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Curtailment já soma 73,4 milhões de MWh no Brasil desde 2021

Estudo da Volt Robotics aponta aumento dos cortes em 2026 e estima impacto de até R$ 13,6 bilhões

Curtailment já soma 73,4 milhões de MWh no Brasil desde 2021

Foto: Magnific

Levantamento da consultoria Volt Robotics, baseado em dados públicos do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), identificou 51 dias críticos entre janeiro e agosto deste ano, nos quais, em pelo menos um momento, mais de 60% da geração renovável disponível foi restringida.

Em 12 desses dias, o corte chegou a 80%, o que equivale, no acumulado do ano, a um episódio crítico a cada cinco dias.

Historicamente, entre 1º de outubro de 2021 e 31 de agosto de 2026, o Curtailment Tracker da Volt Robotics contabilizou ao menos 73,4 milhões de MWh de energia cortada, considerando as diferentes razões e usinas presentes na base analisada.

Desperdício em alta

Somente nos oito primeiros meses de 2026, o volume médio de cortes alcançou 3.853 MW médios, 18,3% acima do registrado no mesmo período de 2025.

Convertida em energia, a quantidade cortada entre janeiro e agosto corresponde a 22,47 bilhões de kWh, o que, segundo o levantamento, seria suficiente para abastecer, durante oito meses, cerca de 15,6 milhões de residências, número próximo ao total de unidades consumidoras residenciais de São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza reunidas.

A evolução dos episódios extremos também chama atenção, porque em todo o período de janeiro a agosto de 2025, foram registrados 30 dias com cortes superiores a 60%, contra 51 neste ano.

Os episódios com restrição acima de 80% passaram de sete para 12. A composição do problema também mudou, ou seja,  os cortes classificados como de razão energética representaram 67% do total em 2026, ante 49% em 2025 e 21% em 2024.

Conta bilionária

Pela metodologia da Volt Robotics, os 73,4 milhões de MWh cortados no período analisado corresponderiam a R$ 8,6 bilhões se valorados pelo PLD (Preço de Liquidação das Diferenças ).

Quando são aplicadas as regras dos contratos modelados individualmente para cada usina, o impacto estimado sobe para R$ 13,1 bilhões, sem correção monetária.

O próprio estudo, porém, ressalta que esses valores não representam apuração oficial de perdas, obrigação de pagamento ou compensação reconhecida.

São estimativas construídas a partir dos dados publicados pelo ONS e da modelagem contratual da consultoria. Revisões de disponibilidade, medições de vento e irradiância, geração de referência e regras contratuais podem alterar os resultados.

Consideradas correções adicionais nos dados, a Volt Robotics calcula um cenário de até 75,8 milhões de MWh cortados, com valor de até R$ 9 bilhões pelo PLD e R$ 13,6 bilhões pela modelagem contratual.

A diferença entre os cenários é apontada pelo estudo como evidência da importância da qualidade dos dados e dos critérios utilizados para calcular o impacto econômico.

Compensação em foco

O levantamento também dimensiona um recorte diretamente relacionado ao mecanismo de compensação disciplinado pela Portaria nº 140 do Ministério de Minas e Energia, publicada em julho de 2026.

MME regulamenta compensação a usinas solares e eólicas por curtailment

Para os cortes classificados como de confiabilidade ocorridos entre 1º de setembro de 2023 e 25 de novembro de 2025, a estimativa preliminar chega a R$ 4,4 bilhões, considerando correções de dados e valoração contratual.

Desse montante, aproximadamente R$ 3,4 bilhões estariam associados a usinas eólicas e R$ 963 milhões às solares.

Nesse recorte, o volume estimado de energia cortada chega a 21,8 milhões de MWh. Pela valoração ao PLD, seriam R$ 3,4 bilhões; pela metodologia contratual, R$ 4,4 bilhões. A parcela eólica responde por 17 milhões de MWh, enquanto a solar representa 4,8 milhões de MWh.

Nem todo corte tem a mesma causa

Um dos principais alertas da análise é que o curtailment não constitui um problema único.

A Volt Robotics distingue três categorias: razão energética (ENE), associada ao excesso de geração em relação ao consumo; razão elétrica (REL), relacionada à indisponibilidade de linhas por manutenção ou falhas; e razão de confiabilidade (CNF), quando a rede disponível não pode escoar toda a geração sem elevar riscos operativos.

O estudo usa dois episódios de 2025 para mostrar essa diferença. Em 10 de agosto, os cortes chegaram perto de 100%, mas a geração solar e eólica não estava excepcionalmente elevada.

O consumo ficou abaixo da previsão, chegando a uma diferença próxima de 15% em alguns intervalos, enquanto cerca de 13 GW de térmicas permaneciam ligados durante o vale diurno.

Em 4 de maio, outro domingo apresentou cortes próximos de 95%, porém sob uma combinação diferente de demanda, geração e despacho térmico.

Diagnóstico antes do investimento

Para a Volt Robotics, a dimensão crescente dos cortes torna necessário identificar a restrição vinculante que provoca cada evento antes de definir investimentos.

O estudo relaciona diferentes soluções possíveis — transmissão, armazenamento, flexibilização de geração e demanda, compensadores síncronos, automação e melhoria das previsões — às causas específicas dos cortes.

A conclusão é que o mesmo volume de energia cortada pode resultar de problemas distintos e, portanto, exigir respostas diferentes.

A recomendação central é avançar na classificação dos eventos, ampliar a rastreabilidade dos dados e testar alternativas capazes de mostrar qual intervenção efetivamente reduziria cada restrição. Para a Volt Robotics, o curtailment é o sintoma, enquanto a restrição vinculante é o problema a ser solucionado.

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Antonio Carlos Sil
Sobre o autor
Antonio Carlos Sil

Antonio Carlos Sil é jornalista formado pela FMU/FIAM. Atuou como repórter pela Brasil Energia, além de serviços prestados para Agência Estado, Exame e Canal Energia. Trabalhou em assessorias de comunicação da CPFL Energia, CESP e AES Tietê. Cobre setor elétrico desde 2000. Possui experiência na cobertura de eventos, como leilões de energia, convenções, palestras, feiras, congressos e seminários.

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