O mercado brasileiro de energia solar passa por uma mudança no perfil das importações após o forte movimento de compras registrado nos últimos anos. Estoques elevados, mudanças tributárias, oscilações no frete internacional e um ritmo diferente de vendas levaram empresas do setor a rever estratégias de aquisição e planejamento logístico.
Ao mesmo tempo, uma nova frente começa a ganhar importância na cadeia: a importação de sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS), que possuem características logísticas diferentes das tradicionalmente encontradas no transporte de módulos e inversores.
Segundo Adriane Pessôa, especialista vertical do segmento solar do Grupo Allog, o setor viveu uma forte aceleração em 2024, seguida por um período de ajuste.
Nas operações realizadas pela empresa, as importações de módulos solares passaram de 13.659 TEUs em 2023 para 14.900 TEUs em 2024. Em 2025, o volume chegou a 15.720 TEUs.
“Em 2024, houve uma espécie de corrida do mercado para aproveitar a utilização das cotas de incentivo fiscal, seguida de uma crise de estoque, quando foi necessário o reajuste”, explica Adriane.
O movimento ocorreu em meio às mudanças nas condições tributárias para importação de módulos fotovoltaicos. A antecipação de compras contribuiu para a formação de estoques que precisaram ser absorvidos posteriormente pelo mercado.
A mudança também afetou o perfil dos importadores. Segundo a especialista, parte das empresas menores reduziu as compras diretas da China e passou a adquirir equipamentos de grandes distribuidores brasileiros, aumentando a concentração das operações de importação em companhias de maior porte.
Mercado global continua em expansão
A reacomodação brasileira acontece enquanto a fonte solar continua avançando mundialmente. Segundo o Global Solar Market Outlook 2026-2030, da SolarPower Europe, o mundo alcançou a marca de 3 TW de capacidade solar instalada.
Em 2025, a fonte respondeu por 77% de toda a nova capacidade renovável adicionada globalmente. A geração fotovoltaica atingiu 2.778 TWh no período, volume equivalente a aproximadamente 9% da demanda mundial de eletricidade.
A expansão global, entretanto, ocorre em um mercado que também passa por transformações na composição dos equipamentos e soluções demandados. Sistemas de armazenamento e eletrificação começam a se aproximar da cadeia tradicionalmente concentrada em módulos e inversores.
Frete ganha peso em cenário de equipamentos mais baratos
A redução dos preços dos módulos adicionou outro componente ao planejamento das importações. Com equipamentos mais baratos, custos relacionados ao transporte passam a representar uma parcela mais relevante da operação. Oscilações no frete marítimo podem, portanto, alterar a decisão sobre quando e quanto importar.
“O valor do painel solar hoje está muito baixo. Por isso, qualquer custo adicional dentro da cadeia logística acaba tendo impacto importante no resultado do cliente”, afirma.
Em períodos de fretes mais elevados, empresas que operam grandes volumes podem postergar parte dos embarques e priorizar cargas consideradas urgentes.
As variações do transporte marítimo, no entanto, não dependem apenas da demanda. Estratégias adotadas pelos armadores, disponibilidade de navios, alterações de rotas e acontecimentos geopolíticos também podem reduzir a capacidade disponível e provocar aumentos de custos.
Nesse ambiente, o planejamento das importações deixa de depender apenas de projeções anuais de demanda. Disponibilidade de equipamentos, prazos de fornecedores, condições de transporte e comportamento dos fretes precisam ser acompanhados continuamente.
Baterias criam nova demanda logística
Se módulos e inversores ainda representam a maior parcela das importações do setor fotovoltaico, o avanço dos sistemas de armazenamento começa a criar uma nova frente para a cadeia.
“O futuro do solar está diretamente ligado ao aumento da utilização de baterias e sistemas de armazenamento”, avalia.
A expectativa é que a redução dos custos da tecnologia e a maior qualificação dos profissionais envolvidos em projetos com armazenamento contribuam para ampliar a presença desses equipamentos no mercado brasileiro.
A mudança traz implicações que vão além dos projetos de engenharia. Baterias de lítio são classificadas como mercadorias perigosas para fins de transporte e estão sujeitas a procedimentos específicos durante as operações logísticas.
A complexidade aumenta nos projetos de maior porte. Sistemas BESS destinados a aplicações comerciais, industriais e de grande escala podem chegar ao país estruturados em contêineres e pesar dezenas de toneladas.
Com isso, o transporte passa a exigir planejamento específico de acordo com as características do equipamento, do porto de entrada e do local de instalação.
A expansão do armazenamento também tende a exigir adaptação dos diferentes participantes da cadeia. Enquanto integradores precisam desenvolver conhecimento para projetar, instalar e operar esses sistemas, distribuidores e operadores logísticos precisam se preparar para movimentar equipamentos com características distintas das encontradas nos módulos fotovoltaicos.
Eletrificação aproxima dois mercados
Outro movimento acompanhado pelo setor é a expansão dos veículos elétricos e da infraestrutura de recarga. A instalação de carregadores e eletropostos, principalmente quando combinada à geração fotovoltaica e ao armazenamento, cria uma interseção entre os mercados de energia solar e mobilidade elétrica.
Para empresas que já atuam na cadeia fotovoltaica, essa aproximação pode representar uma possibilidade de diversificação dos negócios.
A expansão da infraestrutura de recarga pode ampliar a demanda por equipamentos e soluções capazes de integrar geração solar, armazenamento e carregamento de veículos, criando também novas necessidades de importação e logística.
China permanece como principal origem dos equipamentos
Apesar do avanço das discussões sobre nacionalização da cadeia fotovoltaica, a China continua sendo a principal origem dos equipamentos solares importados pelo Brasil, especialmente dos módulos.
Segundo Adriane, a capacidade produtiva nacional ainda não é suficiente para atender integralmente à demanda brasileira. Mesmo em produtos montados no país, componentes importantes da cadeia, como células fotovoltaicas, continuam sendo provenientes do exterior.
A situação é diferente em alguns segmentos. Estruturas utilizadas na instalação dos módulos, por exemplo, vêm ganhando participação da indústria brasileira, reduzindo a necessidade de importação desses componentes.
Regionalmente, a demanda por equipamentos está distribuída pelo país, embora o Sudeste mantenha participação relevante, principalmente em São Paulo. O Nordeste também concentra grandes projetos solares e empreendimentos híbridos que combinam diferentes fontes de geração.
Nas operações do Grupo Allog, Santos aparece como principal porta de entrada dos equipamentos, seguido pelos portos de Paranaguá e Itapoá. No Nordeste, terminais como Suape e Salvador também participam das operações.
Logística acompanha transformação do setor solar
A mudança observada nas importações mostra que a evolução do mercado brasileiro não depende apenas da quantidade de módulos que entram no país.
Depois de um período marcado pela expansão acelerada das compras e pela formação de estoques, a cadeia passa a lidar com um ambiente em que planejamento, custo logístico e flexibilidade ganham maior peso.
Ao mesmo tempo, baterias, infraestrutura de recarga e novas aplicações ligadas à eletrificação começam a modificar o perfil dos equipamentos movimentados pelo setor.
Para os operadores logísticos, a transformação significa lidar simultaneamente com mudanças regulatórias, oscilações de frete, novas características de carga e diferentes ritmos de demanda.
“O desafio é conseguir montar esse quebra-cabeça logístico de acordo com a necessidade de cada cliente”, resume Adriane.
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