A indústria chinesa de armazenamento de energia vive uma nova fase de expansão internacional. Depois de ganhar escala na fabricação de baterias, inversores, BMS, sistemas integrados e soluções para diferentes aplicações, empresas do país agora buscam consolidar presença global não apenas por meio de produtos, mas também por posicionamento de marca, serviços locais e domínio de cadeia produtiva.
Um exemplo desse movimento é a fabricante SAJ, que estabeleceu uma meta ambiciosa: entrar no grupo das cinco maiores empresas globais do setor de armazenamento de energia em um prazo de três a cinco anos. A sinalização foi feita por Samil Ouyang, presidente da SAJ, em um momento em que a companhia tenta ampliar sua visibilidade internacional.
Com foco nessa estratégia, a empresa anunciou, em abril, o tenista australiano Alex de Minaur como embaixador global da marca. A iniciativa reforça o movimento da companhia de deixar de atuar apenas como exportadora de produtos para consolidar uma presença internacional também apoiada em reconhecimento de marca.
O movimento ocorre em meio a um forte crescimento da demanda internacional por sistemas de armazenamento. Segundo CNESA (China Energy Storage Alliance), os novos pedidos vindos do exterior para companhias chinesas do setor somaram 366 GWh em 2025, alta de 144% em relação ao ano anterior. Mais de 70 empresas chinesas de armazenamento participaram desse processo de expansão global.
No primeiro trimestre de 2026, a tendência se manteve. De acordo com o banco de dados da indústria da CESA, empresas chinesas fecharam 124 pedidos internacionais de armazenamento de energia, totalizando aproximadamente 104,63 GWh.
Para os executivos da SAJ, a expansão é resultado de uma combinação de fatores: maior preocupação com segurança energética, aceleração da transição para fontes renováveis, crescimento da demanda por energia em data centers e amadurecimento de mercados internacionais de eletricidade.
“Os mercados de armazenamento de energia no exterior, devido à alta certeza política e regulatória e ao comércio maduro de eletricidade, tornaram-se um ponto de crescimento importante para as empresas chinesas de armazenamento de energia”, afirmou Shu Jie, diretor do Laboratório de Microredes Distribuídas e Inteligentes do Instituto de Conversão de Energia de Guangzhou, da Academia Chinesa de Ciências.
Segundo ele, a demanda internacional segue aquecida e tem sido impulsionada pelo avanço dos chamados “três novos itens” da pauta exportadora chinesa: energia fotovoltaica, armazenamento de energia e veículos de nova energia.
Receita externa já responde por até 90% da SAJ
No caso da SAJ, o exterior já representa a maior parte dos negócios. Segundo a fabricante, a receita internacional corresponde atualmente a cerca de 80% a 90% do total da companhia.
A empresa também projeta novo ciclo de forte crescimento. “Em 2025, a receita de armazenamento de energia no exterior dobrou em comparação com 2024. Em 2026, espera-se que pelo menos dobre novamente. Em 2027, estamos confiantes em continuar a tendência de duplicação”, disse Samil Ouyang.
A companhia afirma que a margem bruta média dos produtos de armazenamento vendidos fora da China gira em torno de 30%, com desempenho ainda superior em alguns mercados europeus. O percentual é maior do que o observado no mercado doméstico chinês, onde a margem bruta ficaria entre 10% e 15%, segundo o release.
Esse diferencial ajuda a explicar a aposta da empresa em uma estratégia de expansão internacional mais estruturada. Atualmente, os produtos da SAJ estão presentes em mais de 80 países, com equipes de serviço localizadas em mais de 40 mercados.
A companhia passou por dois ciclos que influenciaram essa estratégia. Entre 2016 e 2018, tinha maior dependência do mercado doméstico chinês. Depois, com mudanças nas políticas de subsídios locais, acelerou a presença internacional.
Já entre 2021 e 2022, com a forte demanda europeia, a empresa concentrou parte relevante da atuação em determinados mercados. A posterior acomodação da demanda na Europa levou a Sanjing a buscar uma presença global mais equilibrada.
Segurança energética e renováveis impulsionam baterias
A expansão internacional das empresas chinesas ocorre em um contexto de maior preocupação dos países com segurança energética. A volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis e os conflitos geopolíticos têm levado governos e empresas a buscar alternativas para reduzir a dependência externa e aumentar a previsibilidade do suprimento.
Nesse cenário, a combinação entre energia solar, eólica e armazenamento ganha força. As baterias passam a cumprir papel estratégico para compensar a intermitência das renováveis, deslocar energia para horários de maior demanda e oferecer suporte à estabilidade da rede.
“Na indústria de novas energias, a fotovoltaica e o armazenamento de energia estão inevitavelmente profundamente integrados”, afirmou Samil Ouyang. “A fotovoltaica é uma fonte de energia intermitente. Instalações de pequena escala não exigem armazenamento de energia de suporte, mas a conexão à rede em larga escala deve depender do armazenamento de energia para alcançar uma regulação estável da rede.”
Segundo o executivo, embora os fatores de crescimento variem conforme o mercado, a transição energética global sustenta uma demanda de longo prazo para soluções de armazenamento.
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