O mercado de energia já começa a operar em estado de alerta diante da possibilidade de formação de um El Niño no segundo semestre deste ano.
Modelos climáticos monitorados pela NOAA (National Oceanic and Atmospheric) indicam 82% de probabilidade de formação do fenômeno entre maio e julho e 96% de chance de permanência ao longo do verão de 2026/2027.
O NOAA é uma agência científica do governo dos Estados Unidos que monitora o clima e os oceanos, sendo frequentemente consultada no Brasil para previsões meteorológicas e fenômenos climáticos globais (como o El Niño).
Um dos principais efeitos do fenômeno climático sobre o setor elétrico é o aumento do consumo de energia provocado pelas temperaturas mais elevadas. Além disso, o El Niño tende a reduzir o volume de chuvas nas regiões Norte e Nordeste e atrasar o início do período úmido no Sudeste e Centro-Oeste.
Carga e hidrologia são fatores fundamentais na formação do preço da energia. A combinação desses efeitos, segundo profissionais do setor, aponta para um cenário de pressão sobre os preços no segundo semestre, justamente em um momento que preocupa consumidores do Mercado Livre em fase de renovação de contratos.
Nos bastidores, comercializadoras já começaram a orientar consumidores descontratados sobre esse cenário mais adverso. A recomendação tem sido antecipar o fechamento das posições antes de uma possível escalada mais forte dos preços.
O problema é que os preços já operam em patamares elevados neste ano, acima da faixa de R$ 200/MWh. Segundo informações da BBCE (Balcão Brasileiro De Comercialização De Energia), os contratos para o segundo semestre estão sendo negociados próximos de R$ 280/MWh.
Dados da Abraceel (Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia) apontam que cerca de 10 GW médios, o equivalente a 32,6% de todo o volume contratado no Mercado Livre, estão atrelados a contratos de curto e médio prazo, entre seis meses e dois anos, segundo informações publicadas pela Reuters.
“Os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste ainda operam em níveis relativamente confortáveis, mas o atraso das chuvas e as temperaturas elevadas devem acelerar o consumo dessas reservas ao longo do segundo semestre”, disse Matheus Machado, especialista em inteligência de mercado do Grupo Bolt.
“Com Norte e Nordeste enfrentando seca prolongada, aumenta a dependência do subsistema Sul, que possui predominância de usinas a fio d’água e menor capacidade de armazenamento. Esse desequilíbrio eleva a necessidade de acionamento de térmicas, pressionando o mercado spot e aumentando o custo da energia para consumidores e empresas”, completa.
Os impactos também devem ser sentidos pelos consumidores do mercado regulado. O cenário provocado pelo El Niño aumenta o risco de acionamento das bandeiras tarifárias vermelhas, adicionando custos extras à conta de luz dos brasileiros. A última vez que o país operou sob bandeira vermelha foi em novembro de 2025.
“Estamos entrando em um período sazonalmente mais seco, com tendência de queda nos níveis dos reservatórios, especialmente na região Sul, que já opera próxima do nível mínimo. Isso aumenta significativamente a probabilidade de manutenção da bandeira amarela ou até do acionamento da vermelha patamar 1 já em junho”, afirma Machado.
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