A reunião mensal do CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico), marcada para a tarde desta quarta-feira (10), tornou-se um dos eventos mais aguardados do ano pelo mercado de energia.
Na pauta está a definição dos parâmetros de aversão ao risco – o chamado CVaR – que passarão a orientar os modelos computacionais responsáveis pela operação do SIN (Sistema Interligado Nacional) e pela formação do PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) a partir de 2027.
O tema ganhou alta relevância em um contexto de preços elevados, dificuldades enfrentadas por comercializadoras e crescente disputa sobre o equilíbrio entre segurança energética e modicidade tarifária.
A decisão estava inicialmente prevista para maio, mas acabou adiada para que o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e a CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) realizassem estudos adicionais considerando os efeitos do LRCAP (Leilão de Reserva de Capacidade), realizado em março.
A contratação de aproximadamente 20 GW de potência passou a ser considerada um elemento novo no debate, por ampliar os recursos disponíveis para garantir o suprimento do sistema. Atualmente, está em vigor o parâmetro CVaR 15/40, adotado desde janeiro de 2025.
Na prática, ele atribui peso de 40% aos 15% piores cenários hidrológicos, tornando a operação mais conservadora e induzindo o despacho antecipado de usinas termelétricas para preservar os reservatórios.
A discussão agora gira em torno da possibilidade de flexibilizar esse critério, reduzindo a aversão ao risco sem comprometer a segurança do abastecimento.
Debate opõe custo e segurança
O CVaR influencia diretamente o Custo Marginal de Operação (CMO) e, consequentemente, o PLD, referência para as liquidações do mercado de curto prazo é importante sinalizador dos preços futuros de energia.
Quanto mais conservador o parâmetro, mais frequente tende a ser o acionamento preventivo das termelétricas, elevando os custos operacionais.
Por outro lado, critérios menos avessos ao risco reduzem o despacho térmico imediato, mas podem aumentar a exposição do sistema caso ocorram cenários hidrológicos adversos.
Por isso, a decisão do CMSE é vista como um ponto de inflexão para agentes de geração, comercialização e consumidores livres, especialmente em um momento de forte tensão no mercado.
Comerc defende CVaR 15/30
Entre as contribuições apresentadas ao debate está o estudo elaborado pela Comerc, que conclui que o atual processo de definição da aversão ao risco ainda apresenta limitações metodológicas relevantes.
Segundo a comercializadora, a modelagem atualmente utilizada sofre com a utilização de um modelo NEWAVE que não converge adequadamente, o uso de cenários extremos com baixa capacidade discriminatória, ausência de critérios quantitativos objetivos para a tomada de decisão e falta de transparência quanto às premissas consideradas nos estudos técnicos.
A empresa também critica a restrição das análises à família CVaR (15,x) e a ausência de avaliações envolvendo toda a cadeia de modelos de otimização do setor. Outro ponto questionado é o uso do VMinOp (Volume Mínimo Operativo) como reforço adicional à segurança energética.
Para a Comerc, trata-se de um instrumento concebido para refletir restrições estruturais e operativas, cujo emprego como mecanismo adicional de aversão ao risco introduz distorções e pode elevar custos sem benefícios proporcionais.
Diante desse diagnóstico, a empresa recomenda a adoção do CVaR 15/30 como alternativa principal, por considerar que o parâmetro preserva os critérios de segurança estabelecidos, sobretudo nos meses críticos de recuperação dos reservatórios, oferecendo melhor relação entre custo e risco.
Como opção subsidiária, sugere o CVaR 15/35, também avaliado como mais eficiente que o modelo atualmente vigente.
A Comerc defende ainda uma revisão estrutural da metodologia nos próximos ciclos, incluindo aprimoramentos na construção dos cenários hidrológicos, maior previsibilidade sobre as premissas utilizadas e a incorporação dos impactos das mudanças do CVaR nos resultados do modelo DESSEM.
Manifesto reforçou pressão
Nos dias que antecederam a reunião do CMSE, sete associações do setor elétrico divulgaram o manifesto “Segurança energética na medida certa”, aumentando a pressão por uma flexibilização dos critérios atualmente adotados.
O documento foi assinado pelas seguinte entidades:
- ABEEólica (Associação Brasileira de Energia Eólica);
- FNCE (Frente Nacional dos Consumidores de Energia);
- Cogen (Associação da Indústria de Cogeração de Energia);
- Anace (Associação Nacional dos Consumidores de Energia);
- Abraceel (Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia);
- Abrace (Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia e Consumidores Livres);
- Abiape (Associação Brasileira dos Investidores em Autoprodução de Energia Elétrica).
As entidades defendem a adoção do CVaR 15/30 sob o argumento de que o parâmetro proporcionaria redução de aproximadamente R$ 85/MWh no CMO e impacto tarifário negativo de 1,74%, preservando a segurança do abastecimento mesmo diante de cenários hidrológicos severos.
Segundo o manifesto, manter o atual CVaR 15/40 significaria impor um custo adicional da ordem de R$ 3 bilhões aos consumidores para obter um ganho marginal de apenas 0,4 ponto percentual no armazenamento dos reservatórios.
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