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“Agrivoltaico tem um mercado muito grande para pequenos produtores”, diz Rei do Agro

Fórum da Unicamp discute como a integração com painéis solares abre novas possibilidades para produtividade, uso da água e conforto térmico animal

“Agrivoltaico tem um mercado muito grande para pequenos produtores”, diz Rei do Agro

Carlos Andriolli - "Rei do Agro". Foto: Canal Solar

A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) promoveu, nesta quarta-feira (9), um fórum dedicado ao papel das usinas agrivoltaicas na transição energética e às perspectivas de expansão da tecnologia no Brasil.

O encontro colocou em debate o aproveitamento de uma mesma área para geração de energia e atividades agropecuárias, além dos desafios técnicos, regulatórios e econômicos envolvidos na ampliação desses projetos no país.

A programação abordou temas como o uso mais eficiente da água, a adaptação às mudanças climáticas e o acesso de pequenos e médios produtores às novas tecnologias.

Durante sua participação, Ivan Bergier Tavares de Lima, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital, destacou a necessidade de analisar de maneira integrada a produção de alimentos, o uso da água e a geração de energia.

Segundo Bergier, o desenvolvimento dessas soluções também deve considerar tecnologias mais acessíveis aos produtores, com maior grau de automação e sistemas que possam ser incorporados às propriedades de maneira mais simples. O pesquisador ressaltou ainda a importância do financiamento à pesquisa para o avanço dessas aplicações.

Carlos Andriolli, palestrante e comunicador em energia e eficiência energética para o Agronegócio, conhecido popularmente como “Rei do Agro”,foi outro membro participante do Fórum e destacou o potencial da tecnologia para pequenos produtores rurais, especialmente em propriedades onde a disponibilidade de área é limitada.

“O uso do sistema agrivoltaico no Brasil é muito promissor e tem um mercado muito grande para pequenos produtores rurais, onde o espaço é limitado, mas você consegue ter um rendimento, uma fonte de renda na produtividade e a tecnologia gerando energia, economizando energia na parte da superfície”, observou Andriolli.

Sombreamento, água e produtividade

Um dos pontos abordados durante o Fórum foi o potencial dos sistemas agrivoltaicos para modificar as condições de produção agrícola. Bergier apresentou estudos relacionados à criação de microclimas mais favoráveis, à redução da temperatura do solo e das plantas e à melhoria da eficiência no uso da água.

Entre as possibilidades futuras apresentadas estão sistemas com módulos solares capazes de alterar sua posição de acordo com as condições ambientais. Dessa forma, além de buscar melhores condições para a geração de energia, a movimentação dos módulos poderia ser utilizada para controlar o sombreamento e a incidência solar sobre as plantas.

“São painéis que conseguem se movimentar e isso vai ter um impacto no controle do sombreamento”, afirmou Bergier.

Ivan Bergier Tavares de Lima, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital. Foto: Canal Solar

Andriolli também abordou os efeitos do sombreamento, mas a partir de aplicações da tecnologia. Segundo ele, a presença dos módulos pode contribuir para modificar as condições do ambiente de cultivo, principalmente em relação à temperatura e à disponibilidade de água.

“Quando falamos no sistema de hortifrúti, você possibilita manter uma temperatura mais baixa, ter umidade e até controlar a evaporação ou transpiração da água do solo”, disse Andriolli.

A água apareceu em outra possibilidade apresentada por Bergier: o aproveitamento da chuva. A alternativa faz parte de uma abordagem que considera água, energia e produção agrícola como elementos de um mesmo sistema.

Além do controle do sombreamento e do uso da água, o posicionamento dos módulos foi discutido a relação aos efeitos de ventos intensos. Bergier apresentou referências de estudos que indicam que, em determinadas configurações, a disposição das estruturas pode modificar o fluxo de ar e reduzir o impacto do vento sobre a área de cultivo.

Os possíveis efeitos sobre a produtividade foram abordados. O pesquisador apresentou trabalhos que analisam sistemas agrivoltaicos aplicados a diferentes culturas, entre elas pimentas e tomate-cereja.

Um dos estudos comparou cultivos sob estruturas agrivoltaicas com sistemas convencionais. Os dados exibidos indicaram produção três vezes maior para a pimenta-silvestre e duas vezes maior para o tomate-cereja nas condições avaliadas. No caso da pimenta-jalapeño, a produção ficou praticamente no mesmo nível.

Os resultados também apontaram diferenças na eficiência hídrica, com aumento de 157% para a pimenta-jalapeño e de 65% para o tomate-cereja. Os números, no entanto, correspondem às condições específicas avaliadas pelo estudo e não devem ser interpretados como ganhos aplicáveis automaticamente a qualquer projeto agrivoltaico.

As possibilidades discutidas também envolvem o aproveitamento da eletricidade gerada pelos módulos fotovoltaicos em outros processos dentro da própria cadeia agropecuária.

Bergier citou, entre os exemplos, processos de eletrólise e o desenvolvimento de sistemas voltados à produção local de insumos agrícolas, incluindo fertilizantes. A proposta considera aplicações que poderiam variar de soluções menores a estruturas destinadas a grandes produtores de grãos.

“Na agricultura, você tem tanto a questão do sombreamento, que pode ser benéfico em alguns horários do dia para aumentar a produtividade, como também a possibilidade de explorar a energia elétrica para a produção de hidrogênio e amônia, utilizada na produção de fertilizantes, reduzindo a dependência do Brasil desses insumos importados. O sistema agrivoltaico, de modo geral, tem a perspectiva de gerar um impacto muito grande na produtividade dos sistemas rurais” acrecsentou.

Agrivoltaico também pode chegar à pecuária

As aplicações discutidas durante o Fórum não ficaram restritas às lavouras. Bergier e Andriolli abordaram as possibilidades de utilização dos sistemas agrivoltaicos na pecuária.

Bergier demonstrou aplicações especialmente em áreas de confinamento, onde estruturas fotovoltaicas poderiam ocupar espaços atualmente descobertos, combinando a geração de eletricidade com o fornecimento de sombra aos animais.

Andriolli também destacou o sombreamento como uma possibilidade de integração entre a geração fotovoltaica e a criação de animais, principalmente pelos possíveis efeitos sobre o conforto térmico.

“Quando falamos de sistemas integrados agrivoltaicos, estamos falando também da pecuária, dando como exemplo o conforto animal, com um sombreamento parcial para o gado, onde você consegue diminuir a temperatura”, afirmou Andriolli.

A partir dessa aplicação, Bergier apontou a necessidade de avaliar como a presença das estruturas pode influenciar o desempenho e a produtividade dos animais. Entre os aspectos que podem ser estudados estão o ganho de peso diário e possíveis reflexos sobre a carcaça no frigorífico.

Além disso, Bergier mencionou trabalhos internacionais que analisam os efeitos do sombreamento proporcionado pelas estruturas fotovoltaicas sobre os animais, incluindo pesquisas relacionadas à redução do estresse térmico.

Apesar das possibilidades apresentadas para lavouras e pecuária, Bergier ressaltou que a expansão das aplicações agrivoltaicas depende de estudos capazes de determinar como cada sistema deve ser dimensionado e adaptado às diferentes culturas, condições climáticas e atividades agropecuárias.

“Acredito que tem que haver pesquisas nessa questão de como dimensionar e como fazer com que os sistemas sejam adaptados para essas funções”, disse Bergier.

Bergier também mencionou a necessidade de capacitação, financiamento à pesquisa e políticas públicas capazes de incentivar o desenvolvimento e a adoção dessas soluções.

Para o pesquisador, projetos-piloto e avaliações em diferentes condições serão importantes para compreender a viabilidade das aplicações e contribuir para a evolução da tecnologia nos próximos anos destacou a importância de ampliar a cooperação entre instituições de pesquisa para o desenvolvimento de novas soluções agrivoltaicas no país.

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Caique Amorim
Sobre o autor
Caique Amorim

Estudante de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Tenho experiência na produção de matérias jornalísticas.

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