A aprovação do Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center) pode ampliar a competitividade do Brasil na atração de novos investimentos e reduzir a dependência do processamento de dados realizado no exterior.
A avaliação é de Sergio Ribeiro, sócio-fundador do Grupo EBM, empresa brasileira especializada em projetos, construção, refrigeração e infraestrutura completa para data centers na América Latina.
Fundado em 2011, o grupo participa de todas as etapas de desenvolvimento desses empreendimentos, desde a prospecção de terrenos e energia até a construção, instalação de equipamentos, operação e manutenção. A companhia já esteve envolvida em mais de 35 projetos na região.
Segundo Ribeiro, o Brasil reúne mercado consumidor, energia renovável, conectividade e mão de obra qualificada. O avanço dos investimentos, no entanto, dependerá da capacidade de viabilizar conexões à rede elétrica dentro dos prazos exigidos pelo setor.
Confira a entrevista completa abaixo:

Como está estruturado o Grupo EBM?
O Grupo EBM nasceu em 2011 e, desde a fundação, é focado exclusivamente no mercado de data centers. Atuamos na América Latina, principalmente nos países onde esse mercado tem maior relevância, como México, Chile e Brasil. Também temos operações na Colômbia, no Peru e no Panamá, mas México, Chile e Brasil são os países mais relevantes dentro desse tema.
O Grupo EBM é formado por diversas empresas. Geralmente, falamos que vamos “do grid ao chip”. Ou seja, atuamos desde a prospecção de terrenos e energia para os nossos clientes, passando por toda a fase de desenvolvimento e construção do data center, até a operação e manutenção desses parques. Cada empresa do grupo possui uma responsabilidade dentro do desenvolvimento do projeto.
Quais empresas formam o grupo?
Temos a EBM Engenharia, que atua como EPCista na construção de data centers. A IDS é uma empresa de fornecimento de produtos de infraestrutura crítica, como geradores a diesel, baterias, UPS e sistemas de ar-condicionado.
Também temos a EBM Serviços, especializada na manutenção e operação dos sites, e a DRS, uma empresa de land and power bank que atua na prospecção de áreas e energia para a construção dos data centers.
Há cerca de um ano e meio, adquirimos a Thrust Data, que atua na última milha da instalação de um data center, mais focada naquilo que chamamos de fit-out. É a conexão do data center aos serviços que os nossos clientes vão oferecer.
O que muda para o mercado brasileiro com a aprovação do Redata?
O Redata é uma política pública bastante importante para o setor. Estávamos muito ansiosos por essa aprovação no Senado. É um regime especial de tributação que busca aumentar a competitividade do setor. O Brasil é um país com uma carga tributária muito elevada.
Para as empresas de processamento de dados que precisam importar servidores, GPUs e CPUs, essa tributação representava um grande entrave para a realização de investimentos. Isso se torna ainda mais relevante quando olhamos para o mercado de inteligência artificial, que traz um salto muito grande de capacidade.
Estamos saindo de data centers de 10 MW ou 20 MW, que já eram grandes para a computação em nuvem convencional, para sites de inteligência artificial com 300 MW.
Até agora, um dos grandes entraves para esse desenvolvimento no Brasil era justamente o regime tributário, que onerava muito a importação desses processadores. São equipamentos com custo extremamente elevado e dolarizado.
O Redata busca oferecer benefícios fiscais, principalmente no âmbito federal, para a importação desses equipamentos. Também é importante dizer que o Brasil é um grande importador de processamento de dados. Somos relevantes na economia digital mundial, principalmente quando falamos em consumo de redes sociais.
O país possui um mercado consumidor importante e uma economia relativamente digitalizada, mas ainda processa muitas informações fora daqui. Acredito que o Redata pode aumentar a competitividade do Brasil em relação a outros mercados.
É uma política importante para que o país dependa menos do processamento realizado no exterior. Quem sabe possamos passar a ser também um grande exportador de processamento de dados.
A redução da carga tributária é suficiente para destravar investimentos ou ainda existem outros entraves?
É um passo importante. O que mais pesa, do ponto de vista tributário, nessas operações de importação de equipamentos de processamento de dados são os tributos federais. A maior carga acaba sendo zerada pelo Redata.
Ainda existem encargos estaduais e municipais que afetam a cadeia, embora tenham peso menor em comparação com os tributos federais.
Caberá a cada estado desenvolver sua política para atrair esse tipo de investimento. Portanto, ainda existe um caminho a ser percorrido com estados e municípios.
Mas os impostos federais são, sem dúvida, um dos grandes vilões da carga tributária incidente sobre esses equipamentos, e o Redata concentra sua atuação justamente nesses tributos.
Existe uma demanda represada de data centers para instalação no Brasil? Qual é o potencial desse mercado?
O potencial é bastante grande. Como disse, o Brasil possui uma economia digitalizada e é um grande consumidor de mídia digital e redes sociais. Existe um consumo interno considerável. Além disso, a inteligência artificial está fazendo a demanda por dados crescer em um ritmo exponencial.
Estamos saindo de sites de 10 MW ou 20 MW para projetos com mais de 100 MW. É uma multiplicação bastante significativa. As grandes empresas de tecnologia são, basicamente, americanas ou chinesas.
Estamos falando de companhias como Amazon, Google, Microsoft, Meta e Alibaba, entre outros players. Essas empresas já estavam olhando para o mercado brasileiro por uma série de razões. Uma delas é o mercado consumidor interno.
Outra é o acesso a uma energia bastante competitiva quando comparamos o custo brasileiro com o de outros países que concentram data centers, como os mercados da região Ásia-Pacífico e os Estados Unidos. Portanto, existe, sim, uma demanda que aguardava a aprovação deste regime especial.
Quantos data centers o Grupo EBM já ajudou a desenvolver?
Desde a fundação da empresa, em 2011, já estivemos envolvidos em mais de 35 projetos na América Latina.
Que tipo de cliente é atendido pela empresa?
Nossos principais clientes são os operadores de colocation. São empresas que alugam espaços dentro dos data centers para as grandes companhias de tecnologia.
O Brasil possui energia competitiva, mas enfrenta dificuldades para conectar grandes cargas à rede. Existe um gargalo nessa etapa?
Abundância de energia não significa necessariamente abundância de conexão. O Brasil possui abundância energética, mas ainda observamos um grande gargalo do ponto de vista da conexão. Um data center precisa de geração, transmissão, conexão, subestação, disponibilidade e prazo.
Esses são os principais pontos que orientam a busca por recursos para implantar um empreendimento. O prazo é muito importante. O data center acompanha a revolução digital, e a revolução digital possui uma janela de oportunidade. O próprio Redata tem prazo de validade de cinco anos.
Os data centers que estavam com projetos represados no Brasil têm pressa para crescer. Hoje, é possível construir um site em um período de 12 a 24 meses. A conexão de energia precisa acompanhar essa velocidade. Essas grandes capacidades podem acabar descentralizando os data centers da região de São Paulo, que hoje possui a maior concentração de empreendimentos do Brasil e da América Latina.
Os projetos poderão seguir para regiões que ainda não são tão desenvolvidas nesse setor, mas que apresentam maior disponibilidade de conexão. Essa questão é, sem dúvida, um ponto bastante crítico para o desenvolvimento dos data centers no Brasil.
O Redata exige o uso de energia renovável e passou a admitir fontes de baixa emissão. Podemos ter projetos híbridos, combinando fontes renováveis e gás natural?
Acredito que isso passará muito pelo custo. A variável do custo da energia é bastante importante para todos os players que estão buscando se instalar no Brasil. Depois da carga tributária, o custo da energia é um dos principais fatores considerados. A conta de energia é o principal consumo de recursos na operação de um data center.
O desenvolvimento de projetos híbridos é possível e, sem dúvida, será estudado pelos players. Mas, na minha opinião, o problema está muito mais na conexão do que propriamente na geração. Isso pode abrir uma janela de oportunidade para outras fontes, não necessariamente renováveis, complementarem a geração em regiões que carecem de maior capacidade.
Foi uma mudança feita no texto do Redata no último momento e deve ter resultado de um movimento político para ampliar as possibilidades de geração de energia. Na minha opinião, isso vem para somar. O setor buscará a melhor relação entre custo, benefício e prazo para o desenvolvimento dessas conexões.
Quais regiões podem receber esses investimentos fora de São Paulo?
Temos observado muitos anúncios feitos pelos operadores de colocation. Existem desenvolvimentos no próprio Rio de Janeiro, no Sudeste, no Rio Grande do Sul e também em projetos de grande porte no Nordeste.
Fortaleza, especialmente a região da Praia do Futuro, já vem se desenvolvendo para atrair esse tipo de infraestrutura e criando um ecossistema voltado aos data centers.
É importante lembrar que um data center não depende apenas da disponibilidade de terrenos, energia e conectividade. O empreendimento precisa estar inserido em um ecossistema que também ofereça mão de obra qualificada e acesso estratégico, tanto rodoviário quanto aéreo.
É uma série de fatores que precisa ser analisada antes da implantação. O Brasil é bastante maduro na questão da conectividade. Temos mais de 16 cabos submarinos chegando ao país e conectando o Brasil a diferentes regiões.
A infraestrutura doméstica de fibra óptica também é madura. Pelos projetos que acompanhamos, o Nordeste, especificamente o Ceará, apresenta condições interessantes para o desenvolvimento de novos empreendimentos.
Um dos fatores é a concentração de cabos submarinos que chegam à Praia do Futuro, criando uma região favorável para esse tipo de projeto.
Como o desenvolvimento do armazenamento de energia e dos geradores de emergência pode ser impactado pelos data centers?
O data center é um empreendimento que exige fornecimento ininterrupto. Estamos falando de uma disponibilidade de 99,999%, os chamados “cinco noves”.
Isso também passa pela alimentação da rede. A energia precisa ser bastante confiável. O Brasil possui um sistema elétrico robusto, principalmente em alta tensão, que é o nível utilizado quando falamos de projetos de grande capacidade.
A autoprodução ainda é um ponto a ser observado. A utilização de BESS, por exemplo, passará por dois fatores: o custo da implantação e o prazo para que esses sistemas estejam operacionais.
Como a demanda é muito grande e os data centers estão crescendo rapidamente de tamanho, é inevitável que todas as alternativas disponíveis comecem a ser analisadas.
Os operadores possuem uma necessidade de velocidade de implantação que nem sempre será acompanhada pela conexão de energia. Por isso, será necessário estudar soluções transitórias.
O armazenamento pode funcionar como uma solução transitória até que a conexão definitiva seja alcançada ou até mesmo como solução definitiva, dependendo do custo de implantação e do efeito sobre o preço da energia pago pelo operador.
Como o avanço da inteligência artificial está mudando os requisitos de construção, refrigeração e fornecimento de energia dos data centers?
A inteligência artificial traz aquilo que chamamos de aumento de densidade. A área necessária para o processamento diminuiu muito. No mesmo espaço em que antes eram processados 10 MW, hoje podem ser processados 100 MW. Ou seja, a área de processamento pode ser reduzida significativamente.
O que não diminui é o tamanho da infraestrutura necessária para atender esses 100 MW. Ainda será preciso ter sistemas de ar-condicionado, UPS e geradores dimensionados para essa capacidade, como ponte para o fornecimento emergencial de energia.
A infraestrutura cresce à medida que a capacidade aumenta. Isso muda muito o desenho e a engenharia dos projetos. Quando existe uma carga tão densa de processamento em um espaço físico reduzido, o sistema convencional de climatização, baseado na retirada do calor pelo ar, deixa de ser eficiente.
Nesse caso, é necessário utilizar um líquido em circuito fechado. Isso não significa consumo contínuo de água, e é importante desmistificar esse ponto dentro da indústria.
No Brasil, os data centers concebidos nos últimos dez anos não utilizam sistemas de refrigeração com consumo contínuo de água. O circuito é fechado. Depois da primeira carga, a água permanece no sistema e pode ser utilizada durante toda a vida útil do empreendimento, seja por dez, 15 ou 20 anos.
Essa mudança também provoca um aumento no consumo de energia?
Sim. O consumo de energia acompanha a densidade de processamento. Se um data center convencional de colocation, voltado ao processamento em nuvem, possui uma carga de 10 MW, um data center de inteligência artificial pode chegar a 100 MW. O consumo aumenta porque a inteligência artificial demanda muito mais energia.
O Redata tem sido visto de maneira madura pelo mercado internacional porque também traz exigências relacionadas à sustentabilidade. O regime determina o uso de fontes renováveis ou energias limpas e estabelece um limite de consumo de água de 0,5 litro por kWh. É um consumo bastante baixo, praticamente equivalente ao de um empreendimento de escritórios.
O mercado internacional vê o Redata como uma política alinhada às boas práticas de sustentabilidade. Em alguns aspectos, as exigências são mais agressivas do que aquelas observadas nos Estados Unidos, por exemplo. Ficamos bastante satisfeitos porque o regime também trouxe essa preocupação com ESG, que é muito importante.
A disponibilidade de terrenos e financiamento pode representar um gargalo para novos data centers?
Começando pela parte fundiária, o Brasil é um país continental. Comparado com mercados como Malásia, Indonésia ou Singapura, é muito mais fácil encontrar terrenos no Brasil para crescer.
A questão fundiária é importante porque precisa estar combinada com outros elementos. Posso ter um terreno excelente para desenvolver um data center, mas não ter energia disponível ou conectividade.
Também pode ser necessário realizar um investimento muito elevado em infraestrutura para levar o data center até um local que não possui as rotas mínimas de fibra óptica necessárias. Portanto, é preciso combinar a disponibilidade do terreno com energia e conectividade.
Quando olhamos para o financiamento, o data center é uma infraestrutura bastante robusta e onerosa. Por isso, é um mercado dominado majoritariamente por capital estrangeiro.
Também existe capital nacional interessado, porque é um tema relevante e que está na vanguarda. Todos querem investir em data centers, mas existem diferentes possibilidades dentro dessa cadeia.
É possível investir no operador de colocation, que efetivamente constrói o data center; na parte fundiária, com o desenvolvimento imobiliário; ou nas empresas EPCistas responsáveis pela construção.
É um ambiente intensivo em capital. Por isso, é muito comum observar consórcios de bancos financiando o desenvolvimento de um data center. Os investimentos são elevados e os financiadores precisam se reunir para viabilizar esses projetos.
O Brasil tende a se consolidar como o principal polo de data centers da América Latina ou enfrentará a concorrência de outros países?
O Brasil já possui um mercado consumidor importante. Em comparação com os demais países da América Latina, temos uma população muito maior. Esse é um fator preponderante para atrair data centers, inclusive para atender à demanda doméstica.
O segundo fator é a conectividade. O Brasil possui mais de 16 cabos submarinos chegando ao território nacional. Também temos uma matriz elétrica com grande participação de fontes renováveis e energia limpa. Nenhum outro país da América Latina oferece algo próximo ao Brasil nesse aspecto.
As grandes empresas de tecnologia possuem políticas de ESG bastante agressivas e dão preferência a países com uma matriz elétrica mais sustentável. O Brasil também possui vantagem nesse ponto.
Além disso, o Brasil tem energia e muita capacidade de geração.O México seria um grande concorrente pela proximidade com os Estados Unidos, onde estão muitas das empresas que demandam esses data centers. No entanto, o país enfrenta um problema sério de falta de energia.
A matriz mexicana não possui o mesmo nível de renovabilidade e ainda há carência de oferta. Portanto, o México ainda precisa percorrer um caminho para crescer na velocidade exigida pela demanda por data centers.
A Colômbia, por exemplo, possui uma zona franca interessante em Bogotá e chegou a atrair alguns investimentos, mas em um volume ainda modesto. O Brasil possui mão de obra qualificada e está inserido nessa economia digital há mais de uma década.
O país reúne vários atributos. O que faltava era uma política pública que criasse incentivos para a instalação desses empreendimentos, e o Redata veio preencher esse espaço. O Brasil já possui um parque instalado muito maior do que qualquer outro país da América Latina. Com o Redata, a tendência é que essa distância aumente.
A cadeia nacional de fornecedores também pode ser beneficiada pelo avanço desses investimentos?
O Redata não oferece benefícios fiscais para a cadeia construtiva. O foco está nos equipamentos de processamento de dados, que concentram grande parte do capex das operadoras de data centers.
Mesmo assim, o regime gera muitas oportunidades. O data center exige mão de obra bastante qualificada. Nos empreendimentos que temos atualmente em desenvolvimento no Brasil, há mais de 700 trabalhadores indiretos atuando nas obras.
Os projetos também movimentam uma grande cadeia nacional de suprimentos ligada à construção civil. O Brasil é um produtor relevante de equipamentos eletroeletrônicos, o que pode movimentar a indústria nacional.
O país, por exemplo, é exportador de transformadores. Portanto, existe uma indústria importante que também pode ser beneficiada.
Qual é a perspectiva de crescimento do Grupo EBM diante do desenvolvimento do mercado de data centers e da aprovação do Redata?
O grupo tem crescido bastante nos últimos dois anos. A economia digital brasileira, principalmente o mercado de data centers, já estava aquecida mesmo antes do Redata.
Temos registrado crescimento anual de dois dígitos. Ainda não paramos para estudar exatamente qual será o impacto do Redata sobre o nosso pipeline.
Mas, sem dúvida, a ideia é continuar crescendo nos próximos cinco anos. Acredito que isso será observado não apenas no Grupo EBM, mas em todas as empresas inseridas nesse setor.
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