Este é o sexto artigo da série sobre a imersão que realizei no setor elétrico australiano em maio de 2026. Nos textos anteriores, tratei da necessidade de uma visão sistêmica da transição energética, da evolução institucional e regulatória, da transformação da rede, dos recursos energéticos distribuídos e, mais recentemente, do papel das baterias como ativos capazes de capturar diferentes fontes de valor.
Neste artigo, quero avançar mais um passo nessa discussão. Uma das coisas que mais me chamou atenção durante a missão na Austrália foi perceber que a volatilidade de preços não aparecia nas conversas apenas como um problema a ser eliminado. Em diferentes reuniões, ela apareceu também como uma informação econômica relevante para o funcionamento de um sistema elétrico cada vez mais renovável.
Essa distinção é importante. Em um sistema com elevada participação de fontes variáveis, haverá momentos de abundância de energia e momentos em que outros recursos serão necessários para equilibrar oferta e demanda. Se o mercado consegue traduzir essas diferentes condições em sinais econômicos, abre-se espaço para que baterias, resposta da demanda e outros recursos flexíveis reajam a elas.
Na Austrália, essa lógica aparece no próprio desenho do NEM (National Electricity Market). Desde 2021, despacho e liquidação financeira estão alinhados em intervalos de cinco minutos. Quando promoveu essa mudança, a AEMC (Australian Energy Market Commission) foi bastante explícita sobre seu objetivo: aproximar o sinal de preço da realidade física do sistema e criar melhores incentivos para tecnologias de resposta rápida, entre elas baterias e resposta da demanda.
Durante a nossa visita à Origin Energy Limited, essa dinâmica deixou de ser uma discussão abstrata. A empresa opera uma mesa de trading 24 horas por dia, ajustando ofertas no mercado a cada cinco minutos e combinando a operação de seus ativos com instrumentos físicos e financeiros de gestão de risco.
Na apresentação, discutimos como a forte presença da geração solar australiana produz preços frequentemente negativos durante o dia e preços mais elevados no início da noite.
Na prática, a curva de preços começa a transmitir uma mensagem bastante clara: em determinados momentos há muita energia disponível; em outros, o sistema valoriza recursos capazes de entregar energia ou reduzir consumo rapidamente. Foi inevitável comparar essa experiência com o Brasil.
Um sistema mais dinâmico exige sinais mais dinâmicos
O sistema elétrico brasileiro também mudou profundamente. A participação das fontes eólica e solar cresceu de forma acelerada. A geração distribuída alterou o perfil da carga líquida. O curtailment tornou-se uma questão econômica relevante para os geradores. As rampas ao longo do dia ganharam importância operacional.
E agora estamos preparando a entrada, em escala, dos sistemas de armazenamento. A operação física está, portanto, muito mais dinâmica. A pergunta que deveríamos fazer é se nossos sinais econômicos estão evoluindo na mesma velocidade.
É importante reconhecer que o Brasil avançou. A introdução do PLD horário aumentou significativamente a granularidade da formação de preços em relação ao modelo anterior. Portanto, seria incorreto afirmar que nosso sinal de preço permaneceu simplesmente parado.
Mas talvez exista hoje uma distância crescente entre a velocidade da transformação física do sistema e a capacidade do preço de revelar o valor da energia e, principalmente, da flexibilidade em diferentes momentos. E essa distância importa.
Quando estive na Aurora Energy Research Limited, na Austrália, uma das discussões mais interessantes foi justamente sobre a diferença de preços ao longo do dia. O crescimento da geração solar amplia o contraste entre períodos de abundância de energia e períodos de maior escassez. Para as baterias, esse spread pode se transformar em receita por meio da arbitragem. À medida que o mercado amadurece, a composição das receitas do armazenamento também pode mudar, combinando arbitragem, serviços ancilares e diferentes estruturas contratuais.
Não significa que a volatilidade seja desejável por si mesma. Muito menos que preços extremos devam ser tratados como um objetivo de política energética. A questão é outra: o preço contém informação.
Quando existe abundância de geração solar em determinado horário, um preço muito baixo transmite um sinal para que alguém consuma mais, carregue uma bateria ou desloque uma atividade para aquele período. Quando, algumas horas depois, a geração solar desaparece e o sistema necessita de recursos adicionais, um preço mais elevado transmite a informação oposta.
A diferença entre esses dois momentos pode criar o incentivo econômico para investir justamente na flexibilidade que o sistema passou a necessitar.
Uma das lógicas que orientaram as reformas do setor de energia na Austrália fica evidente: sinais de preço alinhados à operação física tendem a produzir decisões mais eficientes de oferta, operação e investimento. Em outras palavras, o mercado procura fazer com que o incentivo financeiro apareça quando o sistema fisicamente precisa da resposta.
Preço não é apenas consequência. É incentivo. Essa talvez seja uma das diferenças conceituais que mais me interessaram na Austrália.
Estamos acostumados a olhar o preço da energia como o resultado de uma série de condições do sistema. Mas ele também pode ser visto na direção inversa: como um instrumento capaz de induzir comportamento. Essa ideia apareceu de forma muito concreta durante nossa visita à Kraken Technologies.
Ao explicar como sua plataforma utiliza flexibilidade, uma das executivas resumiu o conceito dizendo: “When we say flex, we mean control and optimize that customer’s assets.” Em tradução livre: quando falamos em flexibilidade, estamos falando da capacidade de controlar e otimizar os ativos do consumidor. A partir dessa otimização, baterias, veículos elétricos e outros recursos podem ser agregados e responder aos mercados de energia.
Mais adiante, ao apresentar um projeto de tarifa dinâmica voltado à gestão de congestionamentos da rede, a mesma executiva utilizou uma formulação ainda mais simples: “it’s just using a pricing signal to motivate behavior.”
Em outras palavras, trata-se de utilizar um sinal de preço para induzir determinado comportamento. Se uma parte da rede está congestionada, o valor oferecido pela resposta pode aumentar; consumidores ou recursos distribuídos recebem então um incentivo econômico para alterar sua produção ou consumo. É uma ideia simples, mas poderosa.
O operador pode determinar administrativamente que determinado recurso faça alguma coisa. O regulador pode criar uma obrigação. O governo pode contratar um produto específico. Ou o mercado pode, quando isso for possível e eficiente, transmitir um sinal econômico e permitir que diferentes recursos concorram para responder à necessidade do sistema.
Não são alternativas excludentes. Sistemas elétricos continuarão exigindo planejamento, regulação, contratação e comando operacional. A própria Austrália combina mercado spot com serviços ancilares, contratos, planejamento de rede e diferentes mecanismos regulatórios.
Mas a experiência australiana provoca uma pergunta relevante para o Brasil: quanto queremos que seja determinado por produtos e comandos específicos e quanto podemos deixar que sinais econômicos revelem onde existe valor?
O paradoxo brasileiro da flexibilidade
Essa questão se torna particularmente importante quando olhamos para o armazenamento. No artigo anterior desta série, argumentei que o primeiro leilão brasileiro de baterias representa um passo importante, mas que a evolução do mercado de BESS exigirá que esses ativos possam capturar diferentes fontes de receita. Agora podemos avançar nessa reflexão.
Não basta permitir que uma bateria faça arbitragem. É preciso existir um sinal econômico relevante para arbitrar. Não basta dizer que consumidores poderão ser flexíveis. É preciso que exista algum benefício econômico associado à mudança de comportamento.
Não basta afirmar que recursos distribuídos podem ajudar o sistema. É necessário transmitir a eles informação sobre quando, onde e quanto essa ajuda vale.
Essa discussão apareceu também em nossa reunião com o professor Tim Nelson, da Griffith University. Entre os pontos debatidos estavam a liquidação em intervalos de cinco minutos, a convivência com preços negativos e com um teto elevado de preços, a utilização de instrumentos de hedge para administrar a exposição e o papel dos preços como sinais para alocação de recursos.
Uma das provocações que trouxe daquela conversa foi justamente que o preço negativo não precisa ser interpretado exclusivamente como defeito do mercado: ele também pode transmitir um sinal útil para armazenamento e deslocamento de consumo.
É aqui que surge, a meu ver, um paradoxo interessante para o Brasil. Estamos aumentando a participação de fontes variáveis e, consequentemente, aumentando a necessidade de flexibilidade. Ao mesmo tempo, estamos discutindo novos mecanismos para contratar baterias, remunerar serviços ancilares e administrar os efeitos do curtailment. Tudo isso pode ser necessário.
Mas deveríamos fazer uma pergunta anterior: o nosso mercado de energia está transmitindo sinais suficientes para que a própria flexibilidade encontre valor econômico?
Quanto menos o preço consegue revelar determinados atributos necessários ao sistema, maior tende a ser a pressão para criarmos mecanismos complementares que os remunerem: leilões específicos, contratos regulados, encargos, novos produtos e novas regras.
Novamente, isso não significa que esses mecanismos sejam inadequados. Em muitos casos serão indispensáveis. A provocação é outra.
Quanto mais precisarmos corrigir fora do preço aquilo que o preço não consegue sinalizar, mais complexa tende a se tornar a arquitetura do mercado.
O curtailment também é um sinal
O debate sobre curtailment torna essa questão ainda mais concreta. Quando uma usina renovável é cortada porque o sistema não consegue absorver sua geração naquele momento, existe uma realidade física evidente: aquela energia adicional, naquele local e naquele instante, não consegue ser integralmente utilizada pelo sistema.
As causas podem ser diferentes e não devem ser confundidas. Há restrições de transmissão, requisitos de segurança elétrica e situações de balanço entre oferta e demanda. Baterias não resolvem todas elas.
Mas o fenômeno levanta uma questão econômica importante. Se em determinados momentos temos energia renovável disponível que não pode ser aproveitada e, algumas horas depois, precisamos de recursos capazes de entregar energia ou reduzir a demanda, existe potencialmente valor em deslocar energia no tempo. É exatamente aí que armazenamento e flexibilidade entram na discussão.
A experiência do NEM Naustraliano mostra como spreads intradiários podem constituir um sinal econômico relevante para baterias. A AEMC, instituição responsável pela elaboração e revisão das regras do mercado australiano, já analisou essas diferenças de preço como parte dos sinais para investimento e operação desses ativos, embora a arbitragem seja apenas uma das possíveis fontes de receita.
A própria AEMC destaca, por exemplo, que a adoção da liquidação a cada cinco minutos buscou produzir melhores sinais de preço para investimentos em tecnologias de resposta rápida, como baterias e resposta da demanda.
E essa transformação já aparece na própria dinâmica do mercado. Segundo a AEMo (Australian Energy Market Operator) responsável pela operação dos sistemas e mercados de eletricidade e gás australianos, no primeiro trimestre de 2026, carga e descarga de baterias, consideradas conjuntamente, estiveram na margem de formação do preço em 32% dos intervalos de despacho do NEM, tornando as baterias a tecnologia que mais frequentemente definiu preços naquele trimestre.
Ou seja, as baterias já não são apenas recursos que respondem ao preço: à medida que ganham escala, passam também a participar da própria dinâmica de sua formação.aemo.com.au Essa talvez seja uma imagem interessante do futuro que estamos começando a construir no Brasil.
O que a Austrália nos obriga a perguntar
Não acredito que a conclusão dessa comparação seja que o Brasil deva simplesmente importar o desenho australiano.
Seria ignorar diferenças fundamentais entre os dois sistemas. Temos uma matriz historicamente hidrelétrica, despacho centralizado, uma arquitetura própria de formação de preços, características distintas de contratação e uma rede de dimensões continentais.
A Austrália não resolveu todos os seus problemas pelo mercado. Pelo contrário: parte das discussões que tivemos durante a missão mostrou justamente os desafios produzidos pela velocidade da transformação energética.
Mas talvez seja exatamente por isso que a experiência australiana seja útil. Ela nos obriga a fazer perguntas. Nosso sistema físico mudou profundamente. Nossos mecanismos de contratação estão mudando. Estamos discutindo baterias, resposta da demanda, recursos distribuídos, curtailment e novos serviços ancilares.
O sinal econômico que conecta todas essas decisões também está mudando na velocidade necessária? Durante muito tempo, a volatilidade foi tratada principalmente como um risco a ser administrado. E continua sendo um risco. A experiência australiana, contudo, acrescenta uma segunda dimensão à discussão: alguma volatilidade também carrega informação sobre abundância, escassez e necessidade de flexibilidade.
O desafio não é produzir volatilidade artificialmente nem reproduzir preços extremos de outro mercado. É construir sinais econômicos capazes de acompanhar a transformação física do sistema.
Porque, se queremos que baterias, consumidores, geradores e novos recursos respondam de forma cada vez mais eficiente às necessidades do setor elétrico, talvez não seja suficiente dizer a eles o que fazer. Precisamos também permitir que o mercado mostre quando essa resposta tem valor.
Instituições, empresas e sites citados
Australian Energy Market Commission (AEMC) — aemc.gov.au
Australian Energy Market Operator (AEMO) — aemo.com.au
Origin Energy Limited — originenergy.com.au
Aurora Energy Research Limited — auroraer.com
Kraken Technologies — kraken.tech
Griffith University — griffith.edu.au
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