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Início / Artigos / Artigo de Opinião / Alta nos preços dos painéis solares: o que muda para o mercado fotovoltaico?

Alta nos preços dos painéis solares: o que muda para o mercado fotovoltaico?

Entenda os fatores por trás do reajuste de até 30% em 2026 e como se preparar para este novo ciclo
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  • Foto de Bernardo Marangon Bernardo Marangon
  • 16 de abril de 2026, às 09:34
6 min 37 seg de leitura
Alta nos preços dos painéis solares: o que muda para o mercado fotovoltaico?
Foto: Freepik

Por anos, os profissionais do setor fotovoltaico conviveram com uma realidade muito confortável: os preços dos módulos solares em queda constante. Desde 2023, os valores chegaram a recuar cerca de 65%, tornando a energia solar cada vez mais acessível e competitiva.

No entanto, essa trajetória chegou ao fim. O mercado global de módulos fotovoltaicos está passando por um ciclo de reajuste, e os dados mais recentes indicam que os preços podem subir até 30% ao longo de 2026.

Neste artigo, vamos explorar os fatores que estão por trás dessa alta, o que os principais fabricantes chineses estão sinalizando para o mercado, e quais são as implicações práticas para integradores, distribuidores e investidores no Brasil.

Parte 1: O que está causando a alta nos preços?

Para entender o movimento atual, é preciso olhar para a cadeia de produção dos módulos fotovoltaicos. O reajuste não é resultado de um único fator, mas de uma combinação de pressões estruturais e macroeconômicas que se acumularam ao longo de 2025.

1.1 A valorização histórica da prata

Um dos vetores mais relevantes dessa alta foi a valorização recorde da prata, insumo essencial na fabricação das células solares. Em dezembro de 2025, o custo da pasta de prata em células de alta eficiência (US$ 0,0170/W) ultrapassou o custo do próprio wafer de silício (US$ 0,0169/W).

Isso representa um marco histórico na indústria: pela primeira vez, um insumo secundário passou a custar mais do que o componente principal da célula fotovoltaica. Essa inversão pressiona diretamente os custos de produção e torna inevitável o repasse ao longo da cadeia.

Prata sobe 147% em 2025 e pressiona custos da indústria solar global

1.2 Controle de capacidade produtiva pelo governo chinês

Outro fator determinante foi a decisão do governo chinês de implementar um controle mais rígido sobre a capacidade produtiva de segmentos estratégicos, como o polissilício. Nos últimos anos, a superprodução chinesa foi o principal motor da queda de preços. Com a restrição dessa capacidade, o mercado passa a operar com menor excesso de oferta, o que naturalmente eleva os preços e restaura uma disciplina que havia desaparecido do setor.

1.3 Fatores cambiais e macroeconômicos

A desvalorização do real frente ao dólar e as condições macroeconômicas desfavoráveis no Brasil adicionam uma camada extra de pressão. Mesmo que a alta em dólar seja moderada, o impacto em reais pode ser significativamente maior para o mercado doméstico. Esse contexto impõe um desafio adicional para integradores.

Parte 2: O que os fabricantes estão dizendo?

Ao longo dos últimos meses, executivos de algumas das principais fabricantes chinesas se posicionaram sobre o tema. A visão geral é de que o movimento de alta é estrutural, não conjuntural, e que novos reajustes devem acontecer ao longo de 2026.

Um ponto importante que os fabricantes reforçam, porém, é que mesmo com os aumentos esperados, os preços dos módulos fotovoltaicos ainda se manterão bem abaixo dos patamares de 2022. A alta corrige uma distorção que havia tornado o mercado insustentável para os próprios fabricantes, sem necessariamente reverter a competitividade estrutural da fonte solar.

Parte 3: Implicações práticas para o mercado brasileiro

Entendido o contexto, é importante traduzir esses movimentos em ações concretas para os diferentes agentes do setor. Vamos analisar as principais implicações para cada perfil.

1.4 O fim do reembolso do VAT chinês — o fator fiscal que ainda não foi precificado

Além das pressões de insumos e câmbio, há um fator fiscal que ainda não foi completamente absorvido pelo mercado brasileiro: a extinção do reembolso do VAT (Value-Added Tax) pelo governo chinês para as exportações de módulos fotovoltaicos, com vigência a partir de 1º de abril de 2026.

Para entender o impacto, é preciso compreender o mecanismo. O VAT é um imposto sobre valor agregado cobrado na produção de mercadorias na China. Historicamente, o governo chinês concedia às exportadoras um reembolso parcial desse imposto como forma de estimular as vendas ao exterior e manter os produtos competitivos no mercado global.

Para os módulos fotovoltaicos, esse benefício chegou a 13% — foi reduzido para 9% em dezembro de 2024, quando o governo chinês já deu o primeiro sinal de mudança de postura, e agora será completamente eliminado a partir de 1º de abril de 2026.

Na prática, os fabricantes deixarão de receber esse crédito fiscal, e a tendência é que o custo seja repassado diretamente ao preço de exportação. O impacto esperado é de aproximadamente 9% adicionais no preço FOB dos módulos. Somado às altas de insumos já em curso, executivos do setor estimam uma alta total no kit solar da ordem de 35% em relação aos preços praticados no fim de 2025.

Para as baterias, a retirada do benefício será gradual: redução de 9% para 6% entre abril e dezembro de 2026, com eliminação total a partir de 1º de janeiro de 2027. O mercado de armazenamento terá um cronograma de ajuste ligeiramente mais alongado, mas igualmente inevitável.

O contexto brasileiro torna esse fator especialmente crítico: mais de 90% dos módulos fotovoltaicos utilizados no país são importados da China. Diferentemente de mercados com maior capacidade de produção local, o Brasil tem praticamente nenhuma proteção estrutural contra uma alta nos preços de exportação chineses. Cada ponto percentual de reajuste no preço FOB se traduz diretamente no custo dos projetos aqui.

Um ponto de atenção imediato: a extinção do VAT cria uma janela de antecipação de demanda. Equipamentos embarcados antes de 1º de abril ainda se beneficiam do incentivo atual de 9%. Isso tende a gerar uma corrida por antecipar embarques nas próximas semanas, o que pode pressionar a disponibilidade de estoque e criar volatilidade de preços no curto prazo — inclusive no mercado doméstico brasileiro.

1. Revisão de propostas em aberto: Propostas elaboradas com base nos preços de 2025 podem ter a margem comprometida. É fundamental revisar cada proposta em aberto e, se necessário, negociar reajustes com os clientes ou ajustar o escopo do projeto.

2. Uso da alta como gatilho comercial: A perspectiva de novos aumentos pode ser utilizada como argumento para acelerar a tomada de decisão de clientes indecisos. Quem fecha agora ainda consegue garantir preços mais favoráveis do que quem aguardar o segundo semestre.

3. Renegociação com fornecedores: Integradores com volume expressivo de projetos devem buscar condições de travamento de preços junto a distribuidores e fabricantes. Contratos de fornecimento com preço fixo por um período determinado podem ser uma proteção importante neste cenário.

Para distribuidores

Distribuidores que mantêm estoque têm uma janela de oportunidade relevante. A diferença entre o preço de custo atual e o preço de reposição futuro representa uma margem adicional que, se bem gerenciada, pode ser um diferencial competitivo nos próximos meses.

Para investidores e desenvolvedores de projetos

Projetos de geração centralizada que ainda estão em fase de estruturação devem recalibrar seus modelos financeiros. O aumento no custo dos módulos afeta diretamente o CAPEX e, por consequência, o retorno sobre o investimento.

Conclusão

O ciclo de queda constante nos preços dos módulos fotovoltaicos chegou ao fim. O mercado está entrando em uma nova fase, marcada por maior disciplina de preços, pressão nos insumos e restrição de oferta. Isso não significa o fim da competitividade da energia solar — a fonte ainda é, e continuará sendo, uma das mais atrativas do ponto de vista econômico.

Mas exige que os profissionais do setor adaptem suas operações, revisem suas premissas financeiras e se posicionem estrategicamente para capturar as oportunidades que esse novo cenário também vai gerar.

As opiniões e informações expressas são de exclusiva responsabilidade do autor e não obrigatoriamente representam a posição oficial do Canal Solar.

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Foto de Bernardo Marangon
Bernardo Marangon
Sócio do Grupo Canal Solar e professor da plataforma há 4 anos, já formou mais de 3 mil alunos em temas como análise de investimentos em GD, mercado livre e armazenamento de energia. É graduado e mestre em Engenharia Elétrica pela UNIFEI. Atuou na EDP Brasil entre 2010 e 2015 nas áreas de Operação e Manutenção de hidrelétricas e Novos Negócios, e foi Diretor de Geração no Grupo Léros entre 2016 e 2018. Hoje é sócio-administrador da Exata Energia, do Grupo Prime Energy, liderando as áreas de consultoria financeira, comercialização e investimentos em geração, além de estruturar uma nova frente de comercialização de créditos via GD compartilhada.
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