A transformação da matriz elétrica brasileira deverá ampliar a necessidade de recursos capazes de responder rapidamente às variações entre geração e consumo. Nesse cenário, os sistemas de armazenamento de energia (SAE) começam a ocupar uma posição central no planejamento da expansão e da operação do SIN (Sistema Interligado Nacional).
O tema foi debatido nesta quarta-feira (26) durante o painel “Perspectivas do planejamento para a contribuição dos SAE no SIN”, realizado na Intersolar South America, em São Paulo. O encontro reuniu representantes do MME (Ministério de Minas e Energia ), da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), da ABSAE (Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia) e de empresas do setor.
O presidente da ABSAE, Markus Vlasits, destacou que a flexibilidade se tornou um dos principais assuntos do setor elétrico. O conceito envolve a capacidade de atender às rampas de carga, contribuir para o controle de frequência e tensão, fornecer inércia sintética e responder rapidamente às necessidades da operação.
Na avaliação de Vlasits, a contratação desses atributos não precisa ficar restrita aos leilões de capacidade. Serviços ancilares, resposta da geração e da demanda e sinais econômicos mais adequados também podem contribuir para remunerar os recursos oferecidos ao sistema.
O diretor do Departamento de Planejamento e Outorgas de Geração do MME, André Perim, afirmou que o debate sobre flexibilidade vem ganhando espaço há vários anos. Os primeiros estudos sobre o tema foram desenvolvidos pela EPE em 2018, enquanto os planos decenais e de longo prazo começaram a apresentar indicações mais claras sobre as necessidades futuras do SIN.
Segundo Perim, diferentes tecnologias podem oferecer um ou mais atributos de flexibilidade. As baterias conseguem atender a três dessas dimensões e, quando combinadas com ativos de geração, podem ampliar ainda mais sua contribuição ao sistema.
O representante do MME lembrou que os Leilões de Reserva de Capacidade realizados desde 2021 já incorporaram requisitos de flexibilidade, especialmente para as usinas termelétricas. Esses critérios vêm sendo aprimorados para permitir que os empreendimentos respondam de maneira mais rápida às necessidades da operação.
O próximo passo, entretanto, será aprofundar a definição do que o SIN efetivamente precisa, como esses atributos serão mensurados e de que forma poderão ser incluídos nas futuras contratações. A evolução segue o processo iniciado em 2019, quando o planejamento passou a considerar de maneira mais explícita a contratação de potência, além da energia.
Para o primeiro leilão de baterias, o governo optou por concentrar a remuneração dos empreendimentos em uma receita fixa. A medida busca simplificar o desenho do certame, reduzir incertezas e oferecer maior previsibilidade aos investidores, considerando que a tecnologia ainda não está instalada em larga escala no país.
À medida que a regulação avançar e o mercado adquirir maior experiência, outros modelos de remuneração poderão ser avaliados. Perim também defendeu a realização de leilões recorrentes e periódicos, tanto para oferecer sinais de longo prazo ao mercado quanto para permitir que o governo organize os certames com maior antecedência.
EPE projeta aumento dos requisitos de potência
A analista da EPE Fernanda Paschoalino explicou que a expansão das fontes renováveis variáveis modifica o perfil de operação do sistema e amplia os requisitos de potência e flexibilidade no horizonte decenal.
Com a maior participação das fontes solar e eólica, as rampas de carga líquida deverão ficar mais acentuadas. As projeções apresentadas pela EPE indicam requisitos de potência da ordem de 20 GW a 30 GW em 2030. A variabilidade intradiária pode chegar a cerca de 50 GW e avançar para aproximadamente 70 GW em 2035.
Desde 2018, a EPE desenvolve estudos específicos sobre flexibilidade. Em 2023, a empresa apresentou uma metodologia para estimar os requisitos e a oferta desse atributo e, atualmente, trabalha no aprofundamento dos critérios que poderão orientar o planejamento.
O armazenamento é analisado como uma das soluções para atender ao crescimento do consumo, integrar as fontes renováveis e suprir novos requisitos sistêmicos, especialmente diante das dificuldades para expandir a geração hidrelétrica convencional. Os estudos consideram não apenas as baterias, mas também tecnologias como as usinas hidrelétricas reversíveis.
O PDE 2035 indica a possibilidade de aproximadamente 7 GW em tecnologias de armazenamento no sistema elétrico brasileiro. As aplicações avaliadas incluem sistemas isolados, ativos conectados à transmissão e empreendimentos contratados nos Leilões de Reserva de Capacidade.
A redução dos custos dos equipamentos também passou a aparecer de maneira mais clara nos estudos recentes. Ainda assim, a ausência de projetos em larga escala no Brasil e as incertezas relacionadas à tributação dificultam a elaboração das projeções.
Investidores se preparam
As empresas participantes do painel avaliam que a contratação de baterias poderá abrir um novo ciclo de investimentos no setor elétrico brasileiro. O diretor de Novos Negócios da Elera Renováveis, Gabriel Pontes, afirmou que a companhia está avaliando a flexibilidade em diferentes pontos do sistema, incluindo a geração centralizada e o consumo.
A estratégia também envolve a aproximação com consumidores capazes de tornar suas cargas mais flexíveis. Para a empresa, essa característica deverá orientar uma nova fronteira de investimentos e permitir a criação de sinergias entre geração, armazenamento e demanda.
O gerente de engenharia e desenvolvimento da Casa dos Ventos, Luis Castro, classificou o avanço da flexibilidade como uma oportunidade para integrar sistemas de armazenamento aos empreendimentos de geração que já estão em operação. O principal desafio dos investidores será dimensionar corretamente os riscos e os preços em meio às incertezas regulatórias, operacionais e comerciais.
Já o diretor da unidade de armazenamento da Brasol, Diogo Pinheiro, destacou que a demanda por baterias se tornou concreta, embora ainda existam dúvidas sobre os volumes que serão efetivamente contratados. A empresa cadastrou mais de 4 GW em projetos e pretende participar dos leilões.
Pinheiro observou que a movimentação dos fabricantes durante a própria Intersolar demonstra a rápida resposta da indústria ao sinal dado pelo governo. Empresas estrangeiras, principalmente chinesas, avaliam instalar unidades produtivas no país, com anúncios que somam uma capacidade potencial de aproximadamente 10 GW por ano.
Apesar do interesse dos investidores, projetos de baterias fora dos leilões públicos ainda enfrentam dificuldades para se viabilizar no Brasil. A avaliação da Brasol é que o armazenamento precisará encontrar fontes adicionais de receita para que o mercado se desenvolva de maneira mais ampla.
Na geração distribuída, por exemplo, o modelo de compensação ainda oferece poucos incentivos econômicos para a instalação de baterias. A energia injetada durante o dia possui, em linhas gerais, o mesmo valor de compensação daquela disponibilizada em outros horários, reduzindo o benefício de deslocar a geração solar para o período noturno.
Em mercados mais maduros, parte relevante dos projetos consegue avançar fora dos mecanismos centralizados de contratação. No Brasil, entretanto, o primeiro leilão deverá funcionar como impulso inicial para a tecnologia, enquanto a regulação evolui para reconhecer outras aplicações e serviços.
Preço-teto e margem de escoamento estão entre os próximos passos
O MME trabalha agora na definição do preço-teto, da margem de escoamento e do volume a ser contratado nos dois certames. O quantitativo da margem de escoamento deverá ser divulgado em 30 de setembro.
O cronograma prevê a aprovação do edital pela ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) em 27 de outubro e sua publicação em 29 de outubro. Após os leilões, ainda serão cumpridas as etapas de homologação, adjudicação e emissão das outorgas, prevista para ocorrer em até seis meses.
Também será necessário compatibilizar os projetos vencedores com o (PNAST (Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão). Embora os empreendimentos não precisem disputar margem dentro das temporadas de acesso, terão de cumprir os requisitos estabelecidos para a obtenção do documento prévio de acesso.
Cronograma e cadeia de suprimentos preocupam empresas
Entre os riscos apontados pelos investidores estão a definição do rateio dos custos entre os agentes pagadores, os novos encargos associados ao acesso à rede e as penalidades previstas para os empreendimentos. Embora a remuneração tenha sido estruturada como receita fixa, seu recebimento dependerá do cumprimento das obrigações contratuais e dos índices de desempenho.
A preparação operacional também exigirá atenção. Por se tratar de uma tecnologia com características diferentes das usinas despachadas convencionais, os sistemas de armazenamento precisarão passar por procedimentos pré-operacionais específicos do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico).
Outro ponto crítico será a cadeia de suprimentos, especialmente a disponibilidade de transformadores e equipamentos nacionalizados dentro do prazo estabelecido para a entrada em operação dos projetos, em 2028.
Para participar de um dos leilões, os empreendimentos precisarão utilizar determinados componentes produzidos ou montados no Brasil. De acordo com a Brasol, apesar da presença de vários fabricantes na Intersolar e dos anúncios de produção nacional, os fornecedores ainda não conseguem apresentar preços definitivos para esses equipamentos.
A incerteza também afeta a formação de parcerias entre investidores e fabricantes. Para a Casa dos Ventos, os contratos deverão ser negociados até a realização dos leilões, o que exigirá elevado grau de confiança na capacidade dos fornecedores de entregar os equipamentos no prazo e nas condições acordadas.
Mesmo diante dos desafios, os participantes do painel avaliaram que a publicação das diretrizes representou um avanço para a inserção do armazenamento no sistema elétrico brasileiro. A expectativa é que os leilões de dezembro marquem o início de uma agenda permanente de contratação de flexibilidade, acompanhada pelo desenvolvimento de novos modelos de negócios para as baterias no país.
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