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Artigo de Opinião

Painéis solares não são lixo: o desafio da economia circular na transição energética

Brasil precisa deixar de enxergar módulos fotovoltaicos no fim da vida útil como um problema e tratá-lo como uma fonte de matérias-primas

Painéis solares não são lixo: o desafio da economia circular na transição energética

Foto: Canva

Uma das críticas que começam a ganhar espaço à medida que a energia solar cresce no Brasil é simples: o que faremos com milhões de painéis fotovoltaicos quando chegarem ao fim de sua vida útil?

A preocupação é legítima. O erro está em transformar essa pergunta em uma conclusão: a de que os painéis solares seriam um enorme passivo ambiental da transição energética. Não necessariamente.

O painel fotovoltaico não precisa terminar sua vida como lixo. Ele pode voltar para a cadeia produtiva. Essa é justamente a lógica da economia circular.

Do descarte à matéria-prima

Um módulo fotovoltaico de silício cristalino é formado principalmente por vidro, alumínio, polímeros, silício e diferentes metais. Quando deixa de produzir energia adequadamente, esses materiais continuam existindo. O que muda é sua função.

O alumínio pode ser recuperado. O vidro pode retornar à indústria. Cabos e componentes podem ser separados. Metais como cobre e prata possuem valor econômico. O silício também pode ser recuperado e direcionado para outras etapas de processamento.

O CETEM (Centro de Tecnologia Mineral) já identifica esses materiais entre aqueles que podem ser recuperados dos módulos fotovoltaicos. Portanto, o verdadeiro problema não é a existência do resíduo. É o que fazemos com ele.

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Se o painel for simplesmente abandonado ou enviado para uma destinação inadequada, teremos um resíduo. Se houver coleta, triagem, desmontagem, processamento e reinserção dos materiais na cadeia produtiva, teremos matéria-prima secundária. É uma diferença fundamental.

A crítica de que “painel solar não é reciclável” Outra crítica recorrente afirma que os módulos fotovoltaicos não são recicláveis.Isso também precisa ser relativizado.

A reciclagem existe e já está acontecendo no Brasil. Um exemplo é a SunR, empresa criada em 2020 para atuar especificamente com logística reversa e reciclagem de módulos fotovoltaicos. A empresa informa já ter gerenciado mais de 190 mil módulos e mais de 6 mil toneladas contratadas para reciclagem, com atuação em todo o território nacional.

Sua estrutura de processamento está em Valinhos (SP) e Montes Claros (MG), apoiada por uma rede logística nacional. Mais importante: a SunR desenvolveu no Brasil uma tecnologia de processamento 100% mecânica, com máquinas próprias automatizadas. A empresa informa eficiência superior a 80% na recuperação de matérias-primas.

E há um detalhe que simboliza a transformação desse mercado: existe pedido de patente da empresa registrado no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial). Ou seja, aquilo que poderia ser tratado como um problema ambiental começa a gerar tecnologia, inovação, empresas e novos negócios. Nem tudo precisa ser recuperado no mesmo processo

É importante também não cair no extremo oposto e afirmar que 100% dos materiais de um módulo são imediatamente recuperados. A própria experiência da SunR mostra que existem diferentes etapas.

Segundo reportagem da Pesquisa FAPESP, depois da retirada da estrutura de alumínio, componentes elétricos e conectores, os módulos passam por trituração e separações que permitem obter frações de vidro, alumínio, plástico e metais.

Uma mistura metálica contendo silício, prata, cobre, estanho e outros elementos é encaminhada para empresas que possuem processos específicos para a recuperação desses materiais.

Essa é uma característica importante da economia circular: um único processo não precisa necessariamente recuperar tudo. O objetivo é fazer com que o maior volume possível de materiais encontre uma nova utilização econômica.

O custo do descarte está diminuindo?

Algumas empresas do setor ainda relatam custos elevados para a destinação dos módulos. Isso é compreensível.

A logística reversa de um país continental como o Brasil tem um desafio evidente: transportar materiais de baixo valor relativo por longas distâncias pode comprometer a viabilidade econômica da reciclagem. Mas esse mercado está se organizando.

A existência de empresas com cobertura nacional, pontos e rotas de coleta, processamento mecanizado e capacidade de separar e comercializar diferentes materiais tende a transformar a economia dessa atividade. E esse talvez seja o ponto mais importante.

Não precisamos esperar que o problema se torne gigantesco para começar a construir a solução. A solução já começou.

A legislação brasileira também precisa evoluir

O Brasil possui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que estabeleceu conceitos como responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e logística reversa.

Mas é preciso cuidado ao afirmar que existe hoje uma regulamentação específica e completa para todos os módulos fotovoltaicos.

O Decreto nº 10.240/2020 regulamentou a logística reversa obrigatória de produtos eletroeletrônicos e seus componentes de uso doméstico, mas exclui produtos de uso não doméstico. Isso é particularmente relevante para grandes usinas fotovoltaicas.

Portanto, existe uma agenda regulatória importante a ser enfrentada.

Se o Brasil pretende continuar expandindo fortemente a geração solar, deveria também estruturar uma política clara para o fim de vida dos módulos fotovoltaicos, definindo responsabilidades, rastreabilidade, logística reversa, metas de recuperação e estímulos à reciclagem.

Da transição energética à transição circular

A transição energética não pode significar apenas substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis. Precisamos olhar para todo o ciclo de vida das tecnologias. De onde vêm os minerais? Como os equipamentos são fabricados? Quanto tempo permanecem em operação? Podem ser reparados ou reutilizados? Como serão recolhidos? Como serão desmontados? E quais materiais retornarão à indústria?

É essa visão que transforma a transição energética em transição energética circular. O painel fotovoltaico pode passar décadas produzindo eletricidade a partir da luz do sol. Quando não tiver mais condições de continuar fazendo isso, seus materiais ainda poderão ter uma segunda vida.

Empresas como a SunR demonstram que isso não é apenas uma possibilidade teórica. É uma cadeia que já começa a ser construída no Brasil, com tecnologia nacional, logística reversa e mercado para os materiais recuperados.

O desafio agora é fazer essa cadeia crescer na mesma velocidade que cresce a energia solar.Porque o futuro da energia não pode ser apenas renovável. Ele também precisa ser circular.

As opiniões e informações expressas são de exclusiva responsabilidade do autor e não obrigatoriamente representam a posição oficial do Canal Solar.

Renato Zimmermann
Sobre o autor
Renato Zimmermann

Mentor, Palestrante e Ativista em Sustentabilidade. Membro do INEL Instituto Nacional de Energia Limpa.

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