Pouco mais de oito meses após a integração de Roraima ao SIN (Sistema Interligado Nacional), a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) acaba de divulgar estudo prospectivo detalhando os principais impactos esperados para o estado e para o setor elétrico nacional.
Entre os principais impactos projetados estão a economia anual de R$ 540 milhões em subsídios à geração termelétrica e a redução de até 300 mil toneladas de emissões de CO₂ por ano.
A iniciativa também deverá conectar cerca de 209 mil unidades consumidoras ao SIN (Sistema Interligado Nacional), reduzir em 98% o consumo do sistema isolado de Roraima e melhorar os indicadores de segurança do suprimento elétrico no estado.
A interligação ocorreu em setembro de 2025, quando a Linha de Transmissão Manaus–Boa Vista foi energizada a partir do centro de operação do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), em Brasília (DF). Com isso, Roraima deixou de ser o último estado brasileiro ainda não conectado ao SIN, encerrando uma condição histórica de isolamento elétrico.
Segurança energética
A linha Manaus–Boa Vista foi projetada com capacidade energética aproximadamente quatro vezes superior à demanda atual de Roraima, permitindo maior estabilidade operacional e reduzindo significativamente a exposição do estado a interrupções no fornecimento.
Os números compilados pela EPE com base em dados do ONS mostram uma mudança expressiva logo após a entrada em operação da interligação. Entre janeiro e setembro de 2025, ainda sob a condição de sistema isolado, foram registradas 243 perturbações com corte de carga, incluindo três blecautes.
Após a conexão ao SIN, até o final de fevereiro de 2026, foram contabilizadas 23 perturbações e nenhum blecaute. Além disso, a infraestrutura foi dimensionada para comportar futuras expansões do sistema elétrico regional, incluindo a eventual integração do potencial hidrelétrico da bacia do Rio Branco ao restante do país.
Menos emissões
Outro benefício apontado pelo estudo está na área ambiental. Historicamente, grande parte da eletricidade consumida em Roraima dependia da geração termelétrica movida a óleo diesel.
Com a chegada da energia proveniente do SIN, a expectativa é de redução gradual dessa dependência e, consequentemente, das emissões associadas à geração local.
De acordo com projeções da EPE, o desligamento progressivo das térmicas poderá reduzir em até 300 mil toneladas anuais as emissões de dióxido de carbono já em 2026, tomando como referência os níveis registrados em 2024.
A integração também contribui para ampliar a participação de fontes renováveis no atendimento ao estado, alinhando o crescimento econômico regional às metas de sustentabilidade ambiental defendidas pelo governo federal.
Economia para o sistema elétrico
O estudo destaca ainda impactos financeiros positivos para todo o setor elétrico. A expectativa é que a CCC (Conta de Consumo de Combustíveis), mecanismo utilizado para subsidiar a geração térmica nos sistemas isolados, apresente redução de aproximadamente R$ 540 milhões por ano, em decorrência da interligação.
Para a EPE, essa diminuição dos gastos sistêmicos decorre justamente da menor necessidade de geração a diesel para atender o mercado de Roraima. Ao mesmo tempo, a conexão provocou mudanças na estrutura tarifária local.
O estado passou a se submeter às mesmas regras aplicadas aos demais consumidores do SIN, incorporando custos relacionados à transmissão e a encargos setoriais que anteriormente não incidiam sobre o sistema isolado.
Mercado
A EPE também avalia que a integração pode criar condições favoráveis para atração de investimentos produtivos. Com maior estabilidade energética e disponibilidade de suprimento, consumidores do Grupo A passaram a ter a possibilidade de migrar para o ACL (Ambiente de Contratação Livre), ampliando as opções de compra de energia.
Segundo o estudo, essa combinação de confiabilidade energética e liberdade de contratação poderá estimular a instalação de empreendimentos industriais voltados tanto ao mercado local quanto à exportação para países do Caribe e da América do Sul.
O potencial de crescimento é reforçado pelos próprios indicadores do estado. Roraima possui população de cerca de 739 mil habitantes e consumo anual de eletricidade de 1.376 GWh. Entre 2010 e 2022, o número de consumidores cresceu em média 4,9% ao ano, enquanto o consumo avançou 6,3% ao ano, ritmo superior ao crescimento populacional observado no período.
Linhão Manaus–Boa Vista inicia operação e conecta Roraima ao SIN
Marco para a integração
A interligação de Roraima também representa um passo importante dentro de um processo mais amplo de expansão do SIN na Amazônia Legal. Segundo a EPE, as sucessivas interligações realizadas nos últimos 20 anos reduziram em 83% o consumo dos sistemas isolados brasileiros.
Antes de Boa Vista, já haviam sido conectadas ao SIN as regiões de Porto Velho e Rio Branco, em 2009, e posteriormente Manaus e Macapá, entre 2013 e 2015. Com a entrada de Roraima no sistema nacional, cerca de 209 mil unidades consumidoras passaram a ser atendidas pelo SIN.
Como consequência, houve redução de 35% no número de consumidores localizados em sistemas isolados e queda de 52% no consumo total desses sistemas logo após a interligação. Em Roraima especificamente, a retração do consumo isolado chegou a 98%.
A EPE informa que os estudos para a região continuam. Atualmente estão em andamento novas avaliações para ampliar o atendimento elétrico no sul do estado de Roraima e reforçar a resiliência da infraestrutura de transmissão inaugurada em 2025.
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