A matriz elétrica brasileira deverá passar por uma das maiores transformações de sua história ao longo da próxima década. É o que aponta a versão final do PDE (Plano Decenal de Expansão de Energia) 2035, publicada no DOU (Diário Oficial da União) nesta quinta-feira (2).
Elaborado anualmente pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética) para orientar o planejamento da expansão do setor energético nacional, o documento projeta a adição de 110 GW de capacidade instalada até 2035, elevando a potência total do país dos atuais 249 GW para 359 GW.
Segundo o documento, o crescimento continuará sendo sustentado majoritariamente por fontes renováveis, mas com mudanças importantes no perfil da expansão.
Enquanto a GD (geração distribuída) solar deverá acelerar sua participação na matriz, o avanço das grandes usinas fotovoltaicas tende a perder ritmo diante do aumento dos cortes de geração renovável, fenômeno conhecido como curtailment.
Ao mesmo tempo, o planejamento energético brasileiro passa a incorporar de forma mais estruturada tecnologias como armazenamento por baterias e resposta da demanda, consideradas fundamentais para garantir a segurança e a flexibilidade operativa do sistema elétrico nacional.
Para viabilizar toda essa transformação estrutural, o documento do governo estima que o setor energético brasileiro demandará investimentos da ordem de R$ 3,5 trilhões até 2035, distribuídos entre geração, transmissão e distribuição de energia elétrica.
Hidrelétricas devem perder espaço relativo na matriz elétrica
Apesar de permanecerem como a principal fonte de geração do país, as hidrelétricas devem seguir perdendo participação na matriz elétrica brasileira nos próximos anos.
Em 2025, as hidrelétricas representam cerca de 44% da capacidade instalada nacional, com cerca de 109 GW. Em 2035, embora a potência instalada avance para cerca de 113 GW, sua participação relativa deverá cair para 32%.
Segundo a EPE, essa redução não significa perda de relevância das hidrelétricas, mas sim o crescimento acelerado de outras tecnologias renováveis e de novas soluções de flexibilidade para o sistema elétrico.
A expansão prevista para a fonte hidráulica ao longo do horizonte decenal soma 7,5 GW, incluindo novas usinas hidrelétricas, pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e projetos de modernização de usinas existentes.
Energia solar ultrapassará 100 GW de capacidade instalada
O principal destaque da expansão elétrica brasileira continuará sendo a energia solar. As projeções do PDE indicam que o Brasil deverá alcançar cerca de 107 GW de capacidade solar instalada até 2035, considerando tanto a geração centralizada quanto a micro e minigeração distribuída.
A maior parte desse crescimento, no entanto, ocorrerá fora das grandes usinas. Segundo o documento, a GD deverá atingir 78 GW de capacidade instalada, elevando sua participação na matriz elétrica nacional de aproximadamente 16% em 2025 para quase 22% em 2035.
Já a geração solar centralizada deverá alcançar cerca de 29 GW, mantendo participação próxima aos atuais 8% da capacidade instalada do SIN (Sistema Interligado Nacional).
Os números refletem uma mudança estrutural importante no setor solar brasileiro: a expansão continuará ocorrendo em ritmo acelerado, mas será puxada principalmente pelos sistemas instalados próximos aos centros de consumo.
Curtailment reduz competitividade da solar centralizada
Um dos pontos mais relevantes do PDE 2035 é o reconhecimento oficial de que o atual cenário de excesso de oferta renovável já influencia diretamente as perspectivas de expansão das grandes usinas solares.
O documento afirma que, no atual contexto de curtailment energético (situação em que há necessidade de cortes na geração devido ao excesso de oferta em relação à demanda ou às limitações de transmissão), a expansão adicional da geração solar centralizada torna-se economicamente e operacionalmente menos atrativa para o sistema.
Na prática, isso significa que o governo projeta a adição de apenas 5,6 GW de nova capacidade solar centralizada entre 2026 e 2035, um volume significativamente inferior ao crescimento esperado para a GD.
A avaliação reforça a percepção, cada vez mais presente no mercado, de que o futuro da energia solar brasileira dependerá não apenas da expansão da capacidade instalada, mas também do desenvolvimento de novas soluções de flexibilidade, armazenamento e modernização da infraestrutura elétrica.
Baterias entram definitivamente no planejamento energético
Outro destaque do PDE 2035 é o papel crescente atribuído aos sistemas de armazenamento de energia. Pela primeira vez, o planejamento energético nacional incorpora uma expansão relevante de baterias conectadas ao sistema elétrico.
As projeções indicam a entrada inicial de aproximadamente 600 MW de armazenamento em 2028, chegando a cerca de 6,6 GW até 2035, o equivalente a aproximadamente 2% da capacidade instalada total do SIN (Sistema Interligado Nacional).
Além do armazenamento, o PDE também projeta a expansão da chamada resposta da demanda, mecanismo pelo qual consumidores ajustam voluntariamente seu consumo de energia para contribuir com o equilíbrio do sistema elétrico. Segundo o estudo, esse recurso poderá alcançar cerca de 3,3 GW até 2035, representando aproximadamente 1% da capacidade instalada nacional.
Somados, os recursos de armazenamento e resposta da demanda poderão adicionar cerca de 10 GW de flexibilidade ao sistema elétrico brasileiro até 2035, sinalizando uma mudança importante no planejamento energético nacional, historicamente apoiado predominantemente na expansão da geração convencional para garantir a segurança do suprimento.
Eólica e termelétricas também devem ampliar participação
A energia eólica continuará exercendo papel relevante na expansão elétrica brasileira. O PDE projeta a adição de 13,6 GW de nova capacidade eólica ao longo da próxima década, elevando a potência instalada da fonte dos atuais 35 GW para cerca de 50 GW em 2035.
Já as usinas termelétricas deverão ampliar sua participação na matriz elétrica nacional. Segundo a EPE, a participação das térmicas passará de 8% da capacidade instalada em 2025 para cerca de 12% em 2035, impulsionada tanto pelas usinas previstas na Lei nº 14.182/2021 quanto pela necessidade de garantir requisitos adicionais de capacidade e segurança operativa.
O cenário de referência considera a entrada de 18,7 GW de termelétricas flexíveis a gás natural, além de 7,6 GW de termelétricas inflexíveis previstas em legislação e da entrada em operação da usina nuclear Angra 3.
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