As perdas de energia elétrica continuam representando um dos maiores desafios para o setor elétrico brasileiro, mostram dados apresentados pela ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) nesta quinta-feira (2).
Os números revelam que cerca de 14,3% de toda a energia injetada nas redes de distribuição no ano passado não chegou ao consumidor final, seja por razões inevitáveis ao funcionamento do sistema, seja por furtos, fraudes e outras irregularidades.
Desse total, 7,2% correspondem às perdas técnicas, enquanto 7,1% são perdas não técnicas, conhecidas popularmente como “gatos”. Embora tenham praticamente o mesmo peso em volume de energia, as duas categorias possuem causas e tratamentos bastante diferentes, uma vez que nem toda energia gerada consegue chegar integralmente aos consumidores.
Durante o transporte pelas linhas de transmissão, a passagem pelos transformadores e o processo de medição, uma parcela da eletricidade é naturalmente dissipada em razão das próprias leis da física.
Essas são as chamadas perdas técnicas, presentes em qualquer sistema elétrico do mundo. Em 2025, elas representaram cerca de 45,2 TWh – o equivalente a 7,2% da energia injetada nas redes de distribuição.
Na Rede Básica, responsável pela transmissão de energia em alta tensão entre as usinas e os centros consumidores, essas perdas corresponderam a aproximadamente 2,04% da energia gerada. O custo associado é dividido igualmente entre geradores (50%) e consumidores (50%), e é considerado anualmente nos processos tarifários.
Segundo os cálculos realizados com base no preço médio da energia utilizado nas tarifas de 2025, as perdas técnicas nas redes de distribuição representaram um custo aproximado de R$ 11,7 bilhões, sem considerar tributos. Já o reconhecimento tarifário das perdas na Rede Básica somou cerca de R$ 1,5 bilhão.
Por serem inerentes à operação do sistema elétrico, essas perdas são calculadas pela ANEEL com base em critérios de eficiência e acabam sendo incorporadas às tarifas. Por isso, reduções significativas nesse tipo de perda não são esperadas.
Furtos e fraudes respondem pela outra metade das perdas
A parcela evitável das perdas está nas chamadas perdas não técnicas. Elas são provocadas principalmente por ligações clandestinas, desvios de energia, adulteração de medidores, fraudes, além de erros de leitura, medição e faturamento. São os casos conhecidos popularmente como “gatos”.
Em 2025, essas perdas alcançaram 45 TWh, o equivalente a 7,1% da energia injetada, praticamente o mesmo volume das perdas técnicas.
O impacto financeiro, entretanto, é expressivo. Considerando os níveis efetivamente registrados no país, as perdas não técnicas reais representaram um custo estimado de R$ 11,5 bilhões.
Embora as distribuidoras possam reconhecer parte dessas perdas nas tarifas, esse repasse possui limites definidos pela regulação.
Nos contratos de concessão, a ANEEL estabelece percentuais regulatórios de perdas técnicas e não técnicas durante os processos de revisão tarifária periódica, realizados a cada quatro ou cinco anos.
Esses percentuais são fixados individualmente para cada distribuidora e levam em consideração as características da área de concessão.
Em 2025, as perdas não técnicas reconhecidas pela regulação representaram aproximadamente R$ 7,9 bilhões, o equivalente a 3,1% da receita requerida das distribuidoras e a 9,7% da Parcela B, componente tarifário que remunera os custos operacionais das empresas.
Como o custo real das perdas não técnicas foi estimado em R$ 11,5 bilhões, a diferença entre o prejuízo efetivo e o valor reconhecido regulatoriamente precisa ser absorvida pelas distribuidoras.
Grandes concessionárias concentram as maiores perdas
As perdas não técnicas estão concentradas principalmente nas distribuidoras de maior porte, com mercado superior a 700 GWh por ano.
Entre elas, dois casos se destacam. Light e Amazonas Energia respondem sozinhas por 31,2% de todas as perdas não técnicas do Brasil, embora atendam apenas 5,8% do mercado brasileiro de baixa tensão.
Segundo o levantamento, os níveis dessas perdas variam de acordo com fatores como as condições socioeconômicas das áreas atendidas, aspectos comportamentais da população e a própria eficiência da gestão das concessionárias.
Mesmo com parte das perdas reconhecida pela regulação, as distribuidoras têm forte incentivo econômico para combatê-las.
Isso porque, quando as perdas reais ultrapassam o limite regulatório definido pela ANEEL, a concessionária assume o prejuízo. Por outro lado, se conseguir operar abaixo desse limite, pode capturar ganhos financeiros.
Na prática, isso estimula investimentos em fiscalização, combate às fraudes e melhoria dos processos de medição e faturamento.
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