O Brasil ainda tem espaço para ampliar sua capacidade de geração hidrelétrica por meio de empreendimentos de pequeno e médio porte, segundo levantamento da ABRAPCH (Associação Brasileira de PCHs e CGHs), elaborado a partir de dados do Sistema de Informações de Geração da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica).
Segundo o órgão regulador, há 16,9 GW em projetos que já iniciaram estudos ambientais. Caso avancem, esses empreendimentos poderão representar cerca de R$ 169 bilhões em investimentos e mais de 1 milhão de empregos durante a implantação.
O levantamento parte de um cenário em que o país possui aproximadamente 107 GW de capacidade hidrelétrica instalada, mas ainda mantém cerca de 40% de seu potencial hídrico sem aproveitamento.
O recorte considera PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) e usinas hidrelétricas de até 50 MW. Para estimar os empregos, a associação utilizou a referência de 60 postos de trabalho por megawatt (MW) instalado.
Potencial espalhado pelo país
A distribuição regional dos projetos mostra que a possibilidade de expansão não está concentrada em uma única área. O Centro-Oeste reúne 5.631 MW inventariados, o equivalente a aproximadamente R$ 56,31 bilhões em investimentos potenciais e 338 mil empregos.
O Sul aparece com 4.877 MW, R$ 48,77 bilhões e cerca de 293 mil postos de trabalho, enquanto o Sudeste soma quase 4.370 MW, com R$ 43,70 bilhões e mais de 262 mil empregos.
Norte e Nordeste completam o levantamento, respectivamente, com 1.230 MW e aproximadamente 787 MW. Os potenciais associados são de R$ 12,30 bilhões e R$ 7,87 bilhões em investimentos, além de cerca de 74 mil e 47 mil empregos.
Entre os estados, Minas Gerais concentra 3.039 MW distribuídos em 221 eixos, seguido por Goiás, com 2.795 MW em 164 eixos; Mato Grosso, com 2.205 MW em 141 eixos; e Paraná, com 1.883 MW em 157 eixos. Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul também aparecem entre os destaques.
Investimento depende de previsibilidade
Para a ABRAPCH, transformar esse inventário em novos empreendimentos depende de condições capazes de sustentar investimentos de longo prazo. O vice-presidente do Conselho da entidade, Epitácio Barzotto, aponta segurança jurídica, previsibilidade ambiental e acesso ao financiamento como fatores determinantes.
Segundo ele, o caráter intensivo em capital e o horizonte de décadas dos projetos tornam particularmente relevantes questões como estabilidade das regras, duração dos processos ambientais e custo do crédito.
“Investir em geração de energia exige planejamento, capital intensivo e uma visão de décadas. Por isso, mudanças de regras no decorrer dos projetos, processos ambientais excessivamente longos, dificuldade de acesso ao crédito e taxas de juros elevadas acabam afastando justamente quem está disposto a investir no desenvolvimento energético do país”, afirma.
A associação defende, nesse contexto, maior previsibilidade para os empreendedores. “O investidor não busca ausência de regras. Busca regras claras, estáveis e previsíveis. Em vez de afastar quem deseja produzir e investir, o Brasil precisa criar condições para que esses investidores permaneçam acreditando no país”, acrescenta Barzotto.
Perspectiva global
A entidade também coloca o potencial brasileiro em perspectiva internacional. O país teria aproximadamente 1.600 hidrelétricas de todos os portes em operação, enquanto a China possui 446 GW instalados e cerca de 45 mil usinas, além de mais de 300 GW em projetos em construção, incluindo reversíveis. Nos Estados Unidos são 103 GW e aproximadamente 2.250 empreendimentos.
A comparação inclui países menores como a Noruega, que possui 1.791 hidrelétricas, responsáveis por cerca de 88% de sua geração anual de eletricidade. A Áustria, com território de dimensão semelhante ao Paraná, conta com 3.260 usinas e mais de 15 GW, enquanto a Alemanha tem aproximadamente 9.400 hidrelétricas, sobretudo de pequeno porte.
Para o presidente da ABRAPCH, Lucas Pimentel, esse cenário reforça a existência de espaço para novos projetos no Brasil.
“O Brasil possui recursos hídricos, conhecimento técnico e uma indústria nacional preparada para transformar esse potencial em energia limpa, empregos e desenvolvimento regional. Temos centenas de projetos que já iniciaram seus estudos ambientais e que podem avançar se houver um sinal claro do governo para a expansão da fonte”, afirma.
A entidade reforça, porém, que os 16,9 GW citados representam um inventário de oportunidades, e não empreendimentos automaticamente autorizados. Cada projeto ainda precisa cumprir as etapas regulatórias e obter o respectivo licenciamento.
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