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Artigo de Opinião

Open energy: dos dados à decisão

Artigo analisa o acesso a dados e neutralidade concorrencial na efetivação da liberdade de escolha do consumidor

Open energy: dos dados à decisão

Foto: Magnific

A possibilidade jurídica de escolher um fornecedor não assegura, por si, condições reais de escolha. Para contratar energia, o consumidor precisa compreender seu perfil de consumo, comparar propostas e concluir a migração sem incertezas excessivas.

A questão central deste estudo é identificar em que medida o acesso padronizado à informação e a reorganização do procedimento de migração podem tornar efetiva a abertura do mercado.

O debate regulatório antecede a decisão de outubro de 2026. Na abertura da Consulta Pública nº 7/2025, a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) relacionou a iniciativa à expansão do acesso ao mercado livre promovida pela Portaria MME nº 50/2022 e apontou a necessidade de simplificar procedimentos e enfrentar entraves burocráticos e condutas anticoncorrenciais. O Open Energy já integrava essa discussão como mecanismo de acesso e compartilhamento consentido de informações.1

O recorte é documental e prospectivo: examinam-se os comandos informados pela Agência e suas implicações jurídicas, sem pretensão de medir resultados econômicos ainda não demonstrados.

Até o fechamento deste artigo, em 31 de outubro de 2026, não foi possível confirmar o número e a publicação no Diário Oficial da União das resoluções definitivas. Assim, o comunicado institucional é utilizado como evidência da decisão anunciada, sem substituir o texto normativo para definir vigência, exceções e exigibilidade.2

Informação como condição de concorrência

Segundo o comunicado oficial, o Open Energy permitirá acesso padronizado a informações de consumo, medição e faturamento, com compartilhamento autorizado e revogável. O dado deixa de servir exclusivamente à execução do serviço e passa a integrar o processo de busca e avaliação de fornecedores.

A consequência analítica é relevante: concorrentes poderão elaborar propostas a partir de uma base informacional mais comparável, desde que legitimamente autorizados.2

Essa possibilidade não equivale a uma garantia de economia. A utilidade da informação depende de sua qualidade, granularidade, atualização e compreensão pelo destinatário.

Uma empresa pode receber diversas propostas e ainda assim ter dificuldade para avaliar riscos de volume, flexibilidade, garantias, reajustes e rescisão. Por isso, a padronização deve ser compreendida como condição para uma comparação qualificada, acompanhada de critérios contratuais inteligíveis.

A plataforma comparativa da CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) prevista na decisão pode reduzir custos de pesquisa, mas sua leitura exige cautela. Como a divulgação de ofertas será voluntária, o conjunto apresentado não deverá ser interpretado como retrato necessariamente completo do mercado.

A comparação tampouco substitui a diligência sobre o fornecedor. Como recomendação de implementação, a interface deveria permitir identificar condições de elegibilidade, encargos adicionais e hipóteses que alterem o preço anunciado, evitando que ofertas estruturalmente distintas pareçam equivalentes.2

Migração previsível e limites às exigências técnicas

O procedimento anunciado admite o início da migração por manifestação formal à distribuidora e, nas hipóteses simplificadas, pela contratação de comercializador varejista. O contrato regulado será mantido até a conclusão da transição. A redução do prazo regular de 180 para 90 dias alcança as unidades AS e A4 abrangidas pelo modelo simplificado, sem autorizar sua extensão automática a todo consumidor do Grupo A.2

A leitura jurídica proposta é que a reforma procura coordenar etapas antes de transferir ao consumidor as consequências de uma transição incompleta. Essa coordenação exige revisão dos contratos de compra e de representação varejista: a data estimada de migração, o início do suprimento, as obrigações de cooperação e os efeitos de atrasos precisam ser compatíveis.

A manutenção do vínculo regulado não deve ser confundida com dispensa de planejamento contratual ou com autorização para duplicidade de cobranças sem causa.

Quanto aos entraves técnicos, a decisão divulgada restringe impedimentos baseados em exigências sem risco emergencial e ressalva a inviabilidade técnica de substituição necessária dos sistemas de medição ou comunicação. A conclusão interpretativa é que referências genéricas à necessidade de adequação não bastam para explicar uma paralisação indefinida.

A justificativa deve permitir compreender o problema concreto e sua relação com a continuidade do procedimento.2

Isso não elimina os requisitos de segurança. Recomenda-se que a análise de cada caso registre a instalação afetada, a intervenção necessária, a causa da inviabilidade e as alternativas avaliadas. Esse conjunto documental permite distinguir um obstáculo efetivo de uma exigência meramente burocrática.

Para o consumidor e seu assessor, preservar protocolos e respostas técnicas é essencial à avaliação de eventual reclamação administrativa, sem presumir que toda pendência configure infração.

Consentimento e governança de dados

A LGPD protege informações relacionadas a pessoas naturais identificadas ou identificáveis. Dados de uma sociedade empresária não recebem automaticamente essa qualificação; cadastros e registros energéticos, porém, podem conter informações pessoais.

A governança deve separar essas situações e contemplar também a confidencialidade comercial. No compartilhamento de dados pessoais, finalidade, necessidade, transparência e segurança delimitam o tratamento; autorizações genéricas são incompatíveis com o regime legal do consentimento.3

A interpretação defendida é que o consentimento precisa existir como escolha operacional, e não apenas como cláusula. Recomenda-se identificar destinatários, conjuntos de dados, finalidades e duração do acesso, conservar evidências da autorização e oferecer revogação facilitada.

O desenho tecnológico deveria permitir interromper acessos futuros e verificar o histórico das permissões. Essas medidas são recomendações de governança, cuja especificação setorial dependerá dos atos e instrumentos definitivos.

Também é necessário distinguir o compartilhamento opcional de operações indispensáveis ao serviço ou a obrigações regulatórias. A LGPD admite bases legais distintas do consentimento; sua revogação não determina, isoladamente, a eliminação de todo registro. A retenção deve ser examinada conforme sua finalidade e fundamento jurídico.

Uma autorização para receber proposta comercial, por sua vez, não deve ser interpretada como permissão irrestrita para usos posteriores incompatíveis.3

Neutralidade da distribuidora e efetividade da abertura

O comunicado oficial admite identidade de marca semelhante entre empresas do mesmo grupo, acompanhada de esclarecimentos ao consumidor, e estabelece restrições à promoção conjunta e ao compartilhamento operacional. Para marcas e comunicação, informa transição de 180 dias; para novos compartilhamentos de infraestrutura e pessoal, aplicação após a publicação, preservados contratos regularmente autorizados até seu término.2

A relevância concorrencial dessas salvaguardas está na posição da distribuidora no relacionamento com o usuário. Na análise aqui proposta, a percepção de continuidade entre a prestadora do serviço de rede e a comercializadora pode afetar a escolha, sobretudo se o consumidor associar a contratação de determinada empresa à qualidade do atendimento.

Separar canais, acessos e funções contribui para tornar verificável a neutralidade exigida, embora a eficácia dependa da fiscalização e do comportamento efetivo dos agentes.

Para assessorias jurídicas, a prioridade é integrar a revisão dos contratos de migração à governança de dados e à avaliação das práticas comerciais.

Recomenda-se verificar se materiais de venda distinguem os serviços, se a autorização informacional é proporcional e se as respostas técnicas permitem acompanhar o procedimento. A mera existência de empresas vinculadas não comprova favorecimento; a análise deve apoiar-se em condutas e evidências específicas.

Conflusão

O Open Energy e a revisão da migração do Grupo A apontam para uma abertura apoiada em condições práticas de escolha. A tese deste artigo é que dados acessíveis, transição previsível e neutralidade concorrencial são complementares: informação sem mobilidade pode ter utilidade limitada, enquanto migração rápida sem comparação adequada pode apenas acelerar decisões mal informadas.

O resultado esperado deve ser tratado como hipótese a avaliar, e não como benefício já comprovado. A implementação precisará ser examinada pela qualidade do acesso, clareza das ofertas e tratamento dos obstáculos concretos.

Os horizontes divulgados de 12 e 24 meses para o Open Energy e de 180 dias para comunicação e marcas não devem ser contados da notícia de 27 de outubro. Sua aplicação exige conferir a publicação do respectivo ato e suas disposições de vigência e transição.2

Notas de referência ao final

1 ANEEL. Aprovada consulta para aperfeiçoar regras dos serviços de distribuição em consequência da abertura do mercado para consumidores do Grupo A. 18 fev. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/noticias/2025-defeso-eleitoral/aprovada-consulta-para-aperfeicoar-regras-dos-servicos-de-distribuicao-em-consequencia-da-abertura-do-mercado-para-consumidores-do-grupo-a/ . Acesso em: 31 out. 2026.

2 ANEEL. ANEEL avança com abertura do mercado e institui Open Energy. 27 out. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/noticias/2026/aneel-avanca-com-abertura-do-mercado-e-institui-open-energy . Acesso em: 31 out. 2026. Fonte da decisão anunciada; não substitui os atos normativos definitivos.

3 BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais. Texto atualizado, especialmente arts. 1º, 5º a 9º, 15, 16 e 46. Câmara dos Deputados. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2018/lei-13709-14-agosto-2018-787077-normaatualizada-pl.html . Acesso em: 31 out. 2026.

As opiniões e informações expressas são de exclusiva responsabilidade do autor e não obrigatoriamente representam a posição oficial do Canal Solar.

Juliana de Oliveira
Sobre o autor
Juliana de Oliveira

Juliana de Oliveira é advogada especializada no setor elétrico, com 14 anos de experiência na área. É CEO da Oliveira & Rohr Advocacia e da Oliveira & Rohr Empreendimentos, além de mestre em Direito.

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