Com a colaboração da jornalista Ericka Araújo
Um hortifrúti localizado em Curitiba (PR) reduziu em cerca de 80% sua conta de energia após instalar um BESS de 100 kW de potência e 215 kWh de capacidade de armazenamento, integrado à geração fotovoltaica do estabelecimento.
A fatura mensal, que girava em torno de R$ 30 mil antes da entrada dos dois sistemas, passou para aproximadamente R$ 2,8 mil a R$ 3,5 mil, segundo a Sunred, fornecedora do equipamento.
Inicialmente dimensionado para deslocar o consumo do horário de ponta, o BESS ganhou uma nova estratégia operacional após o comissionamento. O acompanhamento da curva de carga revelou que o hortifrúti mantinha consumo regular próximo de 60 kW, mas registrava picos entre 90 kW e 100 kW em determinados momentos do dia.
Com os dados, a equipe identificou a possibilidade de utilizar as baterias também para peak shaving e viabilizar a migração do estabelecimento ao Grupo B optante.
“Não é só vender produto. Você precisa agregar uma solução”, comentou Genivaldo Carvalho gerente da Sunred durante participação no Papo Solar.
BESS de 100 kW e 215 kWh
O sistema instalado no estabelecimento possui potência de 100 kW, capacidade de armazenamento de 215 kWh e conexão trifásica em 380 V.
“A gente comercializou um BESS de 100 kW de potência, um sistema trifásico de 380 V, com 215 kWh de armazenamento”, detalhou.
A Sunred participou do projeto desde o dimensionamento até o comissionamento e o início da operação. A instalação foi realizada em parceria com uma empresa integradora de Curitiba.
O equipamento foi configurado para realizar o deslocamento de carga, armazenando energia para utilização no horário de ponta, período em que a tarifa paga pelos consumidores do Grupo A é mais elevada.
Nas primeiras operações, o BESS passou a suprir parte do consumo nesse intervalo. Durante o dia, o sistema fotovoltaico já atendia uma parcela da demanda do estabelecimento.
“Nas primeiras operações, atendeu muito bem. Fez o deslocamento de energia no horário de ponta, e o cliente já não pagou aquela energia mais cara. Com o fotovoltaico, também abateu boa parte do consumo durante o dia”, relatou.
Sistema fotovoltaico possui acoplamento em corrente contínua
O projeto utiliza acoplamento em corrente contínua entre a geração fotovoltaica e o sistema de armazenamento. Essa configuração permite direcionar a energia solar ao atendimento do consumo e ao carregamento das baterias.
O BESS também possui capacidade de formação de rede. Em uma interrupção no fornecimento da distribuidora, o equipamento pode criar uma microrrede local para manter o sistema em funcionamento.
Nessa condição, a geração fotovoltaica pode continuar operando para atender ao autoconsumo e alimentar o sistema de armazenamento, mesmo sem a presença da rede elétrica convencional.
A funcionalidade acrescenta uma segunda finalidade ao projeto: além de reduzir os gastos com energia, o sistema pode fornecer backup para cargas do estabelecimento.
Essa aplicação é relevante para o hortifrúti por causa da presença de equipamentos como câmaras frias, sistemas de refrigeração, aparelhos de ar-condicionado e motores. Interrupções prolongadas podem afetar a conservação dos alimentos e a operação comercial.
A transcrição não detalha quais cargas foram classificadas como prioritárias nem por quanto tempo o sistema consegue mantê-las em funcionamento durante uma interrupção.
Monitoramento revelou picos de consumo
Quando o BESS foi instalado, o hortifrúti estava enquadrado no Grupo A, participava do Mercado Livre de Energia e possuía demanda contratada de 120 kW.
Após o início da operação, a equipe responsável teve acesso mais detalhado ao perfil de consumo. Os dados mostraram uma carga relativamente constante, próxima de 60 kW, durante a maior parte do período analisado.
Em momentos pontuais, entretanto, a demanda subia para uma faixa entre 90 kW e 100 kW. Segundo a avaliação apresentada no programa, esses picos podem estar relacionados à partida de motores e à entrada em operação de equipamentos de refrigeração, câmaras frias e sistemas de climatização.
“Ele tinha um consumo linear durante o dia, que não ultrapassava os 60 kW. Porém, em alguns momentos, tinha picos de consumo que chegavam a 90 ou 100 kW”, explicou o representante da Sunred”, disse.
Embora o consumo regular estivesse abaixo da demanda contratada, os picos obrigavam o estabelecimento a manter uma estrutura capaz de atender aos momentos de maior solicitação de potência.
A análise mostrou que os 100 kW disponíveis no sistema de armazenamento poderiam ser utilizados para limitar esses picos e reduzir a demanda solicitada da rede.
Operação passou a incluir peak shaving
Com a identificação dos picos, a estratégia deixou de se concentrar apenas no deslocamento do consumo no horário de ponta. O BESS passou a ser considerado também para peak shaving.
Nesse modo de operação, a bateria fornece parte da potência quando o consumo ultrapassa determinado limite. Com isso, o estabelecimento reduz a potência retirada da rede nos momentos de pico.
“A gente mudou a estratégia de operação do BESS. Focou em fazer o peak shaving, e não somente o horário de ponta”, afirmou.
A potência de 100 kW do equipamento é suficiente, segundo a empresa, para atender aos picos identificados no hortifrúti. A nova configuração também abriu caminho para uma mudança no enquadramento tarifário do consumidor.
Projeto prevê migração ao Grupo B optante
A empresa de engenharia responsável pelo projeto iniciou junto à distribuidora o processo de migração do hortifrúti para o Grupo B optante.
Nesse enquadramento, o consumidor deixa de pagar pela demanda contratada e pela energia diferenciada no horário de ponta. O estabelecimento também deverá deixar o Mercado Livre e retornar ao ambiente de contratação regulada.
A estratégia considera uma disponibilidade de até 75 kW fornecida pela rede. Quando a demanda do hortifrúti ultrapassar esse patamar, o BESS será acionado para atender à parcela excedente.
Dessa forma, o consumo regular, próximo de 60 kW, permaneceria dentro do limite disponível. Os picos entre 90 kW e 100 kW seriam complementados pelo sistema de armazenamento.
Além do peak shaving, o BESS continuará realizando o gerenciamento do autoconsumo fotovoltaico e oferecendo backup em situações de interrupção no fornecimento.
O processo de migração ainda estava em andamento quando o case foi apresentado no Papo Solar. Após sua conclusão, a expectativa da empresa é que a atuação conjunta da geração solar e do armazenamento abata entre 80% e 90% do consumo de energia do estabelecimento.
Economia chegou a aproximadamente 80%
Antes da instalação da geração fotovoltaica e do BESS, a conta mensal do hortifrúti girava em torno de R$ 30 mil.
Com o consumidor ainda no Grupo A e o sistema de armazenamento operando principalmente para deslocar o consumo do horário de ponta, a fatura caiu para uma faixa entre R$ 2,8 mil e R$ 3,5 mil.
A redução observada até essa etapa corresponde a aproximadamente 30% a 33%. A expectativa de abatimento entre 80% e 90% está relacionada à próxima configuração operacional, após a migração para o Grupo B optante, e considera a atuação conjunta do sistema fotovoltaico e das baterias.
“Foi um projeto de engenharia misturado com consultoria e eficiência energética”, resumiu.
Assista ao Papo Solar completo
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