A discussão sobre geração distribuída na América Latina entrou em uma nova fase. Durante o ADELATAM 2026, realizado em Buenos Aires nos dias 20 e 21 de maio de 2026, ficou evidente que o debate regional deixou de ser apenas sobre conexão de novos sistemas solares à rede. O tema central agora é outro: como transformar milhões de consumidores em participantes ativos de um sistema elétrico cada vez mais descentralizado, digital e bidirecional.
Essa foi justamente a provocação do painel que tive a oportunidade de moderar, “De la conexión a la gestión: estrategias para la integración sostenible de la Generación Distribuida”, realizado em 21 de maio, com foco na integração sustentável da geração distribuída, nos impactos sobre as redes de distribuição e no novo papel dos consumidores-produtores.
A própria agenda do evento resumiu o desafio com precisão: a expansão da geração solar distribuída está invertendo fluxos de potência e exige redes capazes de operar com segurança, estabilidade financeira e sinais adequados de mercado.
É nesse contexto que a assinatura solar deve ser analisada. Mais do que um produto comercial, ela representa uma das formas mais relevantes de democratização do acesso à energia renovável na América Latina.
O modelo permite que consumidores sem telhado próprio, sem capital para investimento inicial ou sem apetite para assumir a gestão técnica de um sistema fotovoltaico possam acessar os benefícios da geração solar por meio de créditos, cotas, geração compartilhada ou autoconsumo remoto. No Brasil, esse mercado já tem escala. Na América Latina, ainda é uma promessa assimétrica.
O que chamamos de assinatura solar
A expressão “assinatura solar” não aparece, de forma padronizada, nas bases regulatórias oficiais da maior parte dos países latino-americanos. No Brasil, ela é uma denominação comercial aplicada principalmente a modelos enquadrados no Sistema de Compensação de Energia Elétrica, instituído pela Lei nº 14.300/2022, que criou o marco legal da micro e minigeração distribuída.
Na prática, a assinatura solar costuma se apoiar em três modalidades regulatórias brasileiras: autoconsumo remoto, geração compartilhada e, em menor escala, condomínios ou empreendimentos de múltiplas unidades consumidoras. Por isso, para dimensionar o mercado com rigor, é necessário usar essas modalidades como aproximação técnica, e não tratar “assinatura solar” como uma categoria estatística oficial.
Essa distinção é importante. O mercado não deve ser medido apenas pelo número de empresas que oferecem planos digitais de desconto na conta de luz, mas pela quantidade de unidades consumidoras que recebem créditos de energia oriundos de usinas remotas ou compartilhadas.
O tamanho do mercado brasileiro
O Brasil é, hoje, o principal mercado latino-americano de geração distribuída solar e o ambiente mais desenvolvido para a assinatura solar. Segundo a EPE, com dados consolidados de 2025, a micro e minigeração distribuída brasileira alcançou 45 GW de capacidade instalada, atendeu 7,2 milhões de consumidores e gerou aproximadamente 54.483 GWh no ano.
Quando se observa o recorte mais próximo da assinatura solar, os dados da ANEEL indicam que o autoconsumo remoto reúne cerca de 2,76 milhões de unidades consumidoras recebendo créditos, com aproximadamente 11,37 GW de potência instalada. A geração compartilhada soma cerca de 1,55 milhão de unidades consumidoras, com aproximadamente 2,74 GW.
Somadas, essas duas modalidades representam mais de 4,31 milhões de unidades consumidoras e cerca de 14,1 GW de potência — uma dimensão que coloca a assinatura solar como um dos maiores mercados de energia de varejo do país.
Em termos relativos, isso significa que os modelos associados à assinatura solar já representam algo próximo de 60% dos consumidores atendidos pela micro e minigeração distribuída brasileira, considerando a base de 7,2 milhões de consumidores atendidos pela MMGD em 2025. Em potência, o recorte de assinatura, autoconsumo remoto e geração compartilhada corresponde a aproximadamente 31% da capacidade instalada total da MMGD brasileira.
Esses números mostram uma mudança estrutural. A geração distribuída deixou de ser apenas o mercado do proprietário de telhado. A nova fronteira está no consumidor que quer acessar energia solar sem comprar um sistema fotovoltaico.
A participação do Brasil na América Latina
A América Latina não possui, até o momento, uma base oficial regional padronizada para “assinatura solar”. Cada país classifica seus modelos de forma distinta: geração distribuída para autoconsumo, compensação de excedentes, comunidades energéticas, geração coletiva, net billing, autoprodução ou geração compartilhada.
Ainda assim, os dados disponíveis permitem uma conclusão clara: o Brasil concentra a maior escala regional em geração distribuída solar e, por consequência, lidera o mercado latino-americano de assinatura solar.
A Agência Internacional de Energia observa que, na América Latina, tarifas finais mais elevadas têm impulsionado a expansão da solar distribuída. O mesmo relatório destaca, porém, que a região começa a enfrentar desafios de rede, incluindo riscos de restrição de geração em mercados como Brasil e Chile.
A diferença brasileira está na escala. Enquanto muitos países latino-americanos ainda estruturam seus marcos de autoconsumo, comunidades energéticas ou compensação de excedentes, o Brasil já transformou a geração distribuída em um mercado de massa, com milhões de unidades consumidoras, milhares de municípios atendidos, grandes plataformas digitais e crescente participação de investidores institucionais.
Chile, Colômbia, México e Argentina: mercados promissores, mas em estágios distintos
O Chile possui um ambiente técnico maduro para renováveis e regulação consolidada de geração distribuída para autoconsumo. A Superintendência de Eletricidade e Combustíveis define a geração distribuída para autoconsumo, conhecida como net billing, como o direito de usuários venderem excedentes diretamente à distribuidora a preço regulado.
O modelo chileno, porém, ainda é mais orientado ao autoconsumo individual e à compensação de excedentes do que a plataformas massificadas de assinatura solar. A oportunidade existe, mas dependerá da evolução de modelos coletivos, armazenamento e gestão ativa das redes.
Na Colômbia, a agenda mais relevante está nas comunidades energéticas. A CREG aprovou, em 2025, regulação para integrar comunidades energéticas ao sistema elétrico, habilitando novos esquemas de autogeração e geração agrupada. O Ministério de Minas e Energia colombiano afirmou que a medida poderia beneficiar mais de 500 mil famílias, abrindo espaço para modelos coletivos de acesso à energia renovável.
A Argentina possui a Lei nº 27.424, voltada à geração distribuída renovável integrada à rede, com relatórios oficiais de acompanhamento da implementação. O país tem excelente recurso solar, especialmente no noroeste, mas ainda enfrenta barreiras macroeconômicas, regulatórias e de financiamento que dificultam a massificação de modelos de assinatura.
O México, por sua vez, tem escala potencial, base relevante de consumidores e forte recurso solar, mas o avanço de modelos similares à assinatura solar depende de previsibilidade regulatória, clareza sobre comercialização e maior abertura para estruturas privadas de varejo energético.
O dado mais importante: assinatura solar é mercado de consumo, não apenas de geração
A assinatura solar precisa ser analisada menos como uma extensão do mercado fotovoltaico tradicional e mais como um mercado de consumo de energia.
No Brasil, o sinal já é evidente. Se mais de 4 milhões de unidades consumidoras podem ser associadas às modalidades remotas ou compartilhadas da GD, o produto deixa de ser nicho. Ele passa a disputar orçamento mensal, confiança do consumidor, qualidade de atendimento, crédito, retenção, inadimplência, churn e reputação.
A próxima fase será menos romântica e mais sofisticada. A assinatura solar exigirá:
- gestão precisa de créditos;
- alocação eficiente de energia;
- controle de inadimplência;
- contratos mais transparentes;
- integração com distribuidoras;
- uso intensivo de dados;
- e maior governança sobre promessas comerciais.
O consumidor não compra “energia solar” de forma abstrata. Ele compra redução de custo, previsibilidade, simplicidade e confiança.
O desafio das distribuidoras
O ADELATAM 2026 deixou uma mensagem clara: a geração distribuída só será sustentável se a região deixar de tratá-la como um fenômeno periférico e passar a integrá-la à operação real das redes.
A agenda do evento colocou no centro temas como digitalização, medição inteligente, automação, resiliência, qualidade de serviço e evolução das distribuidoras para um papel mais próximo ao de operadoras ativas do sistema de distribuição.
Isso é decisivo para a assinatura solar. Quanto maior o número de consumidores vinculados a usinas remotas, maior a necessidade de previsibilidade operacional, visibilidade de baixa tensão, gestão de inversão de fluxo, sinais locacionais e coordenação entre agentes. A assinatura solar não cresce no vazio. Ela cresce sobre a rede de distribuição.
Projeções: o mercado ainda tem espaço relevante
A EPE projeta, no cenário de referência do PDE 2035, que a micro e minigeração distribuída brasileira poderá alcançar 78,1 GW até 2035, com cerca de 9,5 milhões de consumidores e contribuição de 12,1 GW médios de geração elétrica. Em cenários alternativos, a capacidade instalada de MMGD pode variar entre 61,4 GW e 97,8 GW.
O dado mais estratégico é que a geração distribuída já representa cerca de 5,6% da eletricidade gerada no Brasil e aproximadamente 13% do consumo cativo nacional, segundo MME e EPE.
Isso significa que a assinatura solar, embora seja frequentemente vendida como produto de economia na conta de luz, faz parte de uma transformação muito maior: a redistribuição do poder econômico no setor elétrico, com consumidores, plataformas digitais, investidores e distribuidoras disputando a interface final com o cliente.
Conclusão
A América Latina tem sol, consumidores pressionados por tarifas, necessidade de ampliar o acesso à energia renovável e redes que precisarão se modernizar rapidamente. Mas apenas alguns países conseguiram transformar essas condições em mercado.
O Brasil saiu na frente. Tem escala, regulação, empresas, plataformas, investidores, consumidores e histórico operacional. Por isso, quando se fala em assinatura solar na América Latina, o Brasil não é apenas um caso relevante. É o laboratório mais avançado da região.
A próxima etapa será separar crescimento de maturidade. Crescer significou conectar usinas e conquistar clientes. Amadurecer significará entregar economia com segurança, governança, transparência contratual e integração eficiente às redes.
A assinatura solar será uma das portas de entrada mais importantes da população latino-americana na inovação energética. Mas seu sucesso dependerá menos do discurso comercial e mais da capacidade de transformar geração distribuída em gestão distribuída, exatamente o ponto central que emergiu dos debates do ADELATAM 2026, em Buenos Aires.
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