O turismo brasileiro projeta faturar mais de R$ 300 bilhões em 2026, segundo projeções da FecomercioSP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo), com base em dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Se confirmado, o resultado representaria um avanço de mais de 30% em relação aos R$ 228,1 bilhões registrados em 2025. Somente no primeiro semestre deste ano, a atividade movimentou R$ 168,8 bilhões, alta de 3,4% em comparação com o mesmo período de 2025.
O crescimento reforça a importância econômica do turismo, mas também levanta uma questão: como os estabelecimentos podem aproveitar esse cenário para aumentar a rentabilidade e reduzir custos operacionais?
Essa discussão ganha ainda mais relevância para os micro e pequenos negócios, que geralmente operam com margens de lucro mais apertadas e representam hoje cerca de 97% das empresas do setor turístico brasileiro, segundo o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).
Para esses estabelecimentos, que dependem diretamente da energia elétrica para atender clientes, conservar alimentos e manter suas operações, uma interrupção no fornecimento pode provocar prejuízos que vão muito além de algumas horas sem iluminação.
Em hotéis, a falta de energia pode comprometer a climatização, o funcionamento dos elevadores e os serviços oferecidos aos hóspedes. Já em restaurantes, pode causar a perda de alimentos refrigerados, interromper o preparo das refeições e prejudicar o atendimento.
Uma das alternativas para reduzir esses riscos é o BESS (Battery Energy Storage System), sistema de armazenamento de energia em baterias capaz de manter equipamentos essenciais funcionando durante apagões e contribuir para a redução dos custos operacionais.
A tecnologia também pode complementar ou reduzir a necessidade de utilização de geradores a diesel, que dependem de combustível, exigem manutenção e podem apresentar um intervalo de acionamento após a queda de energia.
Dependendo da configuração, as baterias conseguem assumir o fornecimento rapidamente, evitando interrupções em equipamentos e serviços essenciais.
Apagões já provocaram perdas milionárias no setor
Os impactos da falta de energia elétirca sobre estabelecimentos ligados ao turismo já foram registrados em diferentes regiões do Brasil.
Em dezembro de 2025, um apagão provocado por fortes ventos em São Paulo e municípios da região metropolitana afetou cerca de 5 mil hotéis, bares e restaurantes, segundo a Fhoresp (Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo).
A entidade calculou que os prejuízos poderiam chegar a R$ 100 milhões, considerando perdas de alimentos, equipamentos, clientes e faturamento durante o período sem eletricidade.
Outro caso ocorreu em setembro de 2026, quando um temporal atingiu Rio Grande (RS). O proprietário de uma pousada relatou a saída de todos os hóspedes e o cancelamento de reservas após o empreendimento ficar sem energia elétrica.
Os problemas também já atingiram destinos turísticos durante períodos de maior movimentação. No Ceará, interrupções de energia durante o Réveillon motivaram cobranças da Secretaria Estadual do Turismo à distribuidora, após relatos de prejuízos de empresários do setor.
O mesmo aconteceu em Campos do Jordão (SP), onde comerciantes e moradores da região ficarão mais de 100 horas sem energia elétrica em outubro de 2023. O turismo local da cidade foi prejudicado, principalmente considerando que a queda do serviço aconteceu durante o feriado prolongado de Nossa Senhora Aparecida.
Por que ter um gerador nem sempre é suficiente?
Embora hotéis, centros comerciais e outros estabelecimentos utilizem geradores a diesel para enfrentar apagões, esses equipamentos nem sempre conseguem impedir interrupções momentâneas.
“Quando ocorre uma falha no fornecimento da distribuidora, o gerador precisa entrar em operação e assumir a alimentação dos circuitos. Dependendo do sistema instalado, pode existir um intervalo entre a queda de energia e o início efetivo do fornecimento de emergência”, explica Yanael Medeiros, profissional da CS Consultoria, unidade de engenharia do Grupo Canal Solar.
Mesmo uma interrupção breve pode desligar computadores, sistemas de pagamento, equipamentos de climatização e outros dispositivos importantes para a operação. Um episódio semelhante ocorreu em junho de 2026, durante a transmissão de uma partida da Seleção Brasileira pela Copa do Mundo.
O Shopping RioMar Kennedy, em Fortaleza (CE), ficou sem energia enquanto clientes acompanhavam o jogo contra o Japão. A interrupção afetou a sincronização do sistema de geração de emergência e levou consumidores a deixar o estabelecimento para assistir ao restante da partida em outros locais.
Na ocasião, a CS Consultoria, explicou que um BESS adequadamente projetado poderia atuar como ponte entre a falha da rede elétrica e a entrada dos geradores, mantendo equipamentos essenciais energizados durante a transição.
A solução também pode ser aplicada a hotéis, restaurantes, centros de eventos e outros empreendimentos turísticos, desde que o sistema seja dimensionado para atender às cargas que precisam continuar funcionando.
“Em determinadas configurações, as baterias podem reduzir o uso dos geradores a diesel. No entanto, a autonomia depende da capacidade de armazenamento e do consumo dos equipamentos atendidos. Em apagões prolongados, o gerador pode continuar necessário”, ressalta Yanael.
BESS também pode ajudar a reduzir a conta de energia
Além da proteção contra interrupções, os sistemas de armazenamento podem contribuir para reduzir despesas com eletricidade em estabelecimentos turísticos. Uma das aplicações é o peak shaving, estratégia utilizada para diminuir os picos de demanda elétrica.
Em hotéis e resorts, por exemplo, o consumo pode aumentar significativamente quando aparelhos de ar-condicionado, cozinhas industriais, elevadores e outros equipamentos funcionam simultaneamente.
Nessas situações, as baterias podem fornecer parte da potência necessária, reduzindo a demanda registrada pela distribuidora. Dependendo da modalidade tarifária e do perfil de consumo, isso pode evitar cobranças por ultrapassagem e permitir a redução da demanda contratada.
Outra aplicação é o load shifting, que consiste em armazenar energia nos períodos mais baratos para utilizá-la nos horários em que a tarifa é mais elevada. Essa estratégia pode ser especialmente interessante para empreendimentos com diferenças significativas entre os preços da energia nos horários de ponta e fora de ponta.
Também é possível combinar o BESS com sistemas fotovoltaicos, armazenando parte da energia solar para utilização posterior, conforme as características técnicas e econômicas do projeto. A viabilidade dessas aplicações, entretanto, depende do consumo do empreendimento, das condições tarifárias e dos custos de instalação e operação do sistema.
Load shifting, peak shaving e backup: entenda as principais aplicações das baterias
Hotel em Santa Catarina economiza R$ 18 mil mensais com BESS
Um exemplo de aplicação está em Chapecó (SC), onde o Hotel Kinderman adotou um sistema híbrido de energia solar e baterias para ampliar sua capacidade de atendimento elétrico sem precisar realizar uma expansão da subestação.
O projeto utiliza 170 kWp em módulos fotovoltaicos, 90 kW em inversores híbridos e aproximadamente 70 kWh de capacidade de armazenamento. Em maio deste ano, o empreendimento passou a registrar economia mensal de cerca de R$ 18 mil com energia elétrica.
A redução de despesas foi atribuída ao conjunto formado pela geração solar e pelo armazenamento, que diminuiu a compra de eletricidade da distribuidora e ajudou a atender os picos de consumo.
O sistema também reduziu a dependência do gerador a diesel, que deixou de ser utilizado na rotina do hotel e passou a permanecer como alternativa para situações críticas de interrupção prolongada.
O caso mostra como o armazenamento pode atender a diferentes necessidades de um mesmo empreendimento, combinando suporte à operação, gestão da demanda e redução de custos.
Hotel economiza R$ 18 mil por mês com sistema de armazenamento em bateria e energia solar
Zoológico aposta em BESS para proteger atividades essenciais
Outra aplicação de sucesso ocorreu no Bioparque Zoo Pomerode, em Santa Catarina, que anunciou a implantação de um BESS para reduzir custos com eletricidade e aumentar a segurança energética de suas instalações.
O projeto utiliza um sistema de armazenamento com 277 kWh de capacidade e 125 kW de potência, dimensionado para oferecer autonomia superior a três horas em determinadas condições de operação.
A tecnologia foi planejada para atender necessidades que vão além da iluminação do espaço. Entre os equipamentos considerados essenciais estão câmaras frias utilizadas para armazenar alimentos dos animais e ambientes climatizados para espécies que dependem de controle rigoroso de temperatura.
Além do suporte durante interrupções, o projeto prevê utilizar as baterias nos horários em que a energia elétrica é mais cara e para controlar os picos de demanda. Quando anunciado, em agosto de 2026, o sistema ainda estava em implantação, com expectativa de gerar economia mensal entre R$ 6 mil e R$ 9 mil.
Zoológico brasileiro aposta em BESS para obter economia e fornecimento contínuo de energia
Resort em Salvador aposta em baterias para reduzir custos
O Gran Hotel Stella Maris, em Salvador (BA), é outro que entrou no radar dos projetos de armazenamento. O empreendimento firmou um contrato com a EDP para instalação de um sistema BESS.
No local, as baterias serão carregadas nos horários em que a energia tem tarifas mais baixas e utilizadas nos períodos de maior custo, quando a demanda sobre a rede elétrica também costuma ser maior.
A estratégia, conhecida como load shifting, busca deslocar parte do consumo para horários mais econômicos, reduzindo despesas com eletricidade. A conclusão da instalação e o início das operações estão previstos para janeiro de 2027.
Resort em Salvador (BA) aposta em BESS para reduzir custos e melhorar hospitalidade dos clientes
Quando o investimento em BESS faz sentido?
Apesar das possibilidades, instalar baterias não representa uma solução automaticamente vantajosa para todos os negócios turísticos. Um pequeno restaurante, um hotel de grande porte e um resort possuem demandas energéticas diferentes.
Enquanto um estabelecimento pode ter como prioridade manter equipamentos de refrigeração durante apagões, outro pode buscar reduzir os custos com demanda contratada ou deslocar o consumo dos horários mais caros.
Por isso, a análise deve considerar o histórico de consumo, a frequência e a duração das interrupções, as tarifas de energia e os equipamentos que precisam continuar funcionando.
Também entram no cálculo o investimento inicial, a vida útil das baterias, os custos de manutenção e a economia potencial com a redução da demanda, do consumo nos horários mais caros ou do uso de geradores.
Com o turismo brasileiro projetando um novo recorde de faturamento em 2026, a segurança e a gestão do fornecimento elétrico ganham relevância para empreendimentos que dependem da continuidade de suas operações.
Os casos já registrados mostram que a falta de energia pode provocar perdas de clientes, produtos e receitas, enquanto projetos de armazenamento começam a apresentar alternativas para reduzir custos e ampliar a confiabilidade do abastecimento.
Nesse contexto, o BESS pode representar uma oportunidade para negócios turísticos, desde que sua aplicação responda a necessidades concretas e apresente viabilidade técnica e econômica.
Vender BESS não é vender solar: o que perguntar antes de fazer uma proposta?
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