A queda no preço dos módulos fotovoltaicos e das baterias tornou a combinação entre geração solar e armazenamento “imbatível”, na avaliação de Eike Batista.
Em entrevista ao Canal Solar, o empresário apontou as baterias de sódio como uma das próximas fronteiras do setor e projetou que o avanço das tecnologias limpas deverá reduzir gradualmente a participação do petróleo na matriz energética e nos transportes.
“É game over para o petróleo”, afirmou Eike. Segundo ele, a commodity poderá ser negociada abaixo de US$ 30 em 2030, pressionada pela ampliação da oferta global e pela crescente competitividade da energia solar associada ao armazenamento.
Ao longo da entrevista, o empresário também relacionou a disponibilidade de energia à disputa entre China e Estados Unidos pela liderança em inteligência artificial, falou sobre o avanço dos veículos elétricos, relembrou um encontro com Elon Musk e apresentou suas apostas em biotecnologia, Supercana e robôs humanóides.
As projeções, estimativas e opiniões apresentadas durante a entrevista representam a visão de Eike Batista. Os dados de contexto exibidos no vídeo foram apresentados pelo Canal Solar com as respectivas fontes.
Queda dos custos favorece solar com baterias
Para Eike, a redução acumulada dos preços dos equipamentos fotovoltaicos e dos sistemas de armazenamento modificou a viabilidade econômica de projetos capazes de gerar e armazenar a própria energia.
O empresário afirmou que não recomendaria esse investimento há um ou dois anos, mas que a evolução tecnológica e a queda dos custos mudaram sua avaliação.
“Se você for uma pessoa que estuda e faz cálculos, está imbatível fazer um sistema de energia solar com baterias hoje. Eu não recomendaria isso um ou dois anos atrás”, declarou.
Na visão de Eike, a redução dos preços abre novas possibilidades para sistemas residenciais, propriedades rurais e empreendimentos off-grid, especialmente em locais com área disponível para a instalação dos módulos.
“Os painéis solares estão cada vez mais eficientes e caíram mais de 90% de preço. Outro fenômeno para acoplar nessa conversa é que as baterias também caíram mais de 90%”, afirmou.
Durante a entrevista, ele estimou em aproximadamente R$ 1 mil por MWh o custo da energia produzida por um sistema solar associado a baterias de nova geração. Como comparação, citou um custo próximo de R$ 2 mil por MWh para a geração a diesel.
“Solar com essas baterias de última geração: R$ 1 mil o MWh. Então, solar com baterias pode fazer um sistema off-grid. O problema era que as baterias eram muito caras”, disse.
Os valores podem variar conforme a dimensão do projeto, a aplicação, o perfil de consumo, o custo dos equipamentos, a localização e as condições de financiamento.
Eike também estimou que um sistema residencial poderia recuperar o investimento em aproximadamente cinco anos e permanecer em operação por um período entre 25 e 30 anos.
“Você se pagou em cinco anos. Depois disso, tem 25 anos de energia de graça”, afirmou.
Eike aposta nas baterias de sódio
Entre as tecnologias de armazenamento, Eike destacou as baterias de íons de sódio como alternativa para aplicações estacionárias.
Segundo o empresário, a utilização de um insumo mais abundante e a ampliação da produção industrial podem contribuir para a redução dos custos. Ele citou a construção de fábricas na China e mencionou fabricantes como CATL e BYD entre as empresas que avançam nessa tecnologia.
“Essa combinação do painel solar, cada vez mais barato e eficiente, com esse conjunto de baterias novas é imbatível. Essa é a fonte de energia do futuro”, declarou.
Na avaliação de Eike, a China ainda absorve grande parte da produção inicial das baterias de sódio. No mercado brasileiro, observou, a tecnologia de íons de lítio permanece como a opção disponível em maior escala.
“Os chineses estão absorvendo a maior parte porque são os grandes produtores e estão instalando esses sistemas na China. Não sei quando estarão disponíveis para nós aqui”, disse.
Eike também afirmou acreditar que as baterias de sódio poderão alcançar vida útil de até 100 anos. “As baterias de sódio duram 100 anos. Vou repetir: 100 anos”, declarou.
A projeção foi apresentada pelo empresário ao defender que a maior durabilidade, a disponibilidade de matéria-prima e o aumento da escala industrial poderão tornar o armazenamento mais competitivo.
Energia pode definir a corrida pela inteligência artificial
A expansão da inteligência artificial e dos data centers deverá aumentar a importância estratégica da oferta de eletricidade.
Para Eike, a capacidade de gerar energia em grande escala será um dos fatores determinantes na disputa tecnológica global. “Quem ganhar a corrida de geração de energia ganha a corrida da inteligência artificial”, afirmou.
Ao comparar China e Estados Unidos, o empresário avaliou que a escala industrial e energética chinesa coloca o país em posição de vantagem. “É impossível competir com a China na capacidade de gerar mais energia. Por esse ponto, os Estados Unidos já perderam”, declarou.
Segundo Eike, a China combina a fabricação de equipamentos de geração com a expansão da energia solar e a construção de novas usinas, incluindo empreendimentos a carvão. Em sua avaliação, os Estados Unidos ainda possuem vantagem em determinados semicondutores, mas enfrentam limitações na expansão da infraestrutura energética.
“Em relação aos chips mais eficientes, dizem que os Estados Unidos ainda têm uma vantagem. Mas, na corrida para fazer o sistema funcionar, o chinês já ganhou”, afirmou.
Carros elétricos devem ampliar participação
Eike também avaliou que os veículos elétricos apresentam vantagens sobre os modelos a combustão em eficiência energética, custo por quilômetro e manutenção.
Para ele, a China construiu uma posição competitiva no mercado ao investir simultaneamente em terras raras, baterias, motores elétricos e produção automotiva. “Não dá para competir com o carro elétrico para o uso de uma pessoa física”, disse.
O empresário destacou ainda a evolução da autonomia. Segundo ele, modelos que anteriormente ofereciam alcance entre 100 km e 200 km deram lugar a veículos capazes de percorrer entre 300 km e 600 km com uma carga.
“Três anos atrás eu não recomendaria um carro elétrico. Eles ainda tinham pouca autonomia. Agora são 300 km, 400 km e há carros com 600 km”, afirmou.
Na avaliação de Eike, o custo por quilômetro rodado pode ser até cinco vezes inferior ao de um veículo movido a gasolina ou diesel, dependendo do preço da energia em cada estado.
Como exemplo, ele relatou uma conversa com um motorista que teria reduzido os gastos mensais de R$ 4,2 mil com combustível para aproximadamente R$ 600 com recarga.
Eike também destacou o potencial de segunda vida das baterias automotivas. Após perderem parte da capacidade necessária para utilização nos veículos, elas podem ser reaproveitadas em sistemas estacionários de armazenamento.
Petróleo poderá cair abaixo de US$ 30
Apesar de reconhecer a escala e a competitividade da produção brasileira, Eike prevê uma redução expressiva da cotação internacional do petróleo nos próximos anos. “Em 2030, o petróleo estará abaixo de US$ 30”, projetou.
A expectativa está relacionada à possível ampliação da oferta global e ao avanço de alternativas como energia solar, baterias e veículos elétricos.
O empresário citou as reservas venezuelanas, a produção dos Estados Unidos e as novas fronteiras exploratórias brasileiras como fatores capazes de manter elevada a disponibilidade da commodity.
“A Idade da Pedra não acabou por falta de pedra. A era do petróleo também vai acabar com muito petróleo ainda disponível”, declarou.
Apesar de falar em “adeus” ao petróleo, Eike reconheceu que a substituição dos combustíveis fósseis não será imediata. A frota global de veículos, máquinas, ônibus, tratores, locomotivas e navios, além da infraestrutura construída em torno dos derivados, deverá prolongar a utilização da fonte.
“Para substituir tudo isso serão necessários, no mínimo, 20 anos. Mas vai acontecer”, avaliou.
O encontro com Elon Musk
Durante a entrevista, Eike relembrou um encontro com Elon Musk ocorrido em 2008, antes da consolidação da Tesla e da SpaceX.
Segundo o empresário brasileiro, Musk esteve em sua casa em um momento no qual ainda enfrentava dificuldades financeiras. Eike afirmou que havia acabado de receber US$ 3,8 bilhões relacionados a uma negociação com a Anglo American, enquanto Musk teria aproximadamente US$ 30 milhões disponíveis.
“Ele estava na minha frente com US$ 30 milhões, e eu com US$ 3,8 bilhões. Ele não me pediu dinheiro. Que pena”, contou.
Eike disse que também não propôs investir nos negócios de Musk porque, naquele momento, ainda não acompanhava de perto a SpaceX.
“Eu também não pedi uma parte da empresa dele. Em 2008, ninguém sabia direito o que era a SpaceX. Eu não estava seguindo tão de perto”, relatou.
De acordo com sua lembrança, Musk recebeu pouco tempo depois um contrato da NASA que contribuiu para a continuidade da empresa aeroespacial.
Supercana e novos negócios
Ao falar sobre suas iniciativas atuais, Eike apontou a biotecnologia aplicada à cana-de-açúcar como uma oportunidade para o Brasil. O empresário afirmou trabalhar com uma variedade chamada Supercana, que, segundo ele, pode produzir até três vezes mais etanol e até 11 vezes mais bagaço.
“A nossa Supercana produz até três vezes mais etanol e até 11 vezes mais bagaço. Mas não é para fazer apenas etanol ou açúcar. É para ajudar a substituir o plástico”, disse.
A estratégia é utilizar o bagaço na fabricação de canudos, embalagens e outros produtos de maior valor agregado, em vez de destiná-lo exclusivamente à geração de energia. “O bagaço muitas vezes é desperdiçado ou queimado para gerar energia, mas é um produto muito nobre para ser queimado”, avaliou.
Para Eike, o Brasil pode combinar sua capacidade de produção de biomassa com equipamentos e tecnologias industriais desenvolvidos na China. A matéria-prima seria cultivada no país e transformada em produtos destinados à substituição de embalagens plásticas.
Robôs humanoides e o futuro do trabalho
Outro tema abordado foi a expansão da inteligência artificial para o mundo físico, por meio de robôs capazes de realizar atividades industriais, domésticas e de prestação de serviços.
Eike acredita que a chamada superinteligência poderá surgir até 2030 e acelerar o desenvolvimento de robôs humanoides. “Quando chegarmos à superinteligência, um robô vai fabricar outro robô”, afirmou.
Segundo ele, a automação poderá ajudar empresas a enfrentar a falta de trabalhadores em áreas como construção civil, manutenção e serviços. Ao mesmo tempo, deverá provocar mudanças profundas no mercado de trabalho. “O robô vai tirar o meu emprego, o nosso emprego”, disse.
Ao ser questionado sobre qual seria o papel dos seres humanos diante de máquinas mais avançadas, Eike respondeu de forma provocativa: “Nós vamos ser os macacos. Os humanoides vão olhar para mim como eu olho para um macaco ignorante”, pontuou.
Na visão apresentada durante a entrevista, empresas que controlarem a fabricação, o software e as atualizações dos robôs poderão concentrar parte relevante da mão de obra global.
Apesar dos possíveis impactos sobre o emprego, Eike avalia que a automação poderá elevar a produtividade, ampliar a oferta de produtos e acelerar avanços em áreas como medicina e serviços.
Assista à entrevista completa no Canal Solar
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