Durante a Missão Austrália, uma percepção foi se consolidando a cada reunião. Embora estivéssemos visitando universidades, empresas de tecnologia, investidores e agentes do setor elétrico, todos, sob perspectivas diferentes, pareciam convergir para responder à mesma pergunta.
Confesso que embarquei para a Austrália imaginando que grande parte das discussões estaria concentrada na expansão da geração renovável. Afinal, trata-se de um país que enfrenta desafios semelhantes aos do Brasil, como a integração de fontes intermitentes e a necessidade de ampliar a infraestrutura elétrica. Mas o foco das conversas foi outro.
A impressão que tive é que a discussão predominante deixou de ser se as renováveis crescerão e passou a ser como operar um sistema altamente renovável. O debate agora é como administrar um sistema em que milhões de consumidores também passam a desempenhar um papel ativo na operação da rede.
Essa visão apareceu logo nas primeiras reuniões realizadas na UNSW (University of New South Wales) e no CEEM (Centre for Energy and Environmental Markets).
A expansão da geração distribuída, das baterias residenciais e dos veículos elétricos não está apenas alterando a matriz energética. Está mudando a própria lógica de funcionamento do setor elétrico.
A pergunta me acompanhou durante toda a missão: será que o Brasil já entrou nessa mesma discussão ou ainda estamos concentrados nos desafios da expansão da oferta?
Não é por acaso que esse debate precisa ganhar relevância justamente quando o Brasil começa a atrair investimentos em data centers, inteligência artificial, hidrogênio de baixo carbono e eletrificação industrial. Todos esses movimentos exigirão um sistema elétrico muito mais flexível do que aquele que fomos acostumados a operar.
Durante décadas, o grande desafio do setor elétrico era produzir energia suficiente. Agora, o desafio passa a ser utilizá-la no momento certo, no lugar certo e da forma mais eficiente possível
Em vez de enxergar consumidores apenas como destinatários da energia produzida pelas usinas, o sistema passa a vê-los como agentes capazes de consumir, armazenar e até fornecer energia de volta à rede, conforme os sinais econômicos. Ficou claro que na Austrália o consumidor deixa de ser visto apenas como carga. Passa a ser considerado um recurso do sistema.
Essa percepção ganhou ainda mais força durante a visita à Kraken, plataforma tecnológica do Grupo Octopus Energy. Em determinado momento ouvimos uma frase simples, mas extremamente poderosa: “Flexibility is becoming the new fuel.” Em tradução livre: “A flexibilidade está se tornando o novo combustível do sistema elétrico.”.
A frase sintetiza uma mudança profunda de paradigma. O valor deixa de estar apenas na produção de energia. Passa a estar também na capacidade de decidir quando consumir, quando armazenar e quando disponibilizar essa energia para o sistema. Essa lógica ficou ainda mais evidente nas discussões sobre a evolução do mercado varejista de energia e dos programas de armazenamento distribuído.
Um exemplo chamou particularmente minha atenção. A partir de julho de 2026, consumidores australianos passariam a contar com incentivos para utilizar, durante um período aproximado de três horas, energia da rede para carregar suas baterias residenciais sem custo. À primeira vista, trata-se apenas de um benefício ao consumidor. Mas o racional por trás da medida é muito mais sofisticado.
O objetivo não é apenas reduzir a conta de energia das famílias. É criar incentivos para que os consumidores adquiram baterias maiores do que aquelas necessárias para atender exclusivamente ao consumo da residência. Essas baterias deixam de funcionar apenas como um equipamento doméstico e passam a integrar a infraestrutura elétrica do país, aumentando a capacidade de armazenamento distribuído e oferecendo maior flexibilidade para o sistema nos horários de maior necessidade.
Essa talvez tenha sido uma das ideias mais interessantes de toda a missão. Em vez de concentrar todos os investimentos em grandes ativos centralizados, o sistema cria incentivos econômicos para que milhões de consumidores invistam voluntariamente em um recurso que também beneficia a coletividade. É a utilização dos sinais de mercado para transformar decisões individuais em ganhos sistêmicos.
Essa lógica revela uma mudança importante. Em vez de responder aos novos desafios apenas com mais infraestrutura, parte da solução passa a ser utilizar de forma muito mais inteligente a infraestrutura que já existe.
Essa percepção ganhou uma dimensão ainda mais interessante na conversa com a Origin Energy. Ali ficou claro que a bateria residencial deixou de ser apenas um equipamento instalado na casa do consumidor. Ela passou a integrar uma plataforma inteligente que responde automaticamente aos sinais do mercado.
Dependendo do preço da energia, pode ser mais vantajoso carregar a bateria durante períodos de baixa demanda, utilizar essa energia ao longo do dia ou até devolvê-la ao sistema quando houver necessidade.
Na prática, a bateria deixa de ser apenas um ativo físico. Ela se transforma em um ativo econômico, capaz de prestar serviços ao sistema elétrico e gerar novas fontes de receita para seu proprietário.
Essa lógica apareceu novamente na conversa com a CEFC (Clean Energy Finance Corporation). Chamou minha atenção o fato de que boa parte das discussões sobre financiamento não estava relacionada apenas à construção de novas usinas. O foco era criar condições para aumentar a flexibilidade do sistema elétrico como um todo, apoiando tecnologias, infraestrutura e modelos de negócio capazes de integrar um volume crescente de geração renovável.
Essa visão ajuda a explicar por que instituições como a CEFC financiam não apenas ativos de geração, mas também soluções que aumentam a flexibilidade do sistema. O investimento deixa de ser avaliado apenas pela quantidade de energia produzida e passa a considerar a capacidade de tornar todo o sistema mais eficiente.
Talvez a maior lição da missão tenha sido perceber que essa transformação não está sendo impulsionada apenas pela tecnologia. Ela está sendo impulsionada pelos incentivos econômicos como correto desenho de mercado.
O verdadeiro desafio já não é tecnológico e passa a ser institucional: criar regras, mercados e incentivos capazes de coordenar milhões de decisões individuais em benefício de todo o sistema elétrico.
Em diferentes reuniões ouvimos mensagens muito semelhantes. Uma delas resume bem essa lógica: “If you get the market signals right, consumers will respond.” Ou seja: “Quando os sinais econômicos são adequados, o próprio mercado responde.”
Essa frase merece uma reflexão mais profunda. Não se trata de convencer consumidores a instalar baterias ou alterar seus hábitos por consciência ambiental. Trata-se de criar um ambiente regulatório e de mercado em que a decisão economicamente mais racional seja, justamente, contribuir para o equilíbrio do sistema elétrico.
Essa talvez seja a principal diferença que observei em relação ao debate que frequentemente fazemos no Brasil. Ainda concentramos boa parte dos nossos esforços em discutir a expansão da oferta de energia. Evidentemente, ampliar geração e transmissão continuará sendo indispensável. Mas a experiência australiana mostra que o próximo salto de competitividade dependerá também da capacidade de utilizar essa energia de forma muito mais inteligente.
A economia de baixo carbono não exigirá apenas mais energia limpa. Exigirá um sistema capaz de utilizar essa energia com inteligência.
Ao final da missão, fiquei com uma convicção. A próxima revolução do setor elétrico não será determinada apenas pelas baterias, pela inteligência artificial ou pelos veículos elétricos. Essas tecnologias já estão disponíveis.
O verdadeiro diferencial estará na capacidade de construir mercados, regulações e incentivos capazes de tornar o sistema mais eficiente, resiliente e flexível.
O Brasil parte de uma posição privilegiada. Nossa matriz elétrica já é uma das mais limpas do mundo. Talvez justamente por isso possamos dar um salto mais rápido na construção de um sistema mais flexível, desde que consigamos alinhar regulação, incentivos econômicos e inovação.
Talvez a grande pergunta para o Brasil não seja quanto custará a transição energética. Talvez seja quanto custará não construir, desde já, um sistema preparado para ela.
No primeiro artigo desta série, a principal reflexão foi a necessidade de coordenação entre governo, reguladores, investidores e empresas. Depois desta segunda etapa da missão, fiquei convencido de que essa coordenação também precisará alcançar milhões de consumidores, transformando-os em participantes ativos do sistema elétrico.
Esse talvez seja o maior desafio da próxima década para o Brasil. Não porque nos faltem tecnologias. Baterias, inteligência artificial, digitalização e recursos energéticos distribuídos, por exemplo. O verdadeiro desafio será construir instituições, mercados e incentivos capazes de fazer tudo isso funcionar de forma coordenada. A revolução que precisamos não é tecnológica. É institucional.
Confira o primeiro artigo da “Missão Austrália”
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