A energia solar brasileira acumulou capacidade, investimentos e uma extensa cadeia de equipamentos espalhados pelo território, mas começa agora a se deparar com uma pergunta que tende a ganhar peso nos próximos anos, ou seja, o que fazer com tudo isso quando chegar ao fim da vida útil.
A reciclagem dos módulos fotovoltaicos dominou o debate final do painel “A cadeia de valor da energia solar FV em um contexto global em transformação”, realizado nesta quinta-feira, 27, no terceiro e último dia da Intersolar South America Conference, em São Paulo.
E, se o descarte e o reaproveitamento dos painéis já se apresentam como uma questão urgente, os participantes indicaram que a próxima fronteira será ainda mais complexa, que é a reciclagem e a reutilização das baterias que começam a ganhar espaço no sistema elétrico brasileiro.
A discussão partiu de uma provocação apresentada pela especialista em logística reversa Priscila Alves dos Santos, consultora da Eco Desenvolve. A cadeia fotovoltaica cresceu rapidamente, mas a economia circular ainda não acompanhou a expansão.
Em sua apresentação, ela questionou o destino futuro dos 74 GW de capacidade instalada existente no Brasil e dos milhões de equipamentos que, em algum momento, precisarão ser reparados, reutilizados ou descartados.
Projeto de Lei quer tornar obrigatória a logística reversa de painéis solares e baterias
Segundo Priscila, o problema não se limita aos módulos que chegam naturalmente ao fim de sua vida útil. Eventos climáticos, como granizo e ventos intensos, também podem antecipar o descarte e transformar volumes aparentemente pequenos em um desafio logístico de grandes proporções.
A preocupação, segundo ela, é evitar que o setor resolva o problema da geração limpa criando, no futuro, um passivo ambiental.
A especialista relatou já ter identificado módulos sendo destinados a aterros e chamou atenção para a falta de informação e de estrutura para orientar instaladores, distribuidores, cooperativas e consumidores.
“A gente está esquecendo de resolver o problema da destinação final” dessa cadeia, resumiu, ao defender uma visão que considere o equipamento desde sua fabricação até o descomissionamento.
O potencial econômico, porém, também foi um dos pontos centrais. Priscila destacou que cerca de 97% de um módulo fotovoltaico pode ser reciclado, incluindo materiais como vidro, alumínio, polímeros, silício, cobre e prata.
O desafio brasileiro, na sua avaliação, não é a inexistência de materiais com valor, mas a ausência de uma cadeia industrial estruturada para coletá-los, processá-los e reinseri-los em novos mercados.
Do “gotejamento” ao boom dos resíduos
Por enquanto, o setor ainda vive o que Priscila classificou como uma fase de “gotejamento”: módulos e outros equipamentos chegam ao fim de sua utilização de forma dispersa, sem volume suficiente para justificar, em muitos casos, uma grande estrutura de processamento.
Essa realidade, no entanto, deve mudar à medida que os primeiros sistemas instalados no país envelhecerem e começarem a perder eficiência.
A projeção apresentada por ela é de que, entre 2035 e 2044, o volume de equipamentos destinados a uma segunda vida ou ao descarte comece a aumentar de forma mais significativa, com um pico posterior.
As estimativas citadas no painel apontam para centenas de milhares de toneladas de materiais fotovoltaicos no Brasil, podendo alcançar volumes ainda maiores à medida que a geração solar amadurece.
A janela para estruturar essa cadeia, portanto, ainda estaria aberta. Priscila resumiu a questão em três pontos: o parque instalado deve ser visto também como um estoque futuro de materiais; os módulos possuem elevado potencial de reciclagem; e o país precisa se preparar antes que o volume de resíduos se transforme em um problema ambiental e logístico de escala nacional.
No debate final, a discussão avançou sobre como transformar essa necessidade em atividade econômica. Os participantes lembraram que países como a China já dispõem de processos para separar e reaproveitar materiais presentes nos módulos.
Uma unidade de reciclagem, segundo estimativa citada na discussão, poderia exigir investimento da ordem de US$ 500 mil a US$ 600 mil em uma linha de processamento, capaz de separar, entre outros componentes, silício, prata e cobre. A conclusão foi que a reciclagem pode deixar de ser apenas uma obrigação ambiental e se tornar uma nova etapa da cadeia de valor da energia solar.
A questão da logística, porém, permanece como um dos principais obstáculos. Não basta desenvolver a tecnologia de reciclagem; é preciso decidir onde instalar essas estruturas e como transportar equipamentos que estarão espalhados pelo país. Para Priscila, o Brasil precisa desenvolver polos regionais e identificar onde estarão os maiores volumes futuros, em vez de simplesmente coletar os equipamentos e enviá-los para outros países.
Baterias entram na agenda da economia circular
Se os módulos representam o problema que já começa a aparecer, as baterias surgem como a próxima grande onda. A discussão foi estimulada pela expansão esperada dos sistemas de armazenamento e pela possibilidade de reaproveitamento de equipamentos antes da destinação final.
A cadeia de baterias chumbo-ácido foi citada pela CEO da Secpower, Gabriela Reigada, como um exemplo de modelo mais maduro, apoiado em obrigações de recolhimento, reciclagem e rastreabilidade.
Já as baterias de lítio ainda não dispõem de uma estrutura equivalente plenamente consolidada. Ao mesmo tempo, a expansão dos veículos elétricos pode ampliar consideravelmente a disponibilidade futura desses equipamentos.
Uma das possibilidades discutidas é justamente a segunda vida. Baterias utilizadas em veículos, submetidas a condições mais exigentes, podem ainda manter capacidade suficiente para aplicações estacionárias.
No debate, foi mencionado o caso de uma bateria automotiva recebida para estudo e possível remontagem em uma solução estacionária. Depois dessa etapa, o desafio passaria a ser a separação das células que efetivamente não tenham mais condições de utilização e sua destinação final, completando um ciclo que pode envolver uma segunda e até terceira vida.
Armazenamento já fecha a conta
Antes de o painel culminar na questão da economia circular, as apresentações mostraram como as baterias estão deixando de ser apenas uma tecnologia prospectiva para se tornar parte da equação econômica da energia solar.
Rubens Brandt, do Grupo Energia Consult, apresentou dois estudos de caso. No primeiro, analisou diferentes alternativas para atender, de forma contínua, um consumidor com carga plana de 300 MW no Sudeste. A comparação envolveu solar, eólica e solar associada a armazenamento.
A conclusão apresentada foi que, ao considerar o custo necessário para modular a geração variável, uma planta solar com BESS já pode alcançar competitividade para entregar energia de forma contínua.
O segundo caso tratou de complexos logísticos. A análise começou com a hipótese de uma solução integrada para todo o empreendimento, mas indicou que, dadas as diferenças de consumo e de área disponível nos telhados, a melhor estratégia poderia ser individualizar os projetos por galpão ou consumidor.
Os resultados, segundo Brandt, já apontavam taxas de retorno capazes de justificar os investimentos, somando redução de custos e melhoria da qualidade do fornecimento.
Para ele, uma das principais virtudes do armazenamento está na rapidez de resposta. Em sistemas sujeitos a oscilações, a bateria pode assumir a carga quase instantaneamente e funcionar como uma ponte até que outra fonte entre em operação.
Brandt defendeu que o armazenamento deve ser dimensionado de acordo com a necessidade específica do sistema, sem transformar automaticamente a duração das baterias em um objetivo em si.
BESS como resposta ao curtailment
Mariana Goudel, diretora de Vendas para América do Sul da Trina Storage, concentrou sua apresentação na capacidade do armazenamento de recuperar parte da energia renovável perdida em razão das restrições de geração.
Ela citou dados de agosto apresentados durante o painel segundo os quais 1,34 TWh de geração solar haviam sido frustrados até o dia 25 daquele mês. Em julho, segundo os números mencionados, aproximadamente 30% da energia solar gerada para o sistema havia sido objeto de corte.
Para Mariana, esse cenário evidencia que o problema deixou de ser apenas uma discussão teórica sobre a expansão das renováveis e passou a afetar diretamente a economia dos projetos.
BESS, explicou, permite deslocar a energia no tempo porque absorve potência quando há restrição e devolve a eletricidade posteriormente. O objetivo não seria necessariamente eliminar todo o curtailment — o que poderia exigir um sistema excessivamente caro —, mas encontrar o dimensionamento que capture a parcela economicamente mais valiosa da energia que seria perdida.
Para projetos utility scale, ela apontou que sistemas com duas a três horas de duração podem ser adequados em determinados casos, mas ressaltou que não existe uma solução padronizada.
Localização, perfil dos cortes, potência e janela de descarga precisam ser considerados individualmente. A experiência chilena foi citada como exemplo de mercado que enfrentou problema semelhante e passou a incorporar, de forma crescente, a combinação entre solar e armazenamento.
Oportunidade para a indústria nacional
Gabriela Reigada, da Sec Power, trouxe a discussão para outro elo da cadeia, no que tange a quanto valor o Brasil conseguirá capturar com a expansão do armazenamento.
Sua tese foi a de que a indústria nacional não precisa, necessariamente, reproduzir toda a cadeia asiática ou tentar fabricar localmente cada componente, como as células.
O caminho seria identificar os segmentos nos quais o país pode ser competitivo, combinando tecnologia internacional, engenharia nacional e produção local.
A própria empresa, segundo ela, apresentou como exemplo uma linha de montagem de baterias de lítio-ferro-fosfato instalada em Cambuí, Minas Gerais, além da produção de equipamentos elétricos e de controle em São Paulo.
Gabriela também destacou a redução do CAPEX dos sistemas de armazenamento e a perspectiva de crescimento do mercado brasileiro. Entre os pontos que, ressaltou, definirão o aproveitamento dessa oportunidade estão uma regulação capaz de reconhecer e remunerar a flexibilidade, a definição do espaço da indústria local, a associação cada vez maior entre geração distribuída e baterias e a qualificação de mão de obra.
Ao final, o painel, que teve moderação de Daniel Pansarella, vice-presidente de Cadeia Produtiva da Absolar, percorreu praticamente toda a trajetória de valor da energia solar: geração, armazenamento, competitividade, indústria, operação e, por último, o destino dos equipamentos.
E foi justamente nesse ponto que surgiu uma das mensagens mais fortes do debate. O Brasil, segundo a discussão, já possui material, conhecimento técnico e fontes de financiamento para inovação. O que ainda falta é transformar essas peças em cadeias produtivas e modelos de negócio. A reciclagem dos módulos pode ser a primeira grande oportunidade, ou seja, a segunda vida e a reciclagem das baterias, o próximo capítulo.
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