A expansão das energias renováveis, liderada pela fonte solar fotovoltaica, deverá redefinir a matriz elétrica mundial até o fim da década. Atualização de meio de ano do relatório Electricity 2026, divulgado pela AIE (Agência Internacional de Energia), projeta que a geração renovável crescerá cerca de 1.000 TWh por ano entre 2026 e 2030.
Desse total, mais de 600 TWh deverão ser provenientes exclusivamente de energia solar. Com isso, renováveis e energia nuclear associadas deverão responder, juntas, por aproximadamente 50% da geração global de eletricidade até 2030.
Segundo a AIE, a produção de eletricidade a partir de fontes renováveis já praticamente igualou a geração a carvão em 2025, impulsionada pelo desempenho recorde da energia solar.
A expectativa é que a geração renovável mantenha ritmo médio de crescimento de 8% ao ano, consolidando-se como a principal responsável pela expansão da oferta mundial de eletricidade.
Embora o carvão continue sendo a maior fonte individual de geração em 2030, sua participação deverá perder espaço de forma gradual diante do avanço das tecnologias de baixa emissão.
Papel estratégico
A rápida expansão das fontes renováveis vem aumentando a necessidade de sistemas capazes de garantir maior flexibilidade à operação dos sistemas elétricos. Nesse contexto, a AIE destaca que os sistemas de armazenamento em baterias passam a desempenhar um papel cada vez mais relevante para assegurar a estabilidade do fornecimento.
De acordo com o relatório, a implantação de baterias em escala de utilidade pública acelera em ritmo elevado, principalmente em mercados onde a participação da energia solar e da eólica cresce rapidamente.
Califórnia, Texas, Alemanha, Reino Unido e Austrália do Sul aparecem entre os exemplos de regiões onde o armazenamento já contribui significativamente para a segurança do sistema elétrico. A redução contínua dos custos das baterias amplia sua competitividade, embora a agência ressalte que ainda serão necessárias reformas regulatórias e medidas para facilitar sua integração aos sistemas elétricos.
A AIE também observa que a combinação entre expansão das redes, maior flexibilidade operacional e crescimento do armazenamento será indispensável para acomodar o aumento da geração renovável.
Atualmente, mais de 2.500 GW em projetos — entre usinas renováveis, sistemas de armazenamento e grandes consumidores, como data centers — permanecem aguardando conexão às redes elétricas em diferentes países.
Segundo o estudo, investimentos em reforço das redes e mudanças regulatórias poderiam liberar capacidade suficiente para conectar entre 1.200 GW e 1.600 GW desses projetos antes mesmo da conclusão de grandes obras de expansão.
Consumo em nova fase
A atualização da AIE aponta que o mundo entrou definitivamente na chamada “Era da Eletricidade”, marcada pela crescente eletrificação da economia. A demanda global deverá crescer, em média, 3,6% ao ano entre 2026 e 2030, ritmo cerca de 50% superior ao observado na década anterior. Em 2025, o consumo mundial de eletricidade avançou 3%, após alta de 4,4% registrada em 2024.
Esse crescimento será impulsionado principalmente pela indústria, veículos elétricos, sistemas de ar-condicionado e pela rápida expansão da inteligência artificial e dos data centers.
Pela primeira vez em três décadas, desconsiderados períodos de crise, o crescimento da demanda por eletricidade passou a superar o da economia global, tendência que deverá se consolidar até 2030. Segundo a agência, o consumo de eletricidade crescerá pelo menos 2,5 vezes mais rapidamente que a demanda total de energia.
As economias emergentes responderão por quase 80% do aumento da demanda global. A China continuará sendo o principal motor desse crescimento, concentrando cerca de metade da expansão mundial até 2030, enquanto Índia e Sudeste Asiático ganharão participação.
Nas economias avançadas, após cerca de 15 anos de estagnação, a demanda volta a acelerar, impulsionada pela atividade industrial, pela digitalização e pelo crescimento dos data centers. Nos Estados Unidos, aproximadamente metade da expansão prevista do consumo de eletricidade estará ligada a esses centros de processamento de dados.
Gás e nuclear complementam a transição
Embora as renováveis liderem a expansão da oferta, a AIE projeta crescimento também da geração nuclear e das usinas movidas a gás natural.
A produção nuclear atingiu um novo recorde em 2025 e deverá continuar avançando, principalmente na China, Índia e outros mercados emergentes, mas também em países desenvolvidos que decidiram prolongar a vida útil de seus reatores.
Já a geração a gás deverá crescer, em média, 2,6% ao ano até 2030, complementando a expansão das renováveis e contribuindo para atender à demanda adicional por eletricidade.
Emissões estabilizadas
A agência projeta estabilidade das emissões globais de dióxido de carbono (CO₂) provenientes da geração de eletricidade até 2030, resultado da maior participação de fontes renováveis e nucleares na matriz elétrica mundial.
Ao mesmo tempo, alerta que a segurança energética dependerá cada vez mais da modernização das redes elétricas, do fortalecimento da infraestrutura crítica e da adoção de novos modelos regulatórios capazes de acompanhar a rápida transformação do setor.
A expansão da eletrificação, conclui a AIE, exigirá sistemas elétricos mais resilientes, flexíveis e preparados para integrar grandes volumes de geração renovável e armazenamento de energia.
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