza bidirecional dos sistemas de armazenamento, que ora atuam como geradores, ora como consumidores de energia.
Segundo o documento, mesmo que um barramento apresente capacidade para receber determinada potência durante o descarregamento das baterias, esse valor poderá ser reduzido ou até eliminado caso os estudos indiquem restrições para o carregamento dos equipamentos em condições seguras de operação.
Situações críticas
As simulações foram estruturadas para reproduzir os momentos de maior necessidade de potência do sistema elétrico.
Para isso, EPE e ONS utilizaram como referência os estudos já empregados na definição do requisito de capacidade do SIN, considerando cenários representativos de atendimento à demanda máxima.
A nota técnica explica que foram incorporadas premissas sobre o comportamento das diferentes fontes de geração — hidrelétricas, eólicas, solares e termelétricas — de forma a representar situações críticas de operação e de escoamento de energia.
As premissas variam conforme a região geoelétrica do país. Para Norte, Nordeste, Sudeste/Centro-Oeste e Sul foram estabelecidos percentuais específicos de disponibilidade das diferentes fontes de geração, permitindo que os estudos reflitam as particularidades operativas de cada subsistema.
A nota também esclarece que, para as análises de carregamento das baterias, não serão adotados percentuais fixos de geração ou carga. Em vez disso, serão avaliadas diferentes combinações operativas que representem condições favoráveis para absorção da energia necessária ao carregamento dos sistemas.
Expansão da transmissão
Outro ponto relevante da metodologia é a atualização da configuração da rede de transmissão utilizada nos estudos.
Serão consideradas as instalações de transmissão já outorgadas pela ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) até a reunião ordinária do CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico) realizada no encerramento do período de cadastramento dos projetos, utilizando as datas de tendência homologadas pelo colegiado.
Também serão incorporadas informações atualizadas fornecidas pelas distribuidoras e permissionárias de energia para garantir maior aderência entre o modelo computacional e a evolução esperada da infraestrutura elétrica.
A metodologia ainda prevê compatibilização com a chamada Temporada de Acesso. Dessa forma, parte da capacidade da rede destinada a esse processo será descontada dos quantitativos disponíveis para o leilão de baterias, evitando que um mesmo recurso de transmissão seja reservado simultaneamente para empreendimentos distintos.
Segurança operacional
A preocupação com a segurança da operação aparece de forma recorrente ao longo do documento, porque, além das avaliações de desempenho elétrico, a nota estabelece que limitações relacionadas aos níveis de curto-circuito poderão restringir a capacidade remanescente de determinados barramentos.
Quando houver necessidade de substituição de equipamentos sem prazo compatível com o início do suprimento previsto para agosto de 2028, esses pontos poderão deixar de ser considerados aptos para receber novos empreendimentos.
Também será analisada a disponibilidade física das subestações para novas conexões. Os barramentos serão classificados conforme a possibilidade de expansão existente, levando em consideração o comprometimento da infraestrutura com projetos já contratados, futuros acessos e obras previstas no planejamento da transmissão.
Sob uma perspectiva mais ampla, a nota técnica demonstra que a inserção em larga escala dos sistemas de armazenamento exigirá critérios mais sofisticados do que aqueles tradicionalmente utilizados para empreendimentos convencionais de geração.
Ao considerar simultaneamente aspectos de operação, expansão da transmissão, carregamento, descarregamento e segurança elétrica, EPE e ONS procuram estabelecer uma metodologia capaz de orientar a alocação eficiente dos novos projetos e reduzir riscos.
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