O volume de financiamento para projetos de geração renovável no Brasil somou R$ 36,3 bilhões em 2025, segundo levantamento divulgado nesta sexta-feira (12) pela CELA (Clean Energy Latin America).
Apesar do volume representar um crescimento de 10,6% em relação a 2024, o resultado encontra-se 22% abaixo do pico histórico de R$ 46,3 bilhões registrado em 2022.
De acordo com a consultoria especializada em assessoria financeira e estratégica para o setor de energia, os números indicam que o mercado ainda não conseguiu recuperar o ritmo observado antes do ciclo de desafios iniciado em 2023, marcado pela combinação de juros elevados, modulação de geração e aumento dos casos de curtailment.
O estudo mostra, contudo, que a trajetórianão é homogênea entre as diferentes tecnologias. Enquanto a GD (geração distribuída) solar tem demonstrado maior resiliência, a geração solar centralizada continua enfrentando pressões relevantes.
Já o segmento eólico apresentou sinais de recuperação após atingir um dos menores volumes de financiamento da série histórica em 2024, enquanto o mercado de armazenamento de energia segue em fase de estruturação regulatória e amadurecimento.
Geração distribuída solar
De acordo com o estudo, os financiamentos destinados a projetos de GD solar permaneceram relativamente estáveis entre 2023 e 2025, variando entre R$ 13 bilhões e R$ 14,7 bilhões.
Embora abaixo do recorde de R$ 21,8 bilhões registrado em 2022, o segmento continuou movimentando volumes superiores aos observados na geração solar centralizada em todos os anos recentes.
O desempenho excepcional de 2022 foi impulsionado pela corrida dos consumidores para garantir o direito adquirido previsto na Lei nº 14.300, que instituiu o Marco Legal do segmento no país.
Na prática, os projetos que protocolaram o pedido de conexão até janeiro de 2023 asseguraram as regras anteriores de compensação de energia até 2045, provocando uma forte antecipação da demanda. Com o encerramento desse prazo, o mercado naturalmente passou por uma acomodação.
Ainda assim, a GD solar demonstrou resiliência mesmo após o fim desse ciclo. Segundo a CELA, uma das razões é estrutural: diferentemente da geração centralizada, o retorno econômico dos sistemas locais é menos impactado pelas mudanças regulatórias, uma vez que boa parte da energia gerada é consumida simultaneamente à sua produção.
De acordo com a consultoria, isso reduz os efeitos da diminuição da compensação dos créditos e mantém o prazo de retorno dos investimentos em níveis considerados atrativos. Outro fator apontado pela consultoria é a continuidade dos financiamentos para projetos remotos que garantiram o direito adquirido antes de janeiro de 2023.
Nesse grupo estão usinas de geração compartilhada e empreendimentos de autoconsumo remoto que seguiram sendo desenvolvidos e financiados nos anos subsequentes. A CELA ressalta que os números da GD solar podem não refletir integralmente o avanço do mercado de armazenamento de energia.
Isso porque muitos sistemas de baterias são contratados em conjunto com projetos fotovoltaicos e acabam enquadrados pelos bancos nas mesmas linhas de financiamento destinadas à energia solar, o que torna parte do crescimento do segmento de armazenamento invisível nas estatísticas setoriais.
Geração centralizada solar
A geração centralizada solar foi um dos segmentos mais impactados pelo ambiente adverso dos últimos anos. Segundo a CELA, o volume de financiamentos recuou de R$ 15,1 bilhões em 2022 para R$ 9 bilhões em 2025, refletindo uma combinação de desafios financeiros, operacionais e regulatórios.
O primeiro deles é o elevado custo de capital. Com a taxa Selic oscilando entre 13,75% e 14,25% nos últimos anos — os maiores patamares desde 2016 —, o financiamento de novos projetos tornou-se mais caro, reduzindo a atratividade de investimentos e dificultando o fechamento financeiro de empreendimentos.
Outro fator apontado pela consultoria é a chamada modulação da geração solar. Como a produção das usinas se concentra durante o dia, justamente no período em que há maior oferta de energia solar no sistema, os preços da eletricidade tendem a ser pressionados para baixo nos horários de maior geração.
Segundo a CELA, trata-se de um desafio inerente à própria expansão da fonte solar e que vem exigindo maior participação de tecnologias complementares, como a geração eólica e os sistemas de armazenamento de energia, capazes de ajudar a equilibrar a oferta ao longo do dia.
O cenário é agravado pelo perfil de contratação predominante no Mercado Livre de Energia. Grandes consumidores normalmente buscam contratos com entrega contínua de energia ao longo das 24 horas do dia.
Como a geração solar é concentrada em determinados períodos, os empreendedores precisam recorrer a mecanismos de mercado para complementar a entrega nos horários de menor produção, reduzindo margens e aumentando a complexidade dos projetos.
Além disso, o curtailment permanece como uma das principais preocupações do segmento. De acordo com a consultoria, os cortes de geração atingiram, em média, 17,1% das usinas entre abril de 2024 e março de 2025.
A ausência de um mecanismo de ressarcimento para essas restrições operativas aumenta a percepção de risco por parte de bancos e investidores, tornando a concessão de crédito mais conservadora e dificultando a expansão do setor.
Energia eólica
Em contraste com a trajetória observada na geração solar centralizada, o setor eólico apresentou sinais de recuperação em 2025. Segundo a CELA, os financiamentos destinados à fonte somaram R$ 12,5 bilhões, um crescimento de 40% em relação ao ano anterior.
O resultado representa uma retomada após o menor volume da série histórica registrado em 2024, período em que o segmento também foi impactado pelo ambiente de juros elevados e pelos efeitos do curtailment. A consultoria destaca que a dinâmica de crescimento da fonte mudou significativamente nos últimos anos.
Se no passado os investimentos eram impulsionados principalmente pelos leilões regulados e pelas linhas de financiamento de longo prazo dos bancos de desenvolvimento, atualmente o Mercado Livre de Energia e os projetos de autoprodução passaram a exercer papel central na viabilização de novos empreendimentos.
Segundo o estudo, a crescente participação da energia solar no sistema abriu espaço para uma complementaridade cada vez maior entre as duas fontes.
À medida que a geração solar aumenta a oferta de energia durante o dia e pressiona os preços nesse período, consumidores e comercializadores passaram a buscar a energia eólica para compor portfólios capazes de entregar energia de forma mais equilibrada ao longo das 24 horas.
Com um perfil de geração mais distribuído ao longo do dia e maior produção em horários de baixa irradiação solar, a fonte eólica passou a desempenhar um papel estratégico na composição dos contratos do Mercado Livre.
Para a CELA, essa demanda estrutural vem sustentando a recuperação dos investimentos e ampliando a atratividade dos projetos eólicos no país.
Baterias
Por fim, a CELA registrou R$ 126 milhões em financiamentos destinados a projetos de armazenamento de energia (BESS) em 2025.
Embora o volume represente um avanço em relação a 2024, ele permanece distante do pico de R$ 280 milhões observado em 2023, quando emissões relevantes de debêntures e fundos de investimento impulsionaram a captação de recursos para o segmento.
Segundo a consultoria, essa oscilação reflete menos o ritmo real de adoção da tecnologia e mais as características dos instrumentos de financiamento utilizados pelo mercado.
Isso porque os recursos para projetos de armazenamento podem vir de diferentes fontes, como bancos comerciais, mercado de capitais e instituições multilaterais, nem sempre capturados de forma uniforme pela metodologia do levantamento.
Outro fator que ajuda a explicar essa dinâmica é a expressiva redução dos custos da tecnologia. De acordo com a CELA, os sistemas de armazenamento registraram uma queda acumulada de cerca de 90% nos custos desde 2010, sendo que alguns modelos tiveram redução próxima de 50% apenas em 2024.
Na prática, isso significa que é possível instalar mais capacidade utilizando um volume menor de capital, o que reduz os valores financiados mesmo em um cenário de expansão física do mercado.
A consultoria também destaca que parte relevante dos sistemas de baterias comercializados atualmente é contratada em conjunto com projetos de geração distribuída.
Nesses casos, os financiamentos costumam ser enquadrados pelos bancos dentro das linhas destinadas à energia solar fotovoltaica, fazendo com que uma parcela do crescimento do mercado de armazenamento não apareça de forma explícita nas estatísticas do setor.
A expectativa da CELA é que os primeiros leilões dedicados exclusivamente ao armazenamento, previstos para 2026, marquem uma nova fase de escala para o segmento, com impacto direto nos volumes de financiamento dos próximos estudos.
“O setor renovável brasileiro vive um momento de transição complexa. O financiamento ainda não retornou ao patamar de 2022 e os desafios são reais: juros altos, curtailment sem mecanismo de ressarcimento e um mercado que ainda busca os instrumentos adequados para precificar e contratar a complementaridade entre fontes”, explica Camila Ramos, CEO da CELA.
A boa notícia, segundo a executiva, é que eólica e armazenamento estão ganhando papel estratégico exatamente por “oferecerem as soluções que o sistema elétrico precisa, e isso deve se refletir nos volumes de financiamento dos próximos anos”, ressalta ela.
Os dados da consultoria consideram os desembolsos realizados pelas principais instituições financeiras que atuam no financiamento da geração renovável no Brasil, incluindo bancos públicos, privados, cooperativas de crédito, fintechs e operações estruturadas via mercado de capitais.
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