A abertura do mercado livre de energia para consumidores de baixa tensão promete inaugurar uma nova fase do setor elétrico brasileiro.
Mais do que permitir que milhões de consumidores escolham seu fornecedor de energia, o movimento deve alterar a dinâmica competitiva do mercado, impulsionar novos modelos de negócios e atrair investimentos para diferentes segmentos da cadeia.
Na avaliação de Tomás Baldaque, diretor de Soluções para Clientes da EDP na América do Sul, trata-se de uma transformação sem precedentes. Segundo ele, dificilmente outro país viverá um processo semelhante nas próximas décadas, principalmente pela dimensão territorial do Brasil e pelo volume de consumidores que poderão migrar para o ambiente livre de contratação.
“Não me lembro de uma abertura do mercado livre de energia desta dimensão. Nunca mais vamos viver algo assim nas nossas vidas”, afirmou em entrevista ao Canal Solar
A declaração parte da experiência de quem acompanhou outros processos de liberalização ao redor do mundo. Português e com passagem pelo setor de telecomunicações na Europa, Baldaque afirma que o Brasil reúne características únicas para protagonizar uma mudança histórica.
“Quando vim da Europa para cá, uma das coisas que mais ouvi foi que o Brasil possui profissionais extremamente qualificados e um regulador muito competente. E tenho visto que isso é verdade. Há muita gente olhando para este mercado porque a dimensão desta abertura é extraordinária”, afirmou.
Apesar do entusiasmo, ele pondera que o sucesso da abertura não dependerá apenas da regulamentação. Será necessário construir um ambiente de confiança, ampliar a digitalização da rede elétrica, disponibilizar informações sobre o perfil de consumo dos clientes e permitir que as empresas desenvolvam ofertas realmente personalizadas.
Uma abertura muito diferente da ocorrida nas telecomunicações
A comparação entre a abertura do mercado livre de energia e a liberalização das telecomunicações costuma aparecer com frequência nas discussões sobre o futuro do setor elétrico. Para o executivo da EDP, entretanto, a semelhança existe apenas até certo ponto.
Segundo ele, a principal diferença está na própria natureza da energia elétrica. “Meu background é telecomunicações e vejo algumas semelhanças. Mas existe uma diferença muito importante: a volatilidade do preço da energia. Nas telecomunicações isso praticamente não existia”, comentou.
Na visão do executivo, justamente essa volatilidade explica por que diversas comercializadoras enfrentaram dificuldades financeiras nos últimos anos.
“O desafio da energia é muito maior porque exige uma gestão permanente do risco. Foi isso que provocou muitas dificuldades no mercado”, disse.
Ainda assim, ele acredita que o processo brasileiro seguirá um caminho semelhante ao observado em outros setores: aumento da concorrência, maior oferta de serviços e consumidores cada vez mais exigentes.
País continental exigirá diferentes estratégias
Outro aspecto destacado pelo executivo é o tamanho do mercado brasileiro. Segundo ele, o Brasil apresenta características muito distintas entre as regiões, tanto do ponto de vista climático quanto dos hábitos de consumo de energia. “O Brasil é praticamente um continente.”
Essa realidade, segundo Baldaque, fará com que coexistam empresas de atuação regional e grandes comercializadoras nacionais.
“Acredito que existirão comercializadores muito fortes em determinadas regiões e outros com atuação nacional. A EDP quer posicionar-se como um player nacional”, relatou.
Apesar disso, ele acredita que a escala será determinante para o sucesso das empresas. “Devemos ter três ou quatro grandes operadores nacionais e diversos players regionais. Quem conseguir ganhar escala terá vantagens operacionais importantes”, destacou.
O futuro não será vender energia, mas soluções
Na avaliação do executivo, uma das maiores mudanças provocadas pela abertura do mercado livre será a transformação da própria oferta das comercializadoras.
Em vez de vender apenas energia, as empresas passarão a disputar espaço oferecendo soluções completas para consumidores residenciais e empresariais. “Vamos ter duas grandes ofertas: energia e serviços. O segredo será conseguir combinar essas duas coisas”, afirmou.
No segmento residencial, ele acredita que será cada vez mais comum um mesmo fornecedor entregar diferentes soluções para um único cliente. “No futuro, será natural que uma família queira contratar energia, geração solar, bateria e mobilidade elétrica dentro do mesmo ecossistema”, avaliou.
Segundo Baldaque, o verdadeiro desafio estará na execução. “Toda gente tem a ideia. A dificuldade está em executar bem. Como faço uma boa manutenção? Como garanto qualidade? Como entrego tudo isso funcionando? É aí que estará a diferença”, afirmou.
O mesmo raciocínio vale para o segmento comercial. Ao citar o exemplo de restaurantes, o executivo explica que muitas empresas precisarão de soluções voltadas à eficiência energética das câmaras frigoríficas, monitoramento do consumo, manutenção preventiva e até outros serviços recorrentes exigidos pela operação.
“O cliente deixará de comprar apenas energia. Ele passará a contratar soluções.”
Dados serão o principal ativo da nova competição
Embora a discussão sobre a abertura do mercado livre normalmente esteja concentrada nas regras comerciais, Baldaqueacredita que um dos maiores desafios será outro: o acesso às informações dos consumidores.
Segundo ele, a experiência europeia demonstra que a digitalização da distribuição e a adoção de medidores inteligentes foram fundamentais para tornar o mercado mais eficiente. “Antes da robotização e da digitalização existe uma etapa anterior: informação.”
Ele defende que comercializadoras possam conhecer o perfil de carga dos consumidores para construir ofertas compatíveis com seus hábitos de consumo.
“Na Europa conseguimos saber se um cliente consome mais durante o dia, durante a noite, se possui diferentes unidades consumidoras e como utiliza a energia. Isso permite criar produtos muito mais adequados.”
Na prática, explica, um consumidor que concentra seu consumo durante o dia pode receber uma solução baseada principalmente em geração solar. Já outro cliente que apresenta maior demanda no início da noite talvez obtenha melhores resultados combinando energia com sistemas de armazenamento.
“Sem conhecer o perfil do cliente, corremos o risco de oferecer um produto inadequado.”
Para o executivo, essas informações precisam estar disponíveis para todos os agentes do mercado. “A informação deve ser acessível tanto para empresas nacionais quanto para operadores regionais. Isso cria concorrência de verdade.”
Credibilidade vem antes da educação do consumidor
Nos debates sobre a abertura do mercado livre, um dos temas mais recorrentes é a necessidade de educar os consumidores. Baldaque, entretanto, inverte essa lógica.
Para ele, antes de qualquer campanha educativa, será preciso construir credibilidade. “Antes da educação existe a credibilidade.”
Segundo o executivo, o primeiro passo é garantir que as regras sejam claras, estáveis e iguais para todos os participantes do mercado.
“O mercado regulado e o mercado livre precisam seguir regras coerentes. Se houver distorções, o consumidor não enxergará vantagem na migração.”
Outro ponto considerado fundamental é impedir que empresas sem capacidade financeira ou operacional atuem no mercado. “Quem não consegue cumprir aquilo que promete não pode entrar.”
Na avaliação dele, uma experiência negativa logo no início da abertura pode comprometer a percepção da população sobre todo o mercado. “Se um consumidor migrar e for enganado, dirá para todos que o mercado livre não funciona.”
Além disso, mudanças frequentes nas regras também representam riscos. “Se hoje um consumidor migra acreditando em determinadas condições e amanhã as regras mudam completamente, a credibilidade desaparece.”
Papel da imprensa será decisivo
Somente após esse ambiente de confiança estar consolidado é que, segundo Baldaque, a educação do consumidor ganhará protagonismo.
E, nesse processo, ele acredita que a imprensa exercerá papel central. “Na Europa, grande parte da educação aconteceu através da mídia.”
Segundo ele, jornais, televisão, rádio e veículos especializados tiveram papel decisivo para explicar como funcionava o novo mercado e quais eram os direitos dos consumidores.
“O tema passou a fazer parte do dia a dia das pessoas.” Na avaliação do executivo, o mesmo deverá acontecer no Brasil.
Competição exige visão de longo prazo
Questionado sobre os desafios enfrentados por comercializadoras em momentos de alta volatilidade dos preços da energia, Baldaque afirma que sobreviverão as empresas que enxergarem o mercado como um projeto de longo prazo.
“Quem pensar apenas numa corrida de 100 metros terá dificuldades. Isto é uma maratona.”
Segundo ele, parte das dificuldades observadas nos últimos anos decorreu da venda de energia sem o devido lastro contratual.
“Houve empresas que aproveitaram momentos de preços baixos para vender energia sem estruturar adequadamente suas posições. Quando os preços subiram, não conseguiram cumprir o que haviam prometido.”
Ele afirma que a estratégia da EDP é diferente. “Talvez nem sempre sejamos os mais competitivos em preço. Mas nossa prioridade é cumprir aquilo que prometemos aos clientes.”
Uma oportunidade que dificilmente se repetirá
Ao encerrar a entrevista, Baldaque voltou a destacar o caráter histórico da abertura do mercado livre brasileiro.
Segundo ele, poucos profissionais terão a oportunidade de acompanhar uma transformação dessa magnitude ao longo da carreira. “Daqui a cinco anos veremos um setor completamente diferente.”
Para o executivo, haverá desafios, ajustes regulatórios e aprendizados ao longo do caminho, mas o potencial de transformação supera as incertezas.
“Vamos acertar algumas vezes, errar outras, porque este é um processo novo e complexo. Mas acredito que temos um caminho extraordinário pela frente.”
Ele conclui afirmando que o Brasil se tornou um dos mercados mais observados do mundo justamente por reunir uma combinação rara de escala, capacidade técnica e potencial de crescimento.
“Há muita gente olhando para o Brasil. Nunca mais veremos uma abertura do mercado livre de energia dessa dimensão. Precisamos aproveitar esta oportunidade e aprender com ela”, concluiu.
Todo o conteúdo do Canal Solar é resguardado pela lei de direitos autorais, e fica expressamente proibida a reprodução parcial ou total deste site em qualquer meio. Caso tenha interesse em colaborar ou reutilizar parte do nosso material, solicitamos que entre em contato através do e-mail: redacao@canalsolar.com.br.