O curtailment deverá permanecer como um dos principais desafios para a geração solar e eólica no Brasil nos próximos anos. Embora existam perspectivas de melhora a partir de 2029, geradores terão de incorporar os cortes de produção às decisões de investimento, à contratação de energia e à operação dos ativos.
O cenário foi debatido nesta quarta-feira (26) durante o painel “Energia solar fotovoltaica em grande escala: investimentos, desempenho e operação sob cenários de curtailment”, realizado na Intersolar South America, em São Paulo.
Participaram da discussão representantes da DNV, S&P Brasil, Aurora Energy Research, Voltalia Energia do Brasil, Newave Energia e especialistas do setor.
O diretor de Engenharia e Construção da Newave Energia, Anderson Penha, afirmou que o crescimento acelerado das restrições surpreendeu os agentes. Quando a empresa tomou a decisão de investir em seus projetos, em 2023, os cortes representavam menos de 2% da geração renovável. Em 2025, esse percentual teria superado 20%, com possibilidade de chegar a 25% em 2026.
A Newave possui 883 MWp de capacidade solar em operação nos complexos Arinos, em Minas Gerais, e Barro Alto, em Goiás. Os empreendimentos contam, respectivamente, com 77% e 72% da energia contratada por meio de PPAs. Essa estratégia de comercialização foi necessária para se proteger dos prejuízos causados pelos cortes de geração.
Diante do aumento das restrições, a companhia criou um comitê específico para acompanhar semanalmente o curtailment. As medidas adotadas incluem disciplina financeira, gestão da sazonalização e da modulação dos contratos, eficiência operacional, diversificação dos negócios e controle da exposição ao mercado.
O cenário para 2026 é considerado desfavorável devido à combinação de juros elevados, imprevisibilidade dos cortes, redução da liquidez, riscos de crédito das comercializadoras, volatilidade das receitas, aumento dos investimentos necessários e maior pressão tributária.
Além da energia já contratada, o curtailment reduz a possibilidade de comercializar a parcela descontratada da produção. Isso afeta diretamente a receita dos empreendimentos e aumenta a dificuldade de estruturar novos projetos.
As projeções da Aurora Energy Research também apontam para restrições elevadas no curto prazo. O diretor executivo da consultoria, Rodrigo Borges, estima que o curtailment médio das fontes renováveis fique entre 17% e 18% em 2026.
Caso o crescimento da demanda seja inferior ao esperado, os cortes podem alcançar 25%. Para a fonte solar, esse cenário representaria a restrição de até 40% da produção ao longo do ano.
Segundo a consultoria, não existem medidas com capacidade de reduzir substancialmente o problema antes de 2028. Por isso, a expectativa é de estabilidade do curtailment em patamares elevados no curto prazo.
A melhora deverá começar entre 2029 e 2030, com a combinação de três fatores: crescimento do consumo de energia, menor entrada de novos projetos renováveis e conclusão de obras de transmissão. A instalação de sistemas de armazenamento também deverá contribuir para absorver a produção excedente durante o dia.
Com esses avanços, o curtailment poderá cair pela metade até 2030. Ainda assim, a Aurora projeta que os cortes devem se estabilizar entre 8% e 9% nos anos seguintes, indicando que o problema não será completamente eliminado.
Baterias podem reduzir cortes para 4%
A expansão do armazenamento foi apontada como uma das principais estratégias para melhorar o desempenho dos projetos solares e eólicos. As baterias podem armazenar parte da energia produzida durante os períodos de sobreoferta e disponibilizá-la no início da noite, quando ocorre a rampa de crescimento da carga líquida.
Essa operação também pode reduzir a exposição dos geradores aos riscos de modulação e à volatilidade dos preços. Ao deslocar a energia para horários de maior demanda, o armazenamento permite melhorar o perfil de comercialização dos empreendimentos.
A Aurora estima que o primeiro leilão de baterias poderá contratar entre 4 GW e 5 GW. Esse volume ajudaria a reduzir o curtailment, mas seria insuficiente para levar as restrições aos menores patamares projetados.
Para que os cortes caiam para aproximadamente 4% no médio prazo, seriam necessários cerca de 15 GW em sistemas de armazenamento.
A Newave também considera as baterias essenciais para enfrentar o déficit de potência estimado em 5,5 GW em 2028, concentrado no período de ponta noturna. O armazenamento poderia transferir parte da produção solar excedente do dia para esse horário, contribuindo simultaneamente para reduzir o curtailment e atender às necessidades do sistema.
Na avaliação da Newave, as condições atuais oferecem pouca viabilidade para novos empreendimentos solares em 2026 e 2027. Nesse período, as principais oportunidades podem estar concentradas em operações de fusões e aquisições, com a compra de ativos pertencentes a empresas sob pressão financeira.
A perspectiva é de que esse ciclo possa começar a se inverter em 2028, impulsionado pela entrada das baterias, pelo crescimento da carga e pela necessidade de contratar potência para o sistema.
A retomada dos investimentos dependerá, contudo, do aumento efetivo do consumo de energia. Sem a expansão da demanda, a entrada de novos projetos solares e eólicos pode agravar a sobreoferta em determinados horários.
No longo prazo, a Aurora projeta uma necessidade de aproximadamente 120 GW em novos projetos até 2040. Grande parte dessa expansão deverá ocorrer a partir de 2030, em um ritmo próximo de 12 GW por ano, demandando cerca de R$ 358 bilhões em investimentos em novas fontes renováveis.
Curtailment passa a ser considerado custo estrutural
O vice-presidente da Voltalia Energia do Brasil, Márcio Trannin, avaliou que o curtailment deixou de ser uma exceção operacional e passou a representar um custo estrutural da transição energética.
A companhia possui 1,3 GW de capacidade instalada no país e busca experiências internacionais para adaptar seus projetos ao novo cenário. Diferentes mercados adotaram soluções distintas para lidar com o crescimento das restrições, incluindo ressarcimento aos geradores, sinais econômicos, preços locacionais, serviços ancilares e programas de resposta da demanda.
Para a Voltalia, o Brasil continua reunindo condições atrativas para investimentos, como o tamanho do mercado consumidor, o baixo consumo de energia por habitante e a estabilidade institucional e regulatória. No entanto, será necessário apresentar uma solução clara para um problema que não existia com essa intensidade quando muitos projetos foram estruturados.
O termo de compromisso estabelecido para tratar os custos passados oferece alguma previsibilidade aos investidores, mas ainda será necessário definir como serão tratados os cortes ocorridos após novembro de 2025 e durante o período de transição para as novas regras.
A empresa acredita que o nível de curtailment poderá cair no futuro com a adoção de medidas estruturais, incluindo baterias, expansão da transmissão, fontes flexíveis e mudanças na formação de preços e tarifas. Até lá, os geradores terão de incluir as perdas projetadas na formação dos preços dos contratos.
Na prática, uma das formas de precificar o curtailment será reduzir o volume de energia comprometido nos PPAs, evitando que o empreendimento venda uma produção que poderá não ser entregue devido às restrições operativas.
Mercado cobra clareza regulatória
A ausência de regras definitivas sobre a classificação e o ressarcimento do curtailment foi apontada como um dos principais obstáculos à retomada dos investimentos.
A Voltalia considera que os agentes conseguem incorporar os cortes à precificação dos projetos, desde que exista clareza sobre quais riscos ficarão sob responsabilidade dos geradores. Sem essa definição, torna-se mais difícil projetar receitas, estruturar financiamentos e decidir sobre novos empreendimentos.
A regulamentação também será importante para viabilizar o leilão de baterias. Segundo a Aurora, o mercado precisa saber como os custos da contratação serão divididos entre os consumidores e agentes responsáveis pelo pagamento.
A falta de clareza pode provocar questionamentos jurídicos e comprometer o certame. Para os participantes do painel, uma eventual judicialização prejudicaria tanto a expansão do armazenamento quanto a redução do curtailment.
Além das baterias, a resposta da demanda foi apontada como uma ferramenta necessária para lidar com a sobreoferta de geração renovável.
A engenheira sênior em energia solar da DNV, Nathalia Ferrari, defendeu a implementação de mecanismos que incentivem consumidores a deslocar o consumo para os horários em que há maior disponibilidade de energia solar e eólica.
A falta de sinais econômicos adequados reduz o interesse dos consumidores em alterar seus padrões de consumo. Em outros mercados, preços horários e programas específicos remuneram a flexibilidade da demanda e ajudam a equilibrar o sistema.
Na avaliação da Voltalia, uma revisão mais ampla do marco regulatório e da estrutura tarifária poderia criar esses incentivos. Com preços mais aderentes às condições da operação, consumidores poderiam aumentar a demanda durante períodos de excedente e reduzi-la nos horários mais críticos.
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