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Mercado Internacional

Solar avança de forma desigual, mas desafios aproximam Alemanha e América Latina

Painel da Intersolar South America Conference aponta desafios comuns a mercados em diferentes estágios

Foto: Magnific

A expansão da energia solar fotovoltaica ocorre em velocidades e circunstâncias muito diferentes na Alemanha, Argentina, Colômbia e Uruguai.

Enquanto o mercado alemão já enfrenta os efeitos de uma elevada penetração da fonte, com preços zerados em determinados momentos e dificuldades para acomodar a geração na rede, países latino-americanos ainda têm amplo espaço para crescer, mas esbarram em obstáculos como falta de financiamento, demora no licenciamento, insuficiência da infraestrutura de transmissão e indefinições regulatórias.

Essa combinação de realidades distintas, mas atravessadas por desafios semelhantes, deu o tom do painel “Mercados fotovoltaicos ao redor do mundo”, realizado nesta quinta-feira, 27, no terceiro e último dia da Intersolar South America Conference, em São Paulo.

Mediado por Natália Oliveira, líder regional para a América Latina da Global Renewables Alliance, o encontro reuniu Alexander Rohlf, da associação alemã BSW Solar; Marcelo Luis Alvarez, presidente da CADER (Câmara Argentina de Energias Renováveis); Lina Maria Redondo, da SER Colombia; e Enzo Melani, diretor da AUDER (Asociación Uruguaya de Energías Renovables).

Natália procurou situar o debate em uma escala global. Segundo os números apresentados, 2025 registrou a adição de 664 GW de capacidade solar, e a fonte respondeu por 77% de toda a expansão das renováveis no mundo.

Em 2026, a capacidade fotovoltaica global já alcançou 3 TW, impulsionada sobretudo pela China, responsável por 382 GW adicionados, seguida pela Europa e pela Índia. A perspectiva até 2030 é de mais 4,6 TW de capacidade, num cenário em que a solar deverá responder por quase 80% da geração renovável mundial.

Mas a mediadora chamou atenção para um ponto central do painel. O crescimento da fonte não elimina os problemas e, em muitos casos, apenas muda sua natureza. E foi justamente essa convergência entre desafios de mercados maduros e emergentes que surgiu nas apresentações

Integrar o crescimento

Alexander Rohlf apresentou o caso de um mercado que continua sendo o maior da Europa, mas que já precisa administrar as consequências de seu próprio sucesso.

A Alemanha havia alcançado em agosto a meta de 128 GW de capacidade solar prevista para o fim do ano, após adicionar 17,6 GW em 2025. O país também acumulava 30 GWh de armazenamento distribuídos em aproximadamente 3 milhões de sistemas de baterias.

O avanço, entretanto, ocorreu mais rapidamente do que a expansão das redes, do armazenamento e da digitalização. Como consequência, o sistema passou a registrar o fenômeno conhecido como “curva do pato”, com excesso de oferta solar em determinadas horas e forte queda nos preços. Rohlf citou inclusive o registro de preços de zero centavo por quilowatt-hora em agosto como um sinal dessa nova realidade.

A resposta passa pelo armazenamento, que vem crescendo aceleradamente. No primeiro semestre de 2026, segundo os dados apresentados, o segmento de baterias comercial e industrial cresceu 50%, enquanto a capacidade de armazenamento de grande porte triplicou em relação ao mesmo período do ano anterior. Ainda assim, projetos continuam limitados por licenciamento e acesso à rede.

Além da infraestrutura, o setor enfrenta uma nova incerteza política. Rohlf criticou propostas que podem reduzir os mecanismos de apoio à geração residencial, impor cortes automáticos à produção e acelerar a migração para modelos de comercialização direta que, segundo ele, ainda não dispõem de instrumentos suficientes para pequenos consumidores.

Para o representante da BSW, a principal lição alemã é clara no sentido de que  solar, rede, digitalização e armazenamento precisam evoluir de forma coordenada.

Falta capital e infraestrutura

Se a Alemanha discute como administrar uma solar já consolidada, a Argentina ainda busca criar condições para destravar seu potencial conforme observou Marcelo Luis Alvarez.

Ele destacou que o país atingiu cerca de 19% de participação das renováveis na matriz elétrica, com a solar respondendo por aproximadamente 20% desse total. Os melhores recursos estão no noroeste e na região de Cuyo, no centro-oeste, com fatores de capacidade considerados de nível mundial.

O principal problema, segundo Alvarez, não é a disponibilidade do recurso solar, mas o ambiente de investimentos. O custo do dinheiro e o risco associado ao mercado argentino dificultam o financiamento de projetos de capital intensivo.

Em comparação apresentada durante o painel, o custo financeiro no país seria aproximadamente o dobro do observado no Chile e significativamente superior ao brasileiro.

A falta de investimentos em transmissão é outro gargalo. Alvarez observou que o país não atingiu integralmente suas metas de renováveis não por falta de competitividade da energia, mas por ausência de infraestrutura para escoar a produção.

Paradoxalmente, foi justamente essa fragilidade da rede que abriu uma nova oportunidade para o armazenamento, uma vez que a Argentina realizou dois leilões de 1 GW cada para baterias, motivados pela necessidade de reduzir o risco de apagões.

A resposta do mercado, segundo o presidente da CADER, foi expressiva, pois enquanto o primeiro certame recebeu ofertas de 1,3 GW, o segundo teve propostas equivalentes a oito vezes o volume procurado. Para ele, o armazenamento argentino está surgindo por uma razão diferente da observada em países como Chile e Brasil. Menos para recuperar energia perdida por curtailment e mais para reforçar a segurança do sistema.

A geração distribuída também oferece espaço para expansão, especialmente em modelos regionais. Alvarez citou Cordoba como exemplo de crescimento impulsionado por menor subsídio à energia convencional, linhas de financiamento e modelos de compartilhamento de excedentes entre membros de comunidades.

Transformar pipeline em usinas

Na Colômbia, o desafio apresentado por Lina Maria Redondo é converter rapidamente um vasto potencial em capacidade efetivamente operacional. O país já possuía 3,13 GW de projetos renováveis de médio e grande porte em operação ou fase de testes, dos quais 3,06 GW eram solares. Somavam-se a esse volume 1,42 GW de autogeração e geração distribuída distribuídos por cerca de 23 mil iniciativas.

A expansão é estratégica porque aproximadamente 70% da matriz elétrica colombiana ainda depende da hidreletricidade, tornando o sistema vulnerável à variabilidade hidrológica e a eventos como o El Niño.

Ao mesmo tempo, as projeções indicadas pela palestrante apontavam para déficit energético próximo de 5% neste ano, com tendência de crescimento. A oportunidade para a solar, portanto, está diretamente ligada à necessidade de diversificação e segurança do suprimento.

O problema é a velocidade, segundo Lina, porque o desenvolvimento de um projeto pode levar de três a sete anos, e cerca de 70% desse período é consumido por licenças, permissões e autorizações, e não pela construção.

Há casos de atrasos superiores a mil dias. A SER Colombia estima que US$ 800 milhões em investimentos e 9 mil empregos diretos estejam em risco caso os entraves persistam.

A lista de desafios inclui ainda acesso à rede, falta de sincronização entre projetos de geração e transmissão, desenvolvimento incipiente do armazenamento e instabilidade regulatória.

Para a entidade, a prioridade é aproximar o ritmo das decisões públicas da velocidade dos investimentos que já estão prontos para avançar. Entre as propostas estão um sistema acelerado de licenciamento, expansão da transmissão, regras para remuneração do armazenamento e maior previsibilidade para os investidores.

Uma segunda transição

O Uruguai apresentou talvez o caso mais distinto do painel. Depois de uma primeira transformação energética fortemente baseada na expansão das renováveis, sobretudo da eólica, o país vê na solar a possibilidade de iniciar uma nova etapa.

Enzo Melani destacou que a fonte ainda representa apenas 4% da demanda elétrica uruguaia. Dos cerca de 350 MW de capacidade fotovoltaica, 75 MW correspondem à geração distribuída. Para a AUDER, isso evidencia que, mesmo em uma matriz já predominantemente renovável, existe amplo espaço para o crescimento da solar.

Uma das vantagens do país é a complementaridade entre a geração solar e a eólica. Segundo informou, os períodos de menor produção de uma das fontes tendem a coincidir com momentos de maior geração da outra. O curtailment, por enquanto, ainda não é um problema estrutural para a fonte solar uruguaia, embora a expansão futura aumente a necessidade de armazenamento e flexibilidade.

A meta anunciada pelo governo é adicionar 500 MW até 2030, combinando investimentos da estatal UTE e da iniciativa privada. O modelo de contratação ainda está em discussão, com alternativas que vão desde PPAs competitivos até estruturas semelhantes a contratos de leasing operacional.

Mas Melani apresentou uma visão mais ampla da oportunidade. A abundância de eletricidade renovável e competitiva poderia transformar-se em fator de atração para novos investimentos, incluindo data centers e atividades associadas a moléculas verdes. O desafio é criar as condições para que mais geração limpa também induza mais demanda e, assim, estabeleça um novo ciclo de expansão econômica.

Para isso, ele resumiu quatro condições essenciais como previsibilidade regulatória, desenvolvimento de mercados capazes de mobilizar capital privado, expansão da transmissão e maior flexibilidade por meio de armazenamento, gestão da demanda e sinais de preços adequados.

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Antonio Carlos Sil
Sobre o autor
Antonio Carlos Sil

Antonio Carlos Sil é jornalista formado pela FMU/FIAM. Atuou como repórter pela Brasil Energia, além de serviços prestados para Agência Estado, Exame e Canal Energia. Trabalhou em assessorias de comunicação da CPFL Energia, CESP e AES Tietê. Cobre setor elétrico desde 2000. Possui experiência na cobertura de eventos, como leilões de energia, convenções, palestras, feiras, congressos e seminários.

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