Os efeitos de um El Niño de forte intensidade podem alcançar diferentes pontos do sistema energético brasileiro, da disponibilidade de água para as hidrelétricas à produção de biomassa e ao aumento do consumo provocado por ondas de calor.
O alerta foi feito pelo professor Gilberto Jannuzzi, da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp e pesquisador sênior do NIPE (Núcleo de Planejamento Energético) em entrevista à TV Unicamp.
No mesmo programa, o meteorologista Bruno Bainy, do CEPAGRI/Unicamp (Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura) explicou a formação do El Niño, as características esperadas para o próximo período e os limites das previsões sobre seus impactos.
Sistema exposto ao clima
Para Jannuzzi, a questão central está na dependência que o sistema energético brasileiro mantém das condições climáticas. A matriz elétrica utiliza fortemente a geração hidrelétrica, que depende de chuvas, evaporação e disponibilidade hídrica. Ao mesmo tempo, a expansão das fontes eólica e solar acrescenta outras formas de variabilidade relacionadas ao clima.
O professor chama atenção ainda para uma dependência menos lembrada. A biomassa também tem peso na matriz energética brasileira e pode ser afetada por alterações no regime de chuvas. Isso significa que os efeitos climáticos não ficam restritos à eletricidade, podendo alcançar igualmente a produção de etanol e biodiesel.
Do lado da demanda, a combinação entre El Niño, aquecimento global e ondas de calor pode produzir outro efeito. Temperaturas mais elevadas aumentam a necessidade de condicionamento ambiental e, consequentemente, pressionam o consumo de energia.
“Nós ainda vamos passar um período com bastante sofrimento”, disse Jannuzzi, ao responder se o país está preparado para enfrentar as mudanças climáticas no setor energético.
Resiliência vira prioridade
O pesquisador defende que a transição energética seja acompanhada por uma estratégia mais ampla de resiliência. Para ele, simplesmente substituir combustíveis fósseis por fontes que também estão sujeitas às condições climáticas não resolve, por si só, a vulnerabilidade do sistema.
“Criar uma dependência extrema de outras fontes que também vão depender de mudanças do clima […] não aumenta a nossa resiliência”, afirmou Jannuzzi.
Na sua avaliação, o planejamento precisa considerar conjuntamente as diferentes fontes disponíveis e ampliar a capacidade de armazenar, trocar e consumir energia com maior flexibilidade.
Nesse cenário, o armazenamento aparece como uma das alternativas. O professor cita as baterias e lembra que os grandes reservatórios hidrelétricos desempenharam historicamente uma função semelhante, ao permitir armazenar energia na forma de água.
Para ele, o desenvolvimento de novas tecnologias de armazenamento pode representar uma oportunidade para o país, inclusive porque o Brasil possui reservas minerais relacionadas à transição energética.
A flexibilidade também deve alcançar o consumo. Jannuzzi menciona veículos elétricos que podem ser carregados em horários de menor demanda e, em determinadas condições, funcionar como fonte de eletricidade para as residências. Eficiência energética, materiais adequados para edificações, ventilação e redução da retenção de calor nas cidades fazem parte da mesma estratégia.
Infraestrutura sob pressão
Outro ponto levantado pelo pesquisador é a necessidade de preparar a infraestrutura energética para condições climáticas diferentes daquelas para as quais foi originalmente projetada.
Temperaturas elevadas, inundações e ventos fortes podem pressionar redes de transmissão e distribuição, além de outras estruturas do sistema energético.
Jannuzzi cita também a possibilidade de adaptar infraestruturas existentes para transportar diferentes combustíveis, como biometano e hidrogênio, e afirma que soluções como redes subterrâneas ou mudanças de materiais podem elevar custos, mas também aumentar a segurança e a resiliência. “O problema não está só num lugar”, resume, defendendo uma abordagem integrada.
O professor também relativiza o risco imediato de falta de energia. Segundo ele, o sistema brasileiro está, de certo modo, preparado para preservar o fornecimento, mas os consumidores estão menos preparados para lidar com períodos de maior preço da energia e, principalmente, com extremos térmicos.
Como nasce o El Niño
Na entrevista à TV Unicamp, Bruno Bainy explica que o El Niño é um fenômeno de variabilidade climática que provoca alterações temporárias nos padrões de temperatura e precipitação.
Ele se forma no Pacífico Equatorial a partir do aquecimento anormal das águas, associado à redução ou inversão dos ventos alísios. A mudança altera a circulação atmosférica e repercute em diferentes regiões do planeta.
O meteorologista explica que “Super El Niño” é uma denominação popular para um evento classificado tecnicamente como muito forte.
Segundo as previsões, havia mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno atingisse essa categoria entre outubro e dezembro e permanecesse muito forte na transição para o verão.
As projeções citadas por Bainy apontavam para uma anomalia de temperatura de 2,5°C no Pacífico monitorado, acima dos cerca de 2,3°C a 2,4°C registrados nos El Niños mais intensos desde a década de 1950. O especialista, porém, faz uma ressalva importante: a intensidade do fenômeno não determina necessariamente a dimensão de seus impactos.
Chuva desigual no país
Para o Brasil, o padrão esperado é de chuvas abaixo da média na faixa equatorial, incluindo boa parte da Amazônia e o norte do Nordeste, enquanto o Sul tende a registrar precipitações acima da média, com possibilidade de eventos de chuva intensa. Também são esperadas temperaturas acima da média em grande parte do Brasil tropical.
Bainy ressalta que as previsões não permitem antecipar com precisão todos os eventos. Modelos sazonais indicam tendências para meses ou trimestres, enquanto previsões subsazonais conseguem detalhar algumas semanas e a previsão meteorológica oferece maior precisão para períodos de poucos dias.
A preparação, portanto, pode começar antes que os eventos extremos sejam identificados com precisão
O especialista cita revisão de planos de contingência, sistemas de drenagem, áreas de risco e medidas para períodos de calor intenso. Para ele, o objetivo é conscientização e preparo, e não a criação de pânico.
Bainy também diferencia o El Niño das mudanças climáticas. Enquanto o primeiro é uma perturbação temporária, o aquecimento global representa uma alteração duradoura do equilíbrio climático. Segundo ele, os dois fenômenos podem atuar conjuntamente, favorecendo eventos de maior intensidade e ampliando seus impactos.
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