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Início / Notícias / Segurança Pública / “Falta uma visão coordenada para lidar com os desafios da GD no Brasil”, diz líder da GEAPP

“Falta uma visão coordenada para lidar com os desafios da GD no Brasil”, diz líder da GEAPP

Em entrevista ao Canal Solar, Luisa Valentim defende maior integração entre planejamento e regulação para enfrentar os impactos da expansão da energia solar no país
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  • Foto de Wagner Freire Wagner Freire
  • 23 de junho de 2026, às 11:16
8 min 22 seg de leitura
“Falta uma visão coordenada para lidar com os desafios da GD no Brasil”, diz líder da GEAPP
Luisa Valentim, líder da Global Energy Alliance for People and Planet (GEAPP) no Brasil. Foto; Divulgação

O crescimento acelerado da GD (geração distribuída) solar transformou profundamente o setor elétrico brasileiro nos últimos anos. O que começou como um mercado de nicho após a regulamentação da micro e minigeração distribuída tornou-se um segmento com quase 50 GW instalados e participação cada vez mais relevante na operação do sistema elétrico.

Ao mesmo tempo em que ampliou o protagonismo dos consumidores e impulsionou a transição energética, essa expansão trouxe novos desafios para o planejamento e a operação da rede. O curtailment, a necessidade de armazenamento e a visibilidade da geração distribuída passaram a ocupar o centro do debate regulatório.

Na avaliação de Luisa Valentim, líder da GEAPP (Global Energy Alliance for People and Planet) no Brasil, o país ainda busca um novo ponto de equilíbrio para acomodar essa transformação.

Em entrevista ao Canal Solar, a executiva afirmou que as medidas adotadas para lidar com os cortes de geração renovável ainda ocorrem de forma fragmentada e defendeu uma estratégia mais coordenada para o setor.

A executiva também detalhou os projetos da GEAPP na Amazônia e antecipou uma parceria com a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) para aprimorar a visibilidade da geração distribuída nos modelos de planejamento do sistema elétrico.

Para começar, explique o que é a GEAPP e qual é o trabalho da organização no Brasil.

A Global Energy Alliance for People and Planet é uma organização criada durante a COP de Glasgow por três grandes fundações filantrópicas internacionais: a Rockefeller Foundation, a Bezos Earth Fund e a Mastercard Foundation.

Atuamos em mais de 40 países do Sul Global e temos dois pilares principais. O primeiro é a agenda de acesso à energia e combate à pobreza energética. Mas não apenas acesso. A gente fala muito de energia para desenvolvimento, de como a energia pode gerar atividade econômica e melhorar a vida das pessoas. O segundo pilar é a modernização e digitalização das redes, que chamamos de Redes do Futuro.

No Brasil, temos um acordo de cooperação técnica com o Ministério de Minas e Energia voltado para os sistemas isolados da Amazônia, com foco na universalização do acesso e descarbonização. Estamos implementando projetos-piloto envolvendo sistemas solares, baterias e usos produtivos da energia em comunidades da região.

Qual é a abrangência desses projetos?

Esses primeiros sete pilotos devem impactar cerca de 600 famílias. O mais interessante é que são sete comunidades completamente diferentes. Tem comunidade que tem rede elétrica, mas passa dias sem energia. Tem comunidade que recebeu sistemas solares individuais que funcionam bem para o consumo básico, mas não permitem atividades produtivas. 

Tem outras que já receberam mini-redes, mas enfrentam desafios operacionais. A ideia é justamente aprender com essas experiências e gerar subsídios para o Ministério de Minas e Energia, para a Aneel e para as distribuidoras aperfeiçoarem as políticas públicas.

Recentemente vocês iniciaram um trabalho com a EPE relacionado à geração distribuída. Como surgiu essa iniciativa?

A gente começou a conversar com a EPE [Empresa de Pesquisa Energética) no final do ano passado sobre vários temas ligados às redes do futuro, como armazenamento, integração de recursos distribuídos e novas tecnologias para o sistema elétrico. Durante essas conversas surgiu a questão da geração distribuída. 

Eles já tinham esse projeto em discussão internamente e encontraram na GEAPP uma oportunidade de apoio técnico e de financiamento para alguns estudos. O objetivo é entender melhor como outros países estão lidando com a visibilidade da geração distribuída e avaliar formas de aprimorar os modelos de previsão utilizados no Brasil.

Qual é exatamente o problema que vocês identificaram?

Eu não diria que é um problema de segurança da geração solar. O desafio é conseguir saber exatamente quanto a geração distribuída está produzindo em cada momento do dia. Hoje, a EPE e outros agentes conseguem enxergar principalmente o saldo líquido entre geração e consumo. Mas existe uma parcela muito grande da geração distribuída que acaba ficando invisível para quem faz planejamento e operação.

Imagine um dia de muito sol. Essa geração pode estar produzindo muito mais energia do que no dia anterior e essa informação não necessariamente aparece com precisão para o planejador. Quando estamos falando de quase 50 GW instalados, isso passa a ter impactos importantes na previsão de carga, na operação e até em questões relacionadas à estabilidade da rede.

Existem referências internacionais para esse trabalho?

Ainda estamos começando o benchmark internacional, mas sabemos que existem experiências interessantes na Austrália e na Índia. A Austrália, por exemplo, já desenvolveu iniciativas para coletar dados reais de inversores solares. 

Isso é algo que nos interessa bastante porque pode trazer elementos importantes para o debate regulatório. No futuro, esse tipo de discussão pode até contribuir para definir quais informações os equipamentos precisam disponibilizar para distribuidoras e operadores do sistema.

Você acredita que esse projeto pode trazer benefícios para os consumidores que possuem geração distribuída?

Eu acho que sim, ainda que de forma indireta. Quanto maior for a visibilidade sobre como os recursos distribuídos estão operando e como eles interagem com a rede, maior será a capacidade de identificar problemas específicos e desenvolver soluções mais adequadas.

Às vezes o desafio não é nacional. Ele é regional. Então, ter essa visão mais detalhada pode ajudar a criar soluções mais eficientes para a operação do sistema e para a própria integração da geração distribuída.

Como você avalia a forma como o Brasil está lidando com o aumento do curtailment?

Essa é uma pergunta de muitos milhões de dólares. O que eu vejo é que boa parte das medidas que estão sendo discutidas hoje são respostas a um problema que já aconteceu. Eu entendo que não dá para conviver com os níveis de corte que estamos vendo, mas também sinto que as soluções estão sendo construídas de forma muito reativa.

Quando falamos de curtailment, estamos falando ao mesmo tempo de armazenamento, de remuneração dos agentes, de modernização das distribuidoras, de digitalização das redes, de novos modelos operacionais e de regulação. Eu sinto falta de uma visão mais integrada. Existem vários esforços acontecendo em paralelo, mas eu não vejo uma coisa acontecendo de maneira coordenada no setor elétrico brasileiro.

Qual é sua avaliação sobre o avanço das baterias no Brasil?

As baterias serão parte importante da solução, sem dúvida. Mas eu também acho que existe um risco de tratarmos o armazenamento como uma solução isolada. Quando olho para outros mercados, vejo que o armazenamento normalmente vem acompanhado de novos modelos operacionais, digitalização da rede, sinalização econômica e modernização regulatória. A sensação que eu tenho é que o Brasil avançou muito rápido na expansão das renováveis, mas ainda está um pouco atrasado quando falamos da agenda de flexibilidade do sistema.

A geração distribuída cresceu acima do que o setor imaginava?

Sem dúvida. Eu acompanho esse mercado desde o início. Quando comecei a trabalhar com solar, lá por 2011, a discussão ainda era sobre a regulamentação que depois deu origem à Resolução 482. Hoje estamos falando de quase 50 GW de geração distribuída. É uma transformação impressionante.

Esse crescimento trouxe benefícios enormes para o consumidor e para a transição energética, mas também criou desafios que ninguém conhecia completamente quando esse mercado começou.

A Aneel tem conseguido acompanhar essa velocidade de transformação?

Eu vejo profissionais muito qualificados trabalhando no setor elétrico, mas também vejo limitações inerentes ao modelo regulatório brasileiro. Quando você compara com países como Estados Unidos ou Índia, por exemplo, existe uma possibilidade maior de testar soluções localmente antes de expandi-las. Em muitos casos, a regulação acontece em nível estadual.

No Brasil, estamos falando de um sistema nacional, muito complexo e extremamente regulado. Isso traz vantagens, mas também torna alguns processos mais lentos. Às vezes existe uma expectativa de que o regulador consiga antecipar tendências, mas a velocidade das transformações tem sido muito grande.

O que esperar da abertura do mercado livre para consumidores de menor porte?

Eu acho que ela vai acontecer, porque faz parte de uma agenda importante de modernização do setor.Mas também concordo que não é um momento simples. Os preços estão elevados, o ambiente está mais complexo e atender consumidores menores exige outro tipo de estratégia.

A experiência da geração distribuída mostra isso. As empresas que conseguiram crescer foram aquelas que aprenderam a falar a linguagem do consumidor.Eu acredito que o mercado livre vai seguir um caminho parecido. Vai exigir mais tecnologia, mais simplicidade e uma comunicação muito mais próxima da realidade das pessoas.

Qual é o principal desafio do setor elétrico brasileiro nos próximos anos?

Acho que o desafio é encontrar um novo ponto de equilíbrio.O Brasil foi extremamente bem-sucedido em expandir as renováveis e democratizar o acesso à geração de energia. Agora precisamos construir as ferramentas necessárias para operar esse novo sistema.

Quando falamos de geração distribuída, armazenamento, digitalização, flexibilidade e modernização das redes, estamos falando de peças de um mesmo quebra-cabeça. E, na minha visão, falta justamente essa coordenação. Falta uma visão integrada para lidar com os desafios que a geração distribuída e a transição energética estão trazendo para o setor elétrico brasileiro.

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Wagner Freire
Wagner Freire é jornalista graduado pela FMU. Atuou como repórter no Jornal da Energia, Canal Energia e Agência Estado. Cobre o setor elétrico desde 2011. Possui experiência na cobertura de eventos, como leilões de energia, convenções, palestras, feiras, congressos e seminários.
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