Com colaboração de Ericka Araújo
O diretor da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), Fernando Mosna, disse que o Brasil se aproxima de um cenário em que um apagão de grandes proporções poderá ocorrer caso o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) perca a capacidade de supervisionar a operação do sistema elétrico e os mecanismos de controle previstos para situações críticas não funcionem adequadamente.
A declaração foi feita durante o evento “Tendências do Setor Elétrico em 2027”, promovido nesta quinta-feira (25) pelo escritório Tauil & Chequer Advogados, associado ao Mayer Brown, no Rio de Janeiro (RJ).
“Eu acredito que estamos chegando cada vez mais naquele momento em que o colapso pode acontecer, porque, se eventualmente o Operador (ONS) perder a capacidade de supervisionar o sistema (elétrico) e o mecanismo que for aprovado pela ANEEL para que as distribuidoras tenham condições de recolher a geração de usinas do Tipo 3 não funcionar, efetivamente a gente pode ter um apagão no país. Estamos chegando nesse momento”, afirmou.
Segundo Mosna, a expansão das usinas de GD (geração distribuída) transformou a forma como o sistema elétrico brasileiro opera. Atualmente, de acordo com dados apresentados pelo diretor, a ANEEL contabiliza cerca de 49 GW de capacidade instalada nessa modalidade.
Considerando todo o parque gerador brasileiro, que soma aproximadamente 252 GW, a “geração distribuída é um quinto da geração que nós temos no Brasil”, afirmou.
Para Mosna, esse novo cenário exige uma evolução dos mecanismos de operação do SIN (Sistema Interligado Nacional), de modo que o crescimento da GD continue ocorrendo com segurança e confiabilidade para todo o sistema elétrico.
Como exemplo, Mosna citou o jogo entre Brasil e Haiti pela Copa do Mundo. Segundo ele, após o término da partida, o consumo de energia aumentou rapidamente, exigindo que o ONS incorporasse cerca de 4,3 GW de carga ao sistema em apenas 21 minutos.
O diretor afirmou ainda que, durante esse mesmo evento, o ONS precisou atuar em conjunto com distribuidoras para reduzir a geração de determinadas usinas conectadas às redes de distribuição, como forma de preservar a segurança operativa do sistema.
Ao comentar o próximo jogo da Seleção Brasileira, marcado para o período da tarde, Mosna demonstrou preocupação com o comportamento da carga, já que a partida ocorrerá em um horário de elevada geração solar distribuída.
“Eu fico até um pouco preocupado de como vai ser segunda-feira (29), porque o jogo será às 14 horas e tende a ser um dia com sol. Sendo um dia com sol, tende a ter geração distribuída operando numa perspectiva em que em algum momento, a partir do final do jogo, vai ter uma rampa (forte aumento da demanda por energia em um curto intervalo de tempo) novamente”, disse.
Curtailment continua sem solução definitiva
Durante o evento, Mosna também voltou a defender uma solução regulatória para os cortes de geração renovável, conhecidos como curtailment.
Segundo ele, o problema ganhou maior relevância para o setor após o apagão de 15 de agosto de 2023, quando os episódios de cortes de geração passaram a se intensificar e afetar principalmente empreendimentos renováveis.
O diretor afirmou que, desde então, diversas iniciativas buscaram solucionar a questão, como grupos de trabalho, alterações legislativas e consultas públicas. No entanto, na avaliação dele, ainda não foi construída uma solução definitiva para o tema.
Mosna lembrou ainda que a ANEEL iniciou recentemente a tramitação de um processo para regulamentar o tratamento futuro do curtailment. Segundo ele, a proposta ainda deverá passar por consulta pública, análise das contribuições dos agentes e novas discussões antes da aprovação de uma regulamentação definitiva.
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